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Tanaka nasceu num decreto de 1875
O camponês japonês não tinha sobrenome até 1870, e o decreto Meiji de 1875 mandou cada família escolher o seu, quase sempre copiado da paisagem.
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O carimbo de nome sobre a linha do registro
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O Japão tem mais de cem mil sobrenomes em circulação, e as estimativas mais generosas passam do triplo. A Coreia, do outro lado do mar, resolve a maior parte da população com algumas centenas, e três deles, Kim, Lee e Park, cobrem perto da metade da gente.
A diferença não vem de cultura antiga. Vem de uma data. Em 13 de fevereiro de 1875, o Dajokan, o Conselho de Estado do governo Meiji, publicou a proclamação que obrigava todo plebeu japonês a declarar um sobrenome e a usar o nome escolhido em qualquer papel oficial.
Antes daquele decreto, sobrenome era privilégio. Samurai tinha, nobre da corte tinha, comerciante rico e chefe de aldeia às vezes tinham por concessão. O camponês, que era a maior parte do país, se identificava pela aldeia, pelo nome da casa e pelo nome de pia, e nada além.
Cinco anos antes o governo já tinha liberado o uso, em 1870, sem obrigar ninguém, e quase ninguém aderiu. A desconfiança tinha fundamento: o nome novo fixava o contribuinte e localizava recruta, e a reforma do imposto sobre a terra e o alistamento obrigatório saíram na mesma década.
Em 1875 acabou a escolha. Milhões de famílias precisaram inventar uma etiqueta em poucos meses, no balcão do escritório da aldeia, muitas vezes com o chefe local ou o monge do templo sugerindo alguma coisa que servisse.
O material mais à mão era a paisagem. O arrozal, a montanha, o rio, o poço e o bosque entraram na certidão de gente que nunca tinha assinado nada, aos milhões, no mesmo ano, sem coordenação nenhuma entre uma aldeia e a seguinte.
Trinta e três anos depois, aqueles nomes recém-nascidos cruzaram dois oceanos dentro do Kasato Maru e entraram nos livros do porto de Santos com uma inversão de ordem que ainda hoje derruba a busca de quem procura o bisavô.
Antes de procurar a família, vale ler o nome pelo que ele é: uma descrição de terreno, montada em duas peças, que dá pra desmontar sem falar japonês.
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I O Sobrenome do Dia
O nome tirado do meio do arrozal
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O sobrenome do camponês japonês tem data de nascimento, e ela é 1875.
Tanaka é a descrição de um terreno, e não de uma linhagem. A palavra tem duas peças: ta é o arrozal alagado, naka é o meio. Tanaka é o meio do arrozal, e nada mais que o meio do arrozal.
Yamamoto funciona igual. Yama é a montanha, moto é a base, o pé de alguma coisa. Yamamoto é o pé da montanha, e a família que escolheu o nome morava exatamente ali quando o oficial perguntou.
As peças são poucas e se repetem à exaustão: ta pro arrozal, yama pra montanha, kawa pro rio, naka pro meio, moto pra base, ue pra parte de cima, hayashi pro bosque, i pro poço.
Com essas peças se monta meia lista telefônica japonesa. Yamada é o arrozal da montanha, Nakamura é a aldeia do meio, Kobayashi é o bosque pequeno, Inoue é acima do poço, Matsumoto é o pé do pinheiro.
Uma parte da lista, porém, não copiou a paisagem: copiou prestígio. O to que fecha Sato, Kato, Ito e Saito é o caractere da glicínia, fuji, e aponta pro clã Fujiwara, que mandou na corte por séculos. Quem pegou um nome desses em 1875 herdava o brilho do clã, não o sangue.
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O sobrenome japonês costuma ser um endereço. O que a família via da porta de casa em 1875 virou a etiqueta dela pra sempre.
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Coreia e China formaram sobrenome ao longo de séculos, por clã, e ficaram com listas curtas. O Japão formou quase todos no mesmo ano, por descrição de terreno, e a diferença de tamanho vem daí.
Nenhum nome domina o país. Sato, o mais comum, está na casa de um milhão e oitocentos mil pessoas, e nem assim chega a dois por cento do Japão. Tanaka aparece entre os cinco primeiros, perto de um milhão e trezentos mil.
Daí sai o aviso que economiza busca: dois Tanaka não têm parentesco por serem Tanaka. Eles têm em comum o formato do terreno onde cada família estava em 1875, e a certidão não avisa que a coincidência para aí.
Falta a armadilha da leitura. O mesmo par de caracteres aceita mais de uma pronúncia, e a mesma pronúncia aceita mais de um par de caracteres: Nakata e Nakada saem da mesma escrita.
No papel brasileiro sobrou só a pronúncia, em letra latina, e a escrita original ficou pra trás. Ela não se perdeu: continua guardada num livro que o Estado japonês mantém desde 1872, e que não pertence à pessoa.
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II O Registro
O livro que segue a casa, não a pessoa
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O documento que resolve uma família japonesa não é o do indivíduo. É o da casa: o koseki registra um domicílio legal, e todo nascimento, casamento, adoção e saída daquela casa entra na mesma página.
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O koseki nasceu em 1872, três anos antes do decreto dos sobrenomes. O Estado precisava contar gente pra cobrar imposto e pra alistar soldado, e o sobrenome obrigatório foi a peça que faltava pra cada linha ganhar etiqueta fixa.
A primeira versão está fechada. Ela trazia anotação de casta e de origem social, e desde 1968 o governo japonês proibiu a consulta, inclusive pela própria família. Não adianta pedir.
O que se consegue começa na versão de 1886. Depois dela vieram as de 1898 e de 1915, e cada reforma copiou a anterior, então uma cópia tirada do modelo de 1915 costuma trazer gente nascida em 1860.
A chave do sistema é o honseki, o domicílio legal da família. Ele não é onde a pessoa morava: é o endereço que a casa declarou, e o registro só existe na prefeitura daquele lugar.
Sem o honseki não há pedido possível. O sobrenome sozinho não substitui o endereço, porque qualquer cidade japonesa tem centenas de Tanaka sem ligação entre si.
O que a cópia entrega compensa a burocracia. Ela traz o nome em caractere, a data de nascimento, o pai, a mãe, a ordem entre os irmãos, casamento, adoção e, na linha mais valiosa, o honseki anterior, que aponta pro registro de onde a casa saiu.
Registro encerrado tem nome próprio, joseki, e prazo de guarda. O prazo era de oitenta anos e passou pra cento e cinquenta em 2010, tarde demais pra parte do que já tinha ido pro descarte nas primeiras décadas do século 20.
Some também por guerra e por terremoto: os bombardeios de 1945 e o terremoto de 1923 levaram cartório inteiro.
O pedido é restrito à linha direta. Descendente em linha reta consegue, primo e sobrinho não, e a prova de parentesco vai junto. De fora do Japão o caminho é o correio, e o consulado japonês orienta o formato.
Falta dizer onde se acha o honseki quando ninguém na família lembra. Ele está na papelada do passaporte: o Ministério dos Negócios Estrangeiros do Japão anotou cada passaporte de emigrante em tabelas de concessão, com nome, idade, destino e o honseki descrito até a aldeia.
Essas tabelas estão no arquivo diplomático do ministério, e boa parte foi digitalizada no JACAR, o centro japonês de registros históricos da Ásia, com consulta aberta. É o papel que troca a palavra Japão pelo nome de um povoado.
Com o povoado anotado, falta a outra ponta da linha. Ela está num livro brasileiro que recebeu o mesmo nome e o arquivou na coluna errada.
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