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A rota tem quatro endereços, e ela começa perto de casa, nunca em Lisboa.
O primeiro endereço é o arquivo distrital do distrito onde a família viveu. Braga, Porto, Coimbra, Viseu e Évora guardam os livros paroquiais de batismo, casamento e óbito, quase todos digitalizados e abertos.
É ali que se pega a naturalidade, o dado que destrava o resto. Sem a freguesia, o sobrenome sozinho devolve milhares de homônimos espalhados por três séculos.
O segundo endereço é o Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa. O fundo Tribunal do Santo Ofício reúne as inquisições de Lisboa, Évora, Coimbra e Goa, além do Conselho Geral, e a busca por nome roda no DigitArq, gratuito, em digitarq.arquivos.pt.
Boa parte dos processos está digitalizada imagem por imagem. Quem acha a referência costuma conseguir ler o documento inteiro na tela, sem viajar e sem pedir cópia.
O terceiro endereço são as habilitações do Santo Ofício e das ordens militares, no mesmo arquivo. Elas costumam estar organizadas pelo nome próprio do habilitando, e não pelo sobrenome, detalhe que faz muita busca falhar na primeira tentativa.
O quarto endereço são os cadernos de denúncia e as listas de paróquia. Os róis de confessados anotavam, uma vez por ano, todos os moradores de cada casa da freguesia, com nome, idade e parentesco.
Duas armadilhas atrapalham quem busca por sobrenome. A primeira é a grafia: Pereira aparece como Pereyra, Pereira de Sousa, Pereira da Silva, e o escrivão do século 17 escrevia de ouvido, uma linha por vez.
A segunda é mais séria e pega quase todo mundo. Até o século 19, irmãos portugueses não usavam necessariamente o mesmo sobrenome: um ficava com o do pai, outro com o da mãe, outro com o da avó.
Três filhos da mesma casa podiam assinar Pereira, Fonseca e Gomes sem nenhuma irregularidade. Buscar só pelo sobrenome que chegou até você corta dois terços da própria família.
A letra cobra pedágio. Documento de 1600 vem em letra processual, cheia de abreviatura, e vale copiar o trecho à mão até a vista acostumar.
Achar o processo da sua família começa com três movimentos, nesta ordem.
Passo 1: fixe a freguesia antes de abrir qualquer base. Ache o batismo do antepassado mais antigo que você já tem e copie o nome dos pais, dos avós e qualquer qualificação escrita na margem.
Passo 2: no DigitArq, busque sobrenome mais freguesia dentro do fundo Tribunal do Santo Ofício e nas habilitações. Anote todo processo da mesma localidade, mesmo com nome próprio diferente, porque vizinho de freguesia costuma ser parente.
Passo 3: abra a sessão de genealogia do processo e copie todos os nomes, com idade e morada. Depois volte ao livro paroquial e feche a corrente, batismo por batismo, até chegar ao seu ramo.
A pereira do nome cresceu no quintal de alguém, e o quintal tinha dono, freguesia e escrivão. A resposta que a árvore não dá está escrita em Lisboa, com número de processo e data.
"Que palavra o padre escreveu ao lado do nome do seu antepassado?"
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