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Os 9 volumes paulistas que herdaram uma nobreza inventada

A Genealogia Paulistana, publicada de 1903 a 1905, está livre na internet e repete linhagens fidalgas criadas no século XVIII.

Pilha de volumes antigos encadernados com uma lupa ao lado.

Os volumes da Genealogia Paulistana

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A coleção completa da Genealogia Paulistana, os nove volumes impressos em São Paulo entre 1903 e 1905, aparecia por R$ 3.500 num anúncio da Estante Virtual, e a mesma obra inteira, transcrita página a página, custa R$ 0 no site arvore.net.br (consultas em 02/10/2026). A diferença está no papel: o texto caiu em domínio público, e voluntários o digitaram para a internet.

O autor foi Luiz Gonzaga da Silva Leme, engenheiro nascido em Bragança, no interior paulista, em 1852. Ele passou décadas reunindo inventários, testamentos e registros de batismo para ligar as famílias de São Paulo desde os primeiros povoadores do século XVI até a geração dos seus contemporâneos.

O resultado é a obra mais consultada por quem tem avô paulista, mineiro, goiano ou paranaense. Os bandeirantes que saíram de São Paulo espalharam filhos por meio Brasil, e a trilha de muitos deles começa numa página de Silva Leme.

Cada família vem organizada em títulos, com o casal fundador no topo e os descendentes numerados por geração. Para o leitor, a promessa é tentadora: digitar um sobrenome e encontrar sete, oito, dez gerações de uma vez.

A promessa tem um defeito de origem. Silva Leme não começou do zero. Para os séculos XVI e XVII, ele se apoiou em linhagistas (estudiosos que montavam árvores de famílias nobres) do século XVIII, sobretudo Pedro Taques de Almeida Paes Leme, autor da Nobiliarquia Paulistana Histórica e Genealógica.

Pedro Taques escrevia para provar fidalguia. No século XVIII, uma ascendência nobre abria caminho para cargos, hábitos de ordens militares e casamentos vantajosos, e muitas famílias paulistas ganharam no papel um avô cavaleiro que nenhum documento da época confirma.

Silva Leme copiou boa parte dessas aberturas nobres sem conferir. As gerações mais recentes da obra se apoiam em papel de cartório e de paróquia; as mais antigas, muitas vezes, em narrativa de quem queria um brasão.

Um sobrenome bandeirante mostra o tamanho do problema.

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I  O Sobrenome do Dia

O carpinteiro que virou fidalgo

O sobrenome do dia é Bueno, levado a São Paulo por Bartolomeu Bueno, um espanhol de Sevilha que chegou à vila no fim do século XVI. Dele descendem Amador Bueno, aclamado rei pelos paulistas em 1641, e os dois bandeirantes apelidados Anhanguera (diabo velho, em tupi).

Bueno é sobrenome castelhano de apelido: nasceu de uma qualidade atribuída a alguém, bom, e virou nome de família. É comum em toda a Espanha e não aponta para uma única casa nobre.

Na versão dos linhagistas do século XVIII, Bartolomeu Bueno vinha da nobre família Bueno de Ribera, de Sevilha. A Genealogia Paulistana abre o título Buenos com esse ramo e repete a ligação.

O BUENO PAULISTA APARECE NAS ATAS DA CÂMARA COMO OFICIAL MECÂNICO, NUNCA COMO FIDALGO

As Atas da Câmara da Vila de São Paulo, publicadas pelo Arquivo Municipal a partir de 1914, registram um Bartolomeu Bueno exercendo ofício de carpinteiro. Oficial mecânico era quem vivia de trabalho manual, e no direito português do período esse trabalho afastava a pessoa da nobreza.

Os historiadores que cruzaram as atas com as linhagens leem a contradição assim: o carpinteiro sevilhano existiu, a fidalguia do ramo de Ribera não tem documento que a sustente. O parentesco com uma casa nobre andaluza ficou como afirmação sem prova.

O caso de Amador Bueno reforça o mecanismo. Um homem aclamado rei pelos moradores da vila virou, para os netos, motivo de orgulho, e o orgulho pedia um começo à altura. A ascendência nobre veio depois, escrita por quem descendia dele.

Nada disso apaga a família. Os Buenos de São Paulo estão bem documentados a partir das gerações nascidas na vila, em inventários do século XVII e em registros paroquiais.

Há também Buenos sem ligação nenhuma com o sevilhano. Imigrantes espanhóis do fim do século XIX, que desembarcaram em Santos para as fazendas de café, trouxeram o sobrenome outra vez, vindos de outras regiões da Espanha. Um Bueno do interior paulista nascido no século XX pode descender deles, e nesse caso a busca começa nos registros da Hospedaria de Imigrantes.

A lição para quem carrega o sobrenome é de ordem. O Bueno do século XVII se confere em papel; o fidalgo de Sevilha que abre a árvore é uma hipótese herdada, até que alguém ache o documento.

 
 

II  O Registro

Uma obra impressa em 3 anos

O documento do dia é a própria Genealogia Paulistana, publicada pela tipografia Duprat & Comp., em São Paulo, de 1903 a 1905. São nove volumes de texto corrido, sem ilustração, organizados por família.

Silva Leme organizou a obra por títulos de família. Cada título abre num casal povoador e desce geração por geração, com um número para cada filho e um recuo para cada neto. Quem domina essa numeração consegue seguir uma linha de pai para filho sem se perder.

A força da obra está nas fontes. Silva Leme leu inventários e testamentos guardados nos cartórios e no arquivo do estado, e muitas entradas trazem a data do testamento ou o nome do inventariante (quem administrava os bens do morto até a partilha).

Para os séculos XVIII e XIX, essa base documental é sólida. O autor viu os papéis, anotou datas e cruzou casamentos, e a maioria dessas entradas resiste a uma conferência atenta.

O ponto fraco está no topo das árvores. Nas primeiras gerações, Silva Leme aceitou o que Pedro Taques e Frei Gaspar da Madre de Deus, monge beneditino de Santos, tinham escrito no século XVIII. Os dois trabalhavam com tradição oral e documentos que hoje, em parte, se perderam.

A GENEALOGIA PAULISTANA É FORTE NO SÉCULO XIX E FRÁGIL NO SÉCULO XVI

A Nobiliarquia de Pedro Taques só saiu impressa na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, a partir de 1869. Silva Leme a tinha à mão e a tratou como fonte confiável, prática comum entre os genealogistas do seu tempo.

Silva Leme morreu em 1919 sem revisar a obra. As correções de genealogistas posteriores saíram em artigos e revistas especializadas e nunca entraram no texto que circula na internet. Quem lê a transcrição lê o texto de 1905, com os acertos e os erros de 1905.

Outra marca da obra é o que ela deixa de fora. Silva Leme seguiu sobretudo as linhas legítimas e brancas. Filhos naturais, indígenas aldeados e escravizados aparecem pouco ou nada, embora estivessem nos mesmos inventários que ele leu.

Hoje a obra circula livre. O texto caiu em domínio público, e transcrições completas estão abertas na internet, com busca por palavra. Cópias digitalizadas dos volumes impressos também aparecem em acervos de bibliotecas.

O uso mais seguro é tratar cada página como um mapa. Ela indica onde procurar, qual cartório, qual década, qual paróquia; a prova está no papel original que ela cita ou deixa de citar.

 

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III  A Rota

Da página impressa ao papel original

A conferência começa pela sua própria linha. Antes de abrir Silva Leme, monte a árvore de baixo para cima com certidões da família, até o antepassado mais antigo que você consegue provar.

Com esse nome em mãos, busque o sobrenome na transcrição da Genealogia Paulistana e procure um casal com nomes e datas compatíveis. Anote o título, o número do volume e a numeração da geração.

Divida a linha encontrada em duas partes. Da geração mais recente até o século XVIII, cada entrada costuma citar inventário, testamento ou batismo, e essas citações podem ser conferidas.

Do século XVII para trás, desconfie de toda ligação com fidalgo europeu, casa nobre ou cavaleiro de ordem militar. Se a entrada não aponta documento da época, ela é hipótese, por mais bonita que soe.

Três sinais denunciam uma linha inventada.

• O primeiro é o salto para a Europa sem papel: um povoador que chega a São Paulo já com avós nobres em Portugal ou na Espanha, nomeados, mas sem nenhum registro paroquial deles.

• O segundo é o ofício apagado: o antepassado aparece nas atas da Câmara como carpinteiro, ferreiro ou sapateiro e, na genealogia, só como fidalgo.

• O terceiro é a coincidência de nome com casa ilustre: um sobrenome comum ligado, por semelhança, a uma família famosa do mesmo sobrenome.

Os inventários paulistas dos séculos XVI e XVII foram publicados pelo Arquivo do Estado de São Paulo na série Inventários e Testamentos, e parte dela está digitalizada no site do próprio arquivo. As atas da Câmara também circulam impressas e digitalizadas.

Ao pedir a cópia de um inventário, informe quem morreu, a vila e a década. Os arquivos públicos costumam localizar o documento com esses três dados, e a consulta da versão digitalizada é gratuita.

Passo 1: escreva o nome do antepassado paulista mais antigo que você prova com certidão, com cidade e década.

Passo 2: encontre esse casal na transcrição da Genealogia Paulistana e anote volume, título e geração.

Passo 3: marque a primeira geração da linha que não cita nenhum documento da época; dali para trás, trate tudo como hipótese.

Quem faz essa marca enxerga a árvore real. A parte provada costuma ser menor, e cada geração dela tem um papel que