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Os irmãos do Rosário deixaram a nação escrita

Antes do registro civil, as irmandades negras anotavam prenome, nação e condição de cada irmão; os livros cobrem o século XVIII.

Livro de irmandade aberto ao lado de um terço de contas escuras.

Livro de entradas de uma irmandade do Rosário

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Abrir na tela um livro paroquial baiano do século XVIII, digitalizado pelo FamilySearch, custa R$ 0 com cadastro gratuito em familysearch.org; a certidão de inteiro teor do cartório, cobrada pela tabela de emolumentos de cada estado, nem existe para quem nasceu antes de 1889. A distância entre as duas fontes é um século inteiro de gente sem papel civil.

O registro civil virou obrigação no Brasil a partir de 1889, pelo Decreto 9.886, de 1888. Antes dele, nascimento, casamento e sepultamento ficavam a cargo da Igreja. Para o africano escravizado e para o crioulo, o filho dele nascido aqui, o batismo costuma trazer só o prenome, o dono e, às vezes, a nação.

Existe uma fonte que conta mais. Nas cidades da colônia, homens e mulheres negros se reuniam em irmandades, associações de leigos com estatuto próprio, igreja, cemitério e caixa comum. A mais espalhada foi a de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, presente de Salvador a Vila Rica, do Recife ao Rio de Janeiro.

Cada irmandade mantinha livros de entrada. Neles, o escrivão anotava quem chegava: prenome, nação declarada, se era escravo, forro (liberto) ou livre, o senhor quando havia, a data e a joia paga, a taxa de ingresso. Uma única linha junta quatro dados que o batismo raramente reúne.

Esses volumes sobreviveram em parte nos arquivos das próprias irmandades, nas cúrias e nas paróquias, e alguns já foram microfilmados. Em várias cidades eles atravessam o século XVIII inteiro, décadas antes do primeiro cartório civil abrir as portas.

Quem procura um antepassado negro do período colonial costuma esbarrar no batismo e parar ali. A linha da irmandade é o degrau seguinte, e quase ninguém sobe por ele.

Um sobrenome frequente em famílias negras brasileiras nasce desta mesma devoção, e a primeira seção conta de onde ele vem.

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I  O Sobrenome do Dia

Rosário, a devoção que virou sobrenome

Rosário é um sobrenome português de devoção. Vem de Nossa Senhora do Rosário, invocação da Virgem ligada à reza do terço, e entrou nas famílias primeiro como parte do prenome, em Maria do Rosário, e depois como sobrenome herdado.

A palavra vem do latim rosarium (roseiral). A imagem era a de uma coroa de rosas oferecida à Virgem, uma rosa para cada ave-maria rezada nas contas.

A devoção chegou à África antes do Brasil. O rei do Congo Nzinga a Nkuwu recebeu o batismo dos portugueses em 1491, com o prenome de João, e o catolicismo congolês adotou o Rosário cedo. Muitos africanos desembarcavam aqui já conhecendo a santa.

No Brasil, a Igreja incentivou as irmandades de pretos sob essa invocação, e os próprios africanos as procuraram. Ser irmão garantia enterro em chão sagrado, missas pela alma e ajuda na doença, amparo que um escravizado sozinho não tinha.

ROSÁRIO ENTROU NA FAMÍLIA PELA DEVOÇÃO, NÃO POR PARENTESCO

Como Santos ou de Jesus, o sobrenome brotou em muitos lugares ao mesmo tempo, sem ligação entre si. Dois Rosário de cidades diferentes raramente descendem do mesmo casal.

Entre os libertos, adotar um sobrenome devocional era um dos caminhos depois da alforria. Os outros eram levar o sobrenome do antigo senhor, o do padrinho ou um topônimo, sobrenome tirado de lugar. O liberto que escolhia Rosário deixava no papel a filiação à santa, e não ao dono.

Daí a cautela na pesquisa. O sobrenome não prova que o antepassado foi irmão da confraria, e nem toda família Rosário descende de escravizados: há ramos portugueses que trouxeram a devoção do Minho e do Alentejo.

O que ele faz é apontar uma fonte. Se a família mora há gerações numa cidade com igreja do Rosário dos Pretos, os livros daquela irmandade são o primeiro lugar a abrir, junto com os batismos.

Em várias dessas igrejas, a santa dividia o altar com São Benedito e Santa Efigênia, santos negros. Benedito também virou prenome frequente e às vezes aparece ao lado do Rosário na mesma assinatura, como em Benedito do Rosário.

 
 

II  O Registro

O que o escrivão da irmandade escrevia

A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos funcionava sob um compromisso, o estatuto aprovado pela Coroa portuguesa por meio da Mesa de Consciência e Ordens, o tribunal régio dos assuntos religiosos. O compromisso fixava quem podia entrar, quanto pagava e quais livros a mesa diretora devia manter.

Os principais eram três: entradas de irmãos, receita e despesa, e termos de óbito e sepultamento. Para a genealogia, a joia está no primeiro.

