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Penner, o sobrenome holandês que parou no vale do Krauel em 1930
Penner nasceu no delta do Vístula, atravessou a Ucrânia russa e desembarcou em Santa Catarina em 1930, com quem escapou da União Soviética.
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Do delta do Vístula ao vale do Krauel
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A certidão de inteiro teor de um nascimento registrado em cartório catarinense sai por cerca de R$ 70 na tabela de emolumentos publicada para 2026 pelo Tribunal de Justiça de Santa Catarina, e a imagem do livro de uma congregação menonita sai por R$ 0 no acervo digital do Mennonite Heritage Archives, em Winnipeg. A diferença tem causa simples: o cartório vive de emolumento e cobra por folha certificada, enquanto a comunidade que escreveu os próprios livros abriu o acervo de graça, porque queria ser reencontrada depois de ter sido espalhada por três continentes.
Quem carrega o sobrenome Penner cresceu ouvindo em casa que a família veio da Alemanha. O passaporte de 1930 dizia Alemanha mesmo, e a frase da mesa nasceu daí. A Alemanha foi o corredor de saída, nunca o ponto de partida, e tratar a escala como origem manda o pesquisador procurar bisavô em arquivo de província alemã onde ele nunca morou.
Penner é nome de gente que rezava em holandês, falava baixo-alemão e vivia em terra drenada do delta do rio Vístula, hoje território polonês. Aquela gente saiu dos Países Baixos no século XVI fugindo de perseguição religiosa, secou pântano por contrato com as cidades da região e ficou duzentos anos ali. Depois desceu para as estepes do sul do Império Russo a convite da czarina Catarina II, e é dessa Ucrânia russa que o Penner brasileiro saiu.
A saída foi apressada e violenta. Em 1929, com a coletivização forçada da terra, milhares de camponeses alemães e menonitas acamparam nos arredores de Moscou pedindo autorização para emigrar. O governo alemão recolheu parte deles em campos improvisados, e um grupo desembarcou em Santa Catarina em 1930, num vale de mata fechada chamado Krauel, perto do atual município de Presidente Getúlio.
O caminho de volta, para quem pesquisa hoje, passa por três balcões que não são o cartório. Comece pela palavra, pelo pântano que a gerou e pelo livro que a comunidade nunca entregou ao Estado.
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I O Sobrenome do Dia
Um sobrenome nascido em pântano drenado
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Benjamin Heinrich Unruh, no levantamento Die niederländisch niederdeutschen Hintergründe der mennonitischen Ostwanderungen, publicado em 1955, lista os Penner entre as famílias de origem neerlandesa instaladas no delta do Vístula, a planície alagada em torno das cidades de Danzig e Elbing. É o trabalho que mais nomes de família reúne dessa migração, e ele coloca o sobrenome no grupo mais antigo, o das casas que atravessaram o Báltico ainda no século XVI.
A palavra tem duas leituras, e nenhuma delas fechou. A primeira lê Penner como patronímico, nome tirado do pai, formado sobre Penn, forma curta de um nome pessoal frísio, com o sufixo er marcando filiação. A segunda lê o termo como gentílico, nome tirado de lugar, ligado a uma localidade chamada Penne. Os dicionários onomásticos registram as duas e não decidem entre elas, porque falta documento do século XV que mostre a passagem do nome pessoal para nome de família.
O que está resolvido é o ofício. Aquela gente chegou ao delta contratada para drenar brejo, erguer dique e abrir vala, trabalho que os documentos da região chamam de Hollerei, a obra dos holandeses. As cidades davam privilégio de arrendamento, e a comunidade pagava com engenharia hidráulica.
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PENNER NÃO APONTA UMA FAMÍLIA, APONTA UMA COMUNIDADE FECHADA ONDE MEIA DÚZIA DE SOBRENOMES SE REPETIU DURANTE QUATRO SÉCULOS DE CASAMENTO INTERNO
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A consequência para quem monta árvore é pesada. O grupo casava dentro de si por regra de fé, e o estoque de sobrenomes ficou pequeno: Penner, Friesen, Wiebe, Klassen, Dyck, Epp, Janzen e mais uma dúzia cobrem quase toda a população. Encontrar dois Penner na mesma aldeia do Vístula em 1750 não prova parentesco próximo, e três aldeias vizinhas podiam ter famílias Penner sem avô comum em duzentos anos.
