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Rossi começou como apelido de ruivo e virou o nome mais comum da Itália
Rossi nasceu do apelido para cabelo ruivo, lidera o ranking italiano e a chegada da família ao Brasil está na lista da Hospedaria do Brás.
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Do porto de Gênova ao arquivo do Brás
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Entre 1870 e 1920, cerca de 1,4 milhão de italianos desembarcaram no Brasil. Mais da metade deles parou em São Paulo, e a maior parte chegou pelo mesmo funil: o porto de Santos, o trem da Serra do Mar e um galpão de tijolo no bairro do Brás.
O prédio foi erguido no fim da década de 1880 para receber quem vinha de navio, e chegou a abrigar quatro mil pessoas ao mesmo tempo. Tinha dormitório, refeitório, enfermaria, desinfecção de bagagem e uma agência de colocação de trabalhadores dentro da própria construção.
A família recém desembarcada ficava ali poucos dias. Comia, dormia, era examinada por um médico e saía contratada para uma fazenda de café do interior paulista ou para uma fábrica da capital, quase sempre sem escolher o destino.
Antes de sair, porém, ela passava por uma mesa e virava linha de livro. Um funcionário anotava nome, idade, estado civil, profissão declarada, província de origem, religião, navio, data de entrada e a fazenda ou o município para onde o grupo seguia.
Essa anotação é a razão de esta edição existir. Quem descende de imigrante italiano no Brasil costuma reclamar que a família some depois do bisavô, mas a verdade é o contrário: entre o Atlântico e o cafezal existe uma página com o nome de cada um dos que chegaram juntos.
A lista nominativa da Hospedaria cobre um período longo, começa no início da década de 1880 e vai até o fim dos anos 1970, e hoje ela não exige carta, taxa nem despachante. Está digitalizada e aberta ao público, com busca por nome, no acervo do museu que ocupa o mesmo prédio.
Há um obstáculo, e ele é grande. O sobrenome de que falamos hoje é o mais frequente de toda a Itália, o que significa dezenas de famílias sem parentesco entrando pelo mesmo porto, na mesma década, com nomes próprios repetidos.
Achar a linha certa exige entender primeiro de onde a palavra vem, por que ela se espalhou tanto e o que a grafia denuncia sobre a região de origem.
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I O Sobrenome do Dia
O apelido de cabelo que virou nome de família
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Rossi é o plural de rosso, a palavra italiana para vermelho. Aplicada a gente, ela não descrevia roupa nem brasão: descrevia cabelo, barba ou pele avermelhada, e funcionava como apelido de reconhecimento numa aldeia onde vários homens tinham o mesmo nome de batismo.
O mecanismo é o mais antigo da onomástica europeia. Antes do sobrenome hereditário existia o nome único, e quando duas pessoas na mesma paróquia se chamavam Giovanni, o vizinho resolvia o problema acrescentando a característica visível: Giovanni il Rosso, o Giovanni ruivo.
A forma plural entra por parentesco. Os filhos e a casa de il Rosso passavam a ser identificados como i Rossi, os do ruivo, e é essa forma coletiva que se fixa em documento entre os séculos 13 e 16, quando o notariado italiano começa a exigir um segundo elemento estável para cada indivíduo.
O resultado é o sobrenome mais frequente da Itália. Rossi encabeça o ranking nacional, aparece em praticamente todas as regiões e é tão comum que virou nome de exemplo em formulário, contrato modelo e manual de burocracia, o equivalente italiano do nosso Fulano de Tal.
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Apelido descritivo nasce isolado, em cada vale e em cada século, e por isso o sobrenome mais comum de um país é justamente o que menos prova parentesco.
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A distribuição dentro da Itália ajuda muito mais que a estatística nacional. Rossi se concentra no centro e no norte, com peso grande na Emília-Romanha, na Toscana, na Lombardia, no Lácio e no Vêneto, regiões que forneceram boa parte da emigração para São Paulo.
