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Raiz do Sobrenome   Raiz do Sobrenome
ED 014

Xavier era um castelo basco antes de virar santo

O castelo de Xabier, em Navarra, batizou Francisco em 1506, e o nome chegou ao Brasil pelos livros de assento das missões.

Livro de assento de batismo aberto sobre mesa de madeira, com pena de ave e tinteiro de barro ao lado.

O castelo de Navarra que virou sobrenome

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Numa colina do leste de Navarra, a poucos quilômetros de Sangüesa e da fronteira com Aragão, existe uma torre de pedra escura levantada por volta do fim do século 10. Ao redor dela foram encostando muralha, capela e pátio, até o conjunto virar o castelo que a região chamava de Xabier.

O nome era do lugar, não de gente. Servia para dizer onde ficava a casa, do mesmo jeito que hoje se diz o nome de um bairro.

Ali nasceu, em 7 de abril de 1506, o filho caçula de Juan de Jasso e María de Azpilicueta. Juan tinha estudado em Bolonha e presidia o conselho real de Navarra; María era a herdeira da casa de Xabier, e foi por ela que a família passou a morar no castelo.

O menino recebeu Francisco de nome de batismo. O sobrenome de sangue dele era Jasso pelo pai e Azpilicueta pela mãe, e o que ficou na história não foi nenhum dos dois: ficou o endereço.

A vida do lugar durou pouco depois disso. Castela conquistou o reino de Navarra em 1512, a família ficou do lado perdedor, e por volta de 1516 boa parte das muralhas e das torres do castelo foi mandada desmontar por ordem do cardeal Cisneros.

Aos dezenove anos o rapaz saiu para estudar em Paris. Lá dividiu quarto com um saboiano chamado Pierre Favre e conheceu um basco mais velho, ferido numa guerra, chamado Íñigo de Loyola.

Em 1541 ele embarcou de Lisboa para a Índia portuguesa como enviado do rei. Morou em Goa, percorreu a costa da pescaria da pérola, passou por Malaca, chegou ao Japão em 1549 e parou numa ilha diante da costa da China em 1552.

Setenta anos depois daquele embarque, em 1622, Roma o inscreveu no cânone dos santos junto com o companheiro de Paris. E o nome do castelo, agora colado num santo de alcance global, começou a viajar sozinho.

Antes de abrir livro de batismo brasileiro, vale saber o que a palavra Xabier dizia na língua de quem levantou aquela torre.

Continue lendo ↓

 
 

I  O Sobrenome do Dia

A casa nova que virou castelo

Xabier é palavra basca, e o basco não tem parentesco com o latim, com o espanhol nem com nenhuma língua vizinha. É um idioma isolado, falado nas duas vertentes dos Pirineus ocidentais muito antes de Roma chegar lá.

A forma antiga do topônimo é Etxaberri, colagem de duas peças. Etxe quer dizer casa, e berri quer dizer nova, o que faz do nome uma descrição chata e perfeita: a casa nova.

Essa mesma colagem gerou uma família inteira de nomes bascos que hoje soam sofisticados. Etxeberria, Echeverría, Echavarría e Etcheverry são todos a mesma casa nova, mudando só a ortografia do escrivão que anotou.

O caminho de Etxaberri até Xavier passa por três bocas diferentes. O basco encurtou para Xabier, o castelhano trocou o som inicial e escreveu Javier, e o português manteve o X e fixou Xavier.

A lógica basca de nomear gente é o que explica o resto. Ali o sobrenome quase sempre nasce da casa, do caserío, e não do pai: quem morava na casa nova era o da casa nova, e quem se mudava para outra casa podia trocar de nome junto com a mudança.

O sobrenome basco não descreve uma linhagem, descreve um imóvel. Quem herda o nome herda a lembrança de uma porta, de um vale ou de uma pedra, não uma lista de ancestrais.

Foi por essa regra que Francisco assinou como assinou. Ele era o senhor da casa de Xabier pelo lado da mãe, então o nome do lugar entrou nos documentos como se fosse dele.

Aí acontece a virada que interessa a quem carrega o sobrenome hoje. Com a canonização, o nome do castelo deixou de apontar para uma colina de Navarra e passou a apontar para um santo, e santo vira nome de batismo em qualquer lugar do mundo católico.

No mundo português a devoção pegou com força porque a missão asiática saiu de Lisboa. Igrejas, colégios, engenhos, navios e vilas inteiras foram batizados com o nome, e o menino nascido no dia da festa do santo ganhava o nome sem discussão.

Daí ele desceu mais um degrau. Nome de santo virou nome de batismo, nome de batismo virou identificação da pessoa, e no fim virou sobrenome herdado.

Xavier entra, portanto, na família dos sobrenomes de devoção brasileiros. É a mesma prateleira de dos Santos, de Jesus, do Espírito Santo, da Conceição e do Sacramento, todos escolhidos numa pia batismal e nenhum deles vindo de linhagem.

Essa origem tem uma consequência dura de engolir e boa de saber. Carregar Xavier não prova nenhum parentesco com Navarra, com bascos ou com a família Jasso: prova que alguém, num dia datado, escolheu esse nome para alguém diante de um padre.

E é justamente esse dia datado que fica escrito, com testemunha e assinatura, num livro que ainda existe.

 
 

II  O Registro

O livro de assento que escolheu o nome

O nome de devoção não caiu do céu na certidão da sua família. Ele foi escrito à mão por um padre, numa página numerada, no dia do batismo, e o Brasil colonial produziu esse papel em escala industrial.