A língua da casa separa o grupo. Eles falavam plautdietsch, o baixo alemão menonita, dialeto germânico do norte que nasceu no delta e viajou com eles para a Rússia e depois para a América. O culto ficou em holandês até meados do século XVIII e só então passou ao alemão padrão. Antepassado que falava plautdietsch em casa, lia alemão na igreja e tinha sobrenome holandês é menonita, não alemão do Reno.
O nome viajou para o leste por contrato. Catarina II abriu as estepes recém tomadas do Império Otomano a colonos estrangeiros, e os menonitas do Vístula aceitaram em 1789, fundando a colônia de Chortitza, no rio Dnieper, e em 1804 a de Molotschna. O pacote trazia isenção de serviço militar, terra em lote e liberdade de culto, e foi o fim dessa isenção que empurrou parte do grupo para fora outra vez.
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II O Registro
O livro da congregação no lugar do cartório
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O Penner que desembarcou no Brasil em 1930 deixou rastro em quatro acervos, e o cartório é o mais pobre deles. A comunidade menonita manteve registro próprio de batismo, casamento e sepultamento desde o delta, num caderno de congregação chamado Kirchenbuch, o livro da igreja, e esse caderno atravessou a Rússia e o Atlântico dentro da bagagem.
O segundo acervo é alemão e está indexado. As listas de passageiros do porto de Hamburgo, guardadas no Staatsarchiv Hamburg e digitalizadas com busca por nome, registram embarque, idade, profissão declarada e destino de cada família que saiu em 1930 rumo ao Rio de Janeiro e a Itajaí. É o documento que prende a família a uma data exata e a um navio.
O terceiro é a papelada da empresa que financiou a viagem. A Companhia Hanseática de Colonização, sediada em Hamburgo, comprou as terras catarinenses, transportou os grupos e anotou lote por lote quem recebeu o quê no Krauel e no planalto Stoltz, perto de Hammonia, nome antigo de Ibirama.
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"A tentativa de implantação da cultura europeia em extenso território, dotado de condições naturais, se não adversas, largamente estranhas à sua milenar tradição, é, nas origens da sociedade brasileira, o fato dominante e mais rico em consequências." Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil, 1936."
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O PASSAPORTE DE 1930 TRAZIA CARIMBO ALEMÃO E SOBRENOME HOLANDÊS: O PAPEL REGISTRA A ESCALA DA FUGA, NUNCA O LUGAR ONDE O NOME FOI ESCRITO PELA PRIMEIRA VEZ
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O episódio que gerou esses papéis tem contorno nítido. No outono de 1929, camponeses menonitas e luteranos vindos da Sibéria e da Ucrânia se juntaram nos subúrbios de Moscou para pedir visto de saída à embaixada alemã. O governo de Paul von Hindenburg cedeu à pressão da imprensa, acolheu cerca de seis mil pessoas em campos de trânsito no norte da Alemanha e negociou destino com três países: Canadá, Paraguai e Brasil.
O Brasil ficou com a fatia catarinense da leva. Os grupos de 1930 pegaram terra barata e ruim, em encosta de mata atlântica, longe de estrada, com solo raso que não servia ao trigo que eles sabiam plantar. O Krauel nunca prosperou como lavoura, e o que sustentou aquela gente por duas décadas foi gado leiteiro em regime de cooperativa.
O desfecho está documentado e não é o abandono. Em 1951, famílias do Krauel compraram em conjunto a fazenda Cancela, no município de Palmeira, no Paraná, e fundaram a colônia Witmarsum, batizada como a aldeia frísia do pregador Menno Simons, fundador do grupo no século XVI. Outras foram para o Boqueirão, em Curitiba, e um terceiro conjunto abriu a Colônia Nova, em Aceguá, no Rio Grande do Sul. O Krauel ficou com poucas casas menonitas depois dos anos 1960, e por isso o descendente de hoje costuma nascer no Paraná e achar o registro do bisavô em Santa Catarina.
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