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Quem desceu em Vitória ficou fora da lista de Santos

Os livros de entrada de imigrantes do Espírito Santo estão no arquivo público estadual, digitalizados e abertos para consulta.

Registro de entrada de imigrantes aberto ao lado de uma âncora.

Lista de chegada do porto de Vitória

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Consultar os livros de entrada de imigrantes do Espírito Santo custa R$ 0 no site do Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, o APEES (ape.es.gov.br, consulta em 24/10/2026), e a busca na base paulista também sai de graça. A diferença entre as duas está no porto: a família capixaba que procura o bisavô só em São Paulo gasta tempo numa lista onde ele nunca entrou.

Em fevereiro de 1874, o veleiro La Sofia ancorou na baía de Vitória com cerca de 380 trentinos e vênetos, recrutados pelo empresário Pietro Tabacchi para as terras dele em Santa Cruz, no litoral norte da província. Nenhum daqueles passageiros pisou em Santos.

A província já recebia estrangeiros fazia décadas. Alemães fundaram a colônia de Santa Isabel, e suíços, alemães e pomeranos (camponeses da Pomerânia, região do mar Báltico hoje dividida entre Alemanha e Polônia) subiram as serras rumo a Santa Leopoldina.

Depois de Tabacchi, os italianos viraram maioria entre os recém-chegados. O governo imperial e, mais tarde, o estadual pagavam a passagem de famílias inteiras de lavradores, e os navios descarregavam gente no cais da capital para depois mandá-la de barco, canoa ou lombo de mula aos núcleos coloniais do interior.

Cada desembarque gerava papel. Funcionários da província contavam os passageiros, anotavam idade e procedência e indicavam para onde cada família seguiria. Essas listas ficaram em Vitória, nas mãos da administração capixaba.

O Museu da Imigração, em São Paulo, guarda o acervo da Hospedaria do Brás, por onde passava quem chegava pelo porto de Santos. Quem descia em Vitória não deixou linha nesse acervo, e a busca paulista volta vazia sem que haja erro de grafia nenhum: o navio simplesmente aportou em outra província.

O APEES transcreveu as listas de chegada e montou uma base pesquisável, o Projeto Imigrantes Espírito Santo, com a imagem digitalizada dos registros originais ao lado de cada transcrição.

Antes de abrir esses registros, vale conhecer um sobrenome trentino que trocou de final no caminho entre o navio e o cartório, e a primeira seção conta como.

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I  O Sobrenome do Dia

Venturim, o Venturini com sotaque capixaba

Venturim é a forma capixaba de Venturini, sobrenome italiano comum no Trentino, no Vêneto e na Lombardia, e uma das grafias que mais confundem quem procura antepassados chegados a Vitória.

A raiz é o prenome Ventura, muito usado na Itália medieval, ao lado de Bonaventura (boa sorte). O latim ventura queria dizer o que está por vir, e o prenome carregava o voto de um futuro bom para a criança.

O final -ini é um sufixo italiano de diminutivo e de filiação. Venturini marcava os filhos ou a gente da casa de um homem chamado Ventura, e o plural ficou preso à família quando o apelido virou herança.

O linguista Emidio De Felice, no “Dizionario dei cognomi italiani” (Mondadori, 1978), registra Venturini entre os sobrenomes derivados de Ventura e aponta a concentração deles no norte da Itália, de onde saiu a maior parte dos imigrantes capixabas.

VENTURINI NO NAVIO, VENTURIM NA CERTIDÃO

No Espírito Santo, o -ini final perdeu a vogal. O escrivão brasileiro ouvia o italiano pronunciar o sobrenome e escrevia como soava em português, com a nasal fechando a palavra: Venturini virava Venturim.

A mesma troca aparece em outros sobrenomes trentinos e vênetos nos registros capixabas, como Fiorini, que vira Fiorim, e Bortolini, que vira Bortolim. Ela é tão frequente que a terminação -im funciona quase como uma marca regional da imigração italiana no estado.

Não existe data única para a mudança. Em algumas famílias ela já aparece no batismo do primeiro filho nascido no Brasil; em outras só surge no registro civil, criado no país em 1889 com a República. Para saber quando ela ocorreu na sua árvore, só comparando documento a documento.

Os livros de entrada guardam a forma anterior. O funcionário que contava os passageiros no cais costumava copiar o sobrenome do passaporte ou da lista do navio, ainda com a grafia italiana.

Há também o caso inverso: famílias que voltaram a escrever Venturini décadas depois, ao pedir a cidadania italiana, porque o consulado trabalha com a grafia do batismo na Itália. Na mesma árvore, dois irmãos podem assinar de formas diferentes.

Daí o primeiro teste: se a família assina Venturim, Fiorim ou Bortolim, a busca nos registros de chegada deve começar pela forma com -ini. A forma capixaba quase nunca está lá.

 
 

II  O Registro

O que a lista de chegada anotava

As listas de entrada do Espírito Santo seguiam colunas parecidas de navio para navio. A primeira trazia o chefe da família, seguido da esposa e dos filhos, cada um na sua linha.