A regra que padronizou o registro é de 1707. As Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia mandaram cada freguesia manter livros próprios de batismo, casamento e óbito, com o pároco escrevendo o assento logo depois do ato.

O assento de batismo do período traz um conjunto de dados fixo, e cada um deles abre uma porta diferente na pesquisa.

Data: o dia do batismo, quase sempre poucos dias depois do nascimento, que é o que aproxima a data real.

Nome: o nome escolhido na pia, onde Xavier aparece pela primeira vez na linha do tempo da família.

Pais: nome do pai e da mãe quando declarados, com a condição jurídica anotada ao lado.

Padrinhos: o par de nomes que costuma revelar patrão, vizinho, senhor de engenho ou parente de outro ramo.

Condição: livre, forro, escravo ou índio da aldeia, escrita sem cerimônia pelo pároco.

Nas missões jesuíticas o mesmo livro tinha um peso a mais. A aldeia era uma unidade administrativa com padre residente, e o padre respondia por um censo anual da população, com nascimentos, casamentos e mortes contados um a um para a província da Companhia.

O nome do santo padroeiro da missão contaminava o batistério. Numa redução dedicada a São Francisco Xavier, e existiram várias no Guairá, no Itatim e no Tape entre as décadas de 1620 e 1630, o nome do padroeiro virava a escolha óbvia para o batizando sem sobrenome europeu.

Foi assim que Xavier entrou na população indígena e depois na população livre pobre. Não veio por herança de família fidalga: veio por um padre que precisava de um nome cristão para escrever na linha, e escolheu o nome do santo que tinha na parede.

A guerra guaranítica e a expulsão da Companhia em 1759 dispersaram esse acervo. Parte dos livros das missões foi para Buenos Aires e para Madri, parte se perdeu no caminho, e parte ficou nas paróquias que herdaram o território das aldeias.

O que sobrou, porém, continua sendo o documento mais preciso da genealogia colonial brasileira. O livro paroquial começa antes do registro civil, que só nasceu em 1889, e cobre o período em que ninguém mais anotava nascimento nenhum.

Achar a página certa é menos questão de sorte do que de endereço, e os endereços são conhecidos.

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III  A Rota

Da freguesia do sertão ao arquivo de Pamplona

A busca por um Xavier tem quatro paradas, e nenhuma delas começa com o sobrenome digitado numa caixa de busca.

Comece pela paróquia da cidade onde a família já aparece. Peça o livro de batismo da freguesia no período, anote livro, folha e número do assento, e copie o nome dos padrinhos junto, porque padrinho é a pista que atravessa gerações.

A segunda parada é o arquivo diocesano. Quase toda diocese brasileira recolheu os livros antigos das paróquias para um arquivo central, e boa parte desse acervo já foi microfilmada e está indexada no acervo do FamilySearch, consulta gratuita.

A terceira parada é o rastro da missão. O Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul e o Museu das Missões guardam documentação do período missioneiro, e a série da Companhia de Jesus, com as cartas ânuas e os censos das aldeias, está no Archivum Romanum Societatis Iesu, em Roma.

Some a essa parada os arquivos portugueses. O Arquivo Histórico Ultramarino, em Lisboa, guarda a correspondência entre o Conselho Ultramarino e as capitanias, e o Arquivo Nacional da Torre do Tombo tem o fundo dos jesuítas e das visitações.

A quarta parada só interessa a quem achou ligação real com Navarra, e quase ninguém tem. É o Archivo Real y General de Navarra, em Pamplona, que guarda a documentação do reino.

Três armadilhas derrubam a maioria das buscas por esse sobrenome.

A primeira é a grafia. Procure por Xavier, Xavier de, Exavier, Chavier, Javier e Xabier, e teste também as formas em que o escrivão colou o nome ao anterior, porque o índice alfabeta pela letra escrita e não pelo som falado.

A segunda é confundir devoção com sangue. Duas famílias Xavier da mesma vila costumam não ter parentesco, e só o assento com o nome dos pais separa uma da outra.

A terceira é procurar pessoa quando o caminho é freguesia. Achada a paróquia e a década, o nome aparece sozinho: o livro é organizado por data e lugar, nunca por sobrenome.

Achar a primeira aparição do nome na sua família segue três movimentos, nesta ordem.

Passo 1: feche a corrente do que existe em cartório. Peça certidão de inteiro teor de cada nascimento, casamento e óbito que a família conhece, e desça até o registro mais antigo que ainda cita nome de pai e mãe.

Passo 2: troque o cartório pela igreja. Com a cidade e a década em mãos, entre no livro de batismo da freguesia e no arquivo diocesano, e copie a folha inteira, não só a linha do seu antepassado.

Passo 3: teste a hipótese da missão. Se a região tem aldeia ou redução no período, procure o padroeiro da missão e compare com o sobrenome, porque o nome do santo local explica a maioria dos Xavier surgidos do nada.

O sobrenome que hoje abre um email de trabalho já foi o nome de uma casa nova numa colina de Navarra, depois o nome de um santo pintado na parede de uma capela de taipa, e por fim a palavra que um padre escolheu escrever num livro de página numerada. A prova está na folha, com data, testemunha e assinatura.

"Em que livro de batismo, de qual freguesia, o Xavier da sua família aparece pela primeira vez?"

 
 
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