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Raiz do Sobrenome   Raiz do Sobrenome
ED 057
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Os Murphy que vieram lutar por Pedro I em 1828

Recrutados em Cork com promessa de terra, irlandeses viraram soldados no Rio e deixaram o sobrenome nos papéis do Exército.

Barretina militar antiga sobre um livro de registro aberto.

O livro onde o quartel anotou cada recruta

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Consultar o assentamento de um soldado de 1828 no SIAN, o Sistema de Informações do Arquivo Nacional, custa R$ 0, e a certidão de nascimento em inteiro teor do bisneto dele passa de R$ 90 no portal Registro Civil da Arpen Brasil (consulta em 30/09/2026). O papel grátis é o mais antigo, e é ele que diz de qual condado irlandês o sobrenome saiu.

A certidão cara costuma trazer o nome já aportuguesado. O assentamento militar traz o nome como o sargento ouviu na fila do quartel, com o lugar de nascimento ao lado.

Esses soldados chegaram por causa de uma guerra. Em 1825, a Cisplatina, a província do sul que hoje é o Uruguai, se rebelou contra o Império, e a Argentina entrou na briga. Pedro I precisava de tropa e tinha pouca gente disposta a lutar no Prata.

A solução foi contratar fora. O governo mandou o coronel irlandês William Cotter recrutar homens em Cork, no sul da Irlanda, com promessa de soldo, comida e um pedaço de terra no fim do serviço.

Mais de 2 mil irlandeses aceitaram, muitos com mulher e filhos. Os navios deixaram Cork em 1827 e desembarcaram no Rio entre o fim daquele ano e o começo de 1828.

No porto, a promessa encolheu. Não havia terra separada, o soldo atrasava, e os recrutas descobriram que eram soldados de um país cuja língua não falavam, aquartelados junto com mercenários alemães em condição parecida.

Em junho de 1828, alemães e irlandeses se amotinaram e tomaram as ruas do centro do Rio por três dias. O governo abafou o levante e decidiu se livrar da maioria.

Nem todos foram embora. Uma parte ficou no país, e é ela que interessa a quem procura um sobrenome irlandês na própria árvore.

A edição começa pelo nome mais comum da Irlanda, passa pelo papel que o quartel guardou de cada recruta e termina nos arquivos onde esse papel pode ser pedido.

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I  O Sobrenome do Dia

O neto do guerreiro do mar

O sobrenome do dia é Murphy, o mais frequente da Irlanda e um dos que aparecem nas listas de recrutas de Cork. A forma original, em irlandês, é Ó Murchadha.

O Ó quer dizer neto ou descendente. Murchadh era um nome pessoal antigo, formado por muir (mar) e cath (batalha). Ao pé da letra, Ó Murchadha é "o descendente do guerreiro do mar".

O dicionário "The Surnames of Ireland", do genealogista Edward MacLysaght, publicado em 1957, registra que o nome surgiu de forma independente em vários pontos da ilha. Os Murphy de Cork, de Wexford e de Sligo não descendem do mesmo homem: cada região teve o seu Murchadh.

MURPHY QUER DIZER DESCENDENTE DO GUERREIRO DO MAR E NASCEU EM VÁRIOS PONTOS DA IRLANDA

O Ó sumiu por imposição. Sob o domínio inglês, a partir do século XVII, os prefixos irlandeses passaram a ser abandonados nos registros oficiais, e Ó Murchadha virou Murphy, uma adaptação ao ouvido inglês.

Daí o recruta de 1827 já chegou ao Rio com o nome anglicizado (adaptado à grafia do inglês). Muitos falavam irlandês em casa e inglês com o recrutador, e o sobrenome entrou no papel na versão inglesa.

No Brasil, o nome passou por um terceiro ouvido. O escrivão do quartel falava português e anotava o que entendia. Murphy podia sair Murfi, Murfy ou Morfi, e o prenome Patrick quase sempre virava Patrício.

O mesmo caminho vale para outros nomes irlandeses das listas. Os O'Brien, os Sullivan, os Kelly e os Connor também chegaram sem o Ó ou com ele trocado por apóstrofo, e também foram reescritos em português.

A grafia aportuguesada é a pista mais forte para quem pesquisa hoje. Um Patrício Murfi num registro de batismo carioca de 1830 pode ser o mesmo Patrick Murphy que embarcou em Cork três anos antes.

Há ainda o caso do soldado que trocou de nome de vez. Ao casar com brasileira e batizar filhos aqui, alguns irlandeses passaram a usar só o prenome português e um sobrenome da mulher, e o Murphy sobreviveu apenas no assento de casamento.

 
 

II  O Registro

O assentamento do soldado

O papel central dessa história é o assentamento militar (a ficha de registro do soldado no livro do batalhão). Cada recruta ganhava uma linha ou uma página no livro de assentamentos do corpo em que servia.

O livro anotava nome, idade, altura, cor dos olhos e do cabelo, naturalidade, data de praça (o dia em que o soldado entrou no serviço) e, depois, as baixas, deserções, castigos e promoções. Para quem pesquisa, a naturalidade vale ouro: é ali que aparece o condado de origem.