No sul da península, a mesma ideia produziu outra palavra. Russo domina a Sicília, a Calábria e a Campânia, e um Russo brasileiro quase sempre aponta para o Mezzogiorno, enquanto um Rossi aponta para o centro norte. A escolha entre as duas letras já corta metade do mapa.
Há ainda a família de variantes derivadas, e cada uma carrega uma pista geográfica ou de diminutivo: Rossetti, Rossini, Rossato, Rossin, Rossignoli, De Rossi, Del Rosso, Rubini. Formas terminadas em ato e in são marca vêneta, formas com de indicam pertencimento a uma casa.
O que muda com frequência é o nome próprio. Giovanni vira João, Giuseppe vira José, Pietro vira Pedro e Angelo vira Ângelo já no primeiro registro brasileiro da família, e é essa troca, não o sobrenome, que quebra a busca de quem procura pela grafia italiana original.
Com o significado entendido e a região provável reduzida, o passo seguinte é encontrar o documento que marca a entrada da família no país, com data, navio e destino escritos na mesma linha.
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II O Registro
A lista nominativa que abriu em 1882
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A Hospedaria de Imigrantes do Brás foi construída pelo governo da província de São Paulo para resolver um problema de logística. O café precisava de braços, o imigrante chegava sem ter onde dormir, e a solução foi um prédio de recepção ligado por ramal ferroviário à estação, para que ninguém precisasse atravessar a cidade a pé.
O funcionamento era o de uma triagem. O navio atracava em Santos, os passageiros de terceira classe subiam a serra de trem, entravam no galpão, passavam pelo banho e pela desinfecção da bagagem, e no dia seguinte já estavam diante do agente que fazia o contrato de colonato.
O registro dessa passagem virou a lista nominativa de entrada de imigrantes, hoje a série documental mais importante da imigração brasileira. Ela cobre de 1882 a 1978 e reúne cerca de 2,5 milhões de pessoas de mais de setenta nacionalidades, todas nomeadas uma a uma.
O que a linha traz é mais do que um nome. Constam sobrenome e nome próprio, idade, sexo, estado civil, parentesco com o chefe do grupo, nacionalidade, província ou comune de procedência, profissão, religião, alfabetização, nome do vapor, porto de embarque, data de entrada e destino contratado.
O detalhe do parentesco é o que transforma a lista em ouro genealógico. A família aparece agrupada na mesma página, com pai, mãe, filhos e às vezes um irmão solteiro ou um sogro viúvo, o que reconstrói uma geração inteira num único documento.
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"A imigração italiana para São Paulo foi, antes de tudo, uma imigração de famílias inteiras, e não de homens sozinhos." Zuleika Alvim, Brava Gente! Os Italianos em São Paulo, 1986.
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O prédio deixou de receber imigrantes em 1978 e hoje abriga o Museu da Imigração do Estado de São Paulo, que guarda o acervo e mantém o serviço de pesquisa. A consulta é gratuita, feita pelo site, e devolve a imagem digitalizada do livro original, não apenas a transcrição.
A busca aceita nome, sobrenome, nacionalidade, nome do navio e intervalo de datas, e permite combinar campos. Buscar apenas por Rossi devolve um volume inútil de resultados; buscar por Rossi mais o ano provável mais a nacionalidade italiana já reduz a lista a algo legível.
A lista tem limites que precisam ser ditos. Ela registra quem passou pela Hospedaria, e nem todo imigrante passou: quem tinha dinheiro para pagar a própria passagem, quem vinha chamado por parente já estabelecido e quem entrou por outro porto podem não estar ali.
Existem também falhas de série. Há períodos com livros danificados, há grafias trocadas pelo ouvido do escrivão, que anotava um sobrenome dito em dialeto.
A regra de uso é a mesma de toda fonte serial. A lista prova entrada, data e composição do grupo familiar, e serve de ponte entre o documento brasileiro e o documento italiano, mas ela não prova ascendência anterior ao embarque. Para trás do porto, quem responde é a paróquia do comune.
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