Depois vinham idade, estado civil e nacionalidade. A idade era a declarada no embarque, sem certidão, e dois ou três anos de diferença em relação ao batismo italiano aparecem com frequência.

Em seguida, a procedência e a profissão. Procedência, nesses papéis, podia ser a cidade, a comuna (o município italiano) ou só a região; a profissão quase sempre dizia lavrador, porque a passagem subsidiada era dada a famílias de agricultores.

A coluna mais preciosa para o genealogista fica entre as últimas colunas: o destino. Ali o funcionário escrevia a colônia ou o núcleo para onde a família iria, como Santa Leopoldina, Santa Teresa, Rio Novo ou Castelo.

O DESTINO NA LISTA APONTA A IGREJA ONDE PROCURAR O BATISMO

Com a colônia em mãos, a família de hoje sabe em qual paróquia procurar o casamento dos filhos, o batismo dos netos e o óbito dos pais. O destino da lista de chegada é a ponte entre o navio e os registros religiosos do interior.

Cada lista também traz o vapor ou veleiro, o porto de embarque, quase sempre Gênova para os italianos e Hamburgo ou Bremen para os alemães, e a data de chegada a Vitória.

Nos anos finais do século XIX, os recém-chegados passavam alguns dias na Hospedaria de Imigrantes da Pedra d’Água, em Vila Velha, do outro lado da baía. A hospedaria também deixou registros, e parte deles completa as listas do cais.

Com navio e data em mãos, ainda dá para procurar a lista de partida no porto europeu, guardada em arquivos de Gênova ou de Hamburgo, e ali às vezes consta a comuna exata de onde a família saiu.

A fonte tem lacunas. Algumas listas se perderam, outras saíram com nomes grafados de ouvido, e famílias que entraram por outro porto e chegaram ao estado por terra ou por cabotagem (navegação entre portos do mesmo país) podem não ter linha nenhuma nos registros de Vitória.

Também há trocas de prenome. Giovanni aparece como João, Giuseppe como José, Luigi como Luiz, conforme o funcionário traduzia ou não o que ouvia. Na busca, vale tentar as duas línguas antes de concluir que a pessoa não está ali.

 

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III  A Rota

Do site do APEES à linha do bisavô

A rota parte de três dados: sobrenome na grafia de origem, a colônia onde a família viveu e um intervalo de anos entre 1847 e 1900. O objetivo é chegar à linha da família na lista de chegada e à imagem do registro original.

• Passo 1: acesse ape.es.gov.br e abra a área do Projeto Imigrantes Espírito Santo.

• Passo 2: busque o sobrenome na forma italiana ou alemã, como Venturini, e depois na capixaba, como Venturim.

• Passo 3: anote navio, data de chegada, porto de embarque e destino de cada resultado.

• Passo 4: abra a imagem digitalizada da lista e confira a linha original, letra por letra.

• Passo 5: copie a família inteira, com o chefe, a esposa, os filhos e as idades de cada um.

No passo 1, a consulta sai sem custo e sem cadastro pago. Pedidos de cópia certificada de documento seguem regra própria, e o próprio APEES informa as condições pelo atendimento.

No passo 2, a busca por sobrenome costuma trazer várias famílias. Separe-as pelo prenome do chefe e pela colônia de destino, que a tradição oral da família muitas vezes ainda lembra.

No passo 3, o destino da lista diz em qual paróquia continuar a busca. Os registros de batismo, casamento e óbito das colônias estão nas paróquias e nas cúrias diocesanas do estado, e parte deles também foi microfilmada.

No passo 4, a imagem resolve as dúvidas da transcrição. Um Bortolini lido como Bertolini, uma idade trocada ou um filho omitido aparecem na hora em que o papel original abre na tela.

No passo 5, copie a linha como está, sem corrigir a grafia. A forma escrita no cais é a prova mais antiga do sobrenome em solo brasileiro, e vale guardar a imagem junto da árvore.

Se a linha aparecer, a árvore ganha o que a certidão brasileira não dá: o navio, a data exata da chegada, a idade de cada filho no embarque e a colônia para onde a família seguiu.

Se não aparecer, há três explicações possíveis: a família entrou por outro porto, a lista daquele navio se perdeu, ou o sobrenome saiu escrito de um jeito ainda não testado. Sem a lista, não há como saber qual delas vale, e a busca segue pelas variantes e pela paróquia da colônia.

“Na sua família, algum sobrenome italiano terminado em -im esconde um -ini de origem?”

Hoje, até as 22h: rode 2 buscas no site do APEES com o sobrenome da família, uma na grafia italiana e outra na capixaba, e anote o navio e a data que aparecerem.

 
 
Quiz da edição

Quem recrutou os cerca de 380 trentinos e vênetos que desceram do veleiro La Sofia em Vitória, em fevereiro de 1874?

AO governo imperial
BO empresário Pietro Tabacchi
CO Museu da Imigração
DO APEES

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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