Na linha de entrada, o escrivão registrava o prenome, a nação, a condição de escravo, forro ou livre, o senhor do escravizado, a data e o valor da joia. Em alguns volumes aparece também o cônjuge, irmão da mesma confraria.

Nação era a palavra do século XVIII para a procedência africana: Angola, Benguela, Congo, Mina, Jeje, Nagô. Não equivale a etnia. Muitas vezes indica o porto ou a região de embarque do navio negreiro, e um mesmo homem podia ser chamado de Mina num registro e de Jeje em outro.

CRIOULO, NA LINHA DE ENTRADA, QUER DIZER NASCIDO NO BRASIL

O crioulo era o negro nascido na colônia, filho de africanos. Muitas irmandades dividiam cargos por origem: havia juízes angolas e juízes crioulos, reis e rainhas eleitos para a festa, e brigas lavradas em ata quando um grupo tentava excluir o outro.

A historiadora Mariza de Carvalho Soares, no livro “Devotos da cor” (Civilização Brasileira, 2000), estudou as irmandades negras do Rio de Janeiro no século XVIII e mostrou como os africanos chamados Mina se organizavam por grupos de procedência dentro dessas confrarias.

Na Bahia, a historiadora Lucilene Reginaldo, em “Os Rosários dos Angolas” (Alameda, 2011), seguiu a mesma pista nas irmandades de Salvador e do Recôncavo, onde os angolas dominaram as mesas diretoras por décadas.

A fonte tem limite claro. Prenome sem sobrenome é a regra, e dez Antônios de nação Angola podem entrar no mesmo ano. O que separa um do outro é o senhor, a data e o cônjuge, e a linha inteira pesa mais que o prenome isolado.

Outro limite: muitos volumes se perderam em incêndio, cupim e mudança de sede. Em 1890, uma circular do ministro da Fazenda Rui Barbosa mandou queimar papéis sobre escravos guardados nas repartições do governo; os arquivos das irmandades e das paróquias ficaram fora da ordem, e por isso pesam tanto hoje.

 

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III  A Rota

Da igreja do Rosário à página digitalizada

A rota parte de três dados: o prenome do antepassado mais antigo que a família conhece, a cidade e uma faixa de décadas. O objetivo é chegar à linha de entrada dele, ou de alguém da mesma casa, numa irmandade do Rosário.

• Passo 1: descubra se a cidade da família teve irmandade do Rosário dos Pretos; a igreja com essa invocação costuma estar de pé no centro antigo.

• Passo 2: pergunte na própria irmandade, muitas ativas até hoje, se o acervo antigo segue com ela ou foi entregue à cúria.

• Passo 3: no catálogo do FamilySearch, busque a cidade e procure os registros da Igreja Católica e das irmandades.

• Passo 4: copie cada linha com o prenome procurado, junto com nação, condição, senhor e data.

• Passo 5: cruze a data e o senhor com os batismos e casamentos da paróquia na mesma década.

No passo 1, o Rio de Janeiro tem a Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, na rua Uruguaiana, que serviu de catedral da cidade entre 1737 e 1808. Salvador tem a igreja do Rosário dos Pretos no Pelourinho, erguida pelos irmãos ao longo do século XVIII. Ouro Preto tem a sua no bairro do Rosário.

No passo 2, a resposta varia. Algumas irmandades guardam os volumes na sacristia; outras depositaram o acervo no arquivo da arquidiocese. Em Salvador e no Rio, parte desse material já foi estudada por historiadores, e as notas dos livros deles indicam se o volume procurado existe.

No passo 3, a busca por nome raramente acha esses registros, porque poucos foram indexados. O caminho é abrir as imagens e ler página a página, filtrando pela década da família.

No passo 5, o senhor é a ponte. Se a linha da irmandade traz Antônio, de nação Benguela, escravo de um certo capitão, o batismo dos filhos de Antônio costuma repetir o mesmo senhor, e o sepultamento dele pode estar nos termos de óbito da própria confraria.

Se a linha aparecer, a árvore ganha um dado raro: a nação africana declarada, a única pista escrita de onde a família saiu antes da travessia.

Se não aparecer, a lacuna tem explicação provável: o antepassado pode ter sido irmão de outra confraria, como São Benedito ou Santa Efigênia, ou o volume daquela década se perdeu. Sem o volume, não há como saber qual das duas hipóteses vale, e a busca segue nas irmandades vizinhas.

“Na sua família, alguém sabe em qual igreja do Rosário os mais antigos foram batizados ou enterrados?”

Hoje, até as 22h: descubra se a cidade mais antiga da sua família tem igreja do Rosário dos Pretos, faça 1 busca no catálogo do FamilySearch por essa cidade e anote quantos livros de irmandade aparecem.

 
 
Quiz da edição

Em 1890, uma circular de qual autoridade do governo brasileiro mandou queimar papéis sobre escravos guardados nas repartições públicas?

AImperador D. Pedro II
BPresidente da província da Bahia
CMinistro da Fazenda Rui Barbosa
DMinistro da Justiça

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