Os irlandeses foram distribuídos em batalhões de estrangeiros, aquartelados no Rio. A convivência piorou com os castigos físicos, que o Exército da época aplicava com chibata, e com o soldo atrasado.

O ASSENTAMENTO MILITAR É O ÚNICO PAPEL QUE GUARDA O CONDADO IRLANDÊS DO RECRUTA

O estopim veio em 9 de junho de 1828, quando um soldado alemão foi castigado com chibatadas e os colegas reagiram. Os irlandeses aderiram, e o motim se espalhou pelo centro com saques e confronto armado.

O governo só retomou as ruas com ajuda de fuzileiros de navios britânicos e franceses ancorados na baía. Morreram dezenas de pessoas entre amotinados, moradores e soldados, e o episódio virou o motivo para desmontar os batalhões.

Os recrutas tinham um motivo extra de revolta. Muitos diziam ter vindo como colonos, não como soldados, e só descobriram no Rio que o contrato os prendia ao Exército. A queixa aparece nos requerimentos que alguns enviaram ao governo pedindo a terra prometida.

Depois do motim, a maior parte dos irlandeses foi embarcada de volta. Um grupo seguiu para a Irlanda e outro para o Canadá, com passagem paga pelo governo.

O reverendo Robert Walsh, capelão da embaixada britânica no Rio, deixou relato da chegada e do tratamento dos recrutas em "Notices of Brazil in 1828 and 1829", publicado em 1830. É uma das poucas descrições feitas por quem viu os irlandeses na cidade.

Uma parte ficou. Alguns soldados seguiram no Exército e tiveram nova data de praça anotada no assentamento. Outros receberam baixa e se fixaram no Rio como artesãos e trabalhadores. Um grupo foi mandado para a Bahia, para formar uma colônia agrícola em Taperoá, no sul do estado, que não prosperou e se dispersou em poucos anos.

O destino de cada família que ficou não está reunido em lista nenhuma. A lacuna tem causa: não houve recenseamento dos que permaneceram, e o rastro de cada um precisa ser montado papel por papel, a partir do assentamento.

 

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III  A Rota

Do quartel à sala de consulta

A busca começa no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro. O acervo do antigo Ministério da Guerra reúne livros de assentamentos, requerimentos de soldados e correspondência sobre os batalhões de estrangeiros, e parte do material tem descrição no SIAN, que aceita pesquisa por palavra.

Pesquise pelo nome do batalhão, pela palavra "irlandeses" e pelo ano de 1828. A descrição do documento costuma indicar o código para pedir a reprodução na sala de consulta ou por email.

A segunda frente são os registros católicos do Rio. Irlandeses eram católicos, casavam e batizavam filhos nas paróquias da cidade, e os livros de batismo e casamento da Arquidiocese do Rio de Janeiro foram fotografados pelo FamilySearch, o portal de genealogia da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, com consulta gratuita mediante cadastro.

A terceira é a imprensa. A Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional tem jornais cariocas de 1828 com busca por palavra, e o motim ocupou páginas inteiras, às vezes com nomes de presos e feridos.

Uma quarta frente fica do outro lado do oceano. O National Archives of Ireland, em Dublin, e o portal Irish Genealogy, mantido pelo governo irlandês, oferecem registros paroquiais católicos de Cork com consulta gratuita. Com o condado anotado no assentamento, dá para procurar o batismo do recruta na paróquia de origem e subir mais uma geração.

Três armadilhas atrasam a busca.

A primeira é procurar só a grafia inglesa. Teste Murphy, Murfi, Murfy e Morfi, e repita com o prenome em português.

A segunda é ignorar o Ó. Alguns escrivães anotaram O'Murphy ou Omurfi, e o índice pode separar a mesma pessoa em duas entradas.

A terceira é parar no Rio. Se o soldado foi para a Bahia, os registros paroquiais de Taperoá e Valença podem guardar o casamento dele.

Passo 1: no SIAN, pesquise "batalhão de estrangeiros" e "irlandeses" com o ano de 1828 e anote o código de cada livro de assentamentos que aparecer.

Passo 2: no FamilySearch, abra os registros católicos do Rio de Janeiro e procure o sobrenome em 4 grafias entre 1828 e 1840.

Passo 3: na Hemeroteca Digital, busque o sobrenome nos jornais cariocas de junho e julho de 1828, quando saíram as listas do motim.

Se nada aparecer, a ausência também informa: a maioria voltou à Irlanda ou foi ao Canadá, e o Murphy da família pode ter chegado ao Brasil por outra rota, décadas depois.

"Na sua árvore, há um nome estrangeiro que só aparece aportuguesado nos papéis mais antigos?"

Hoje, até as 22h: abra o SIAN, faça 1 busca com o sobrenome irlandês ou estrangeiro mais antigo da sua família em 3 grafias e anote num papel quantos resultados cada uma devolveu.

 
 
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No texto, o motim de 9 de junho de 1828 no Rio começou depois do castigo com chibatadas aplicado a um soldado de qual origem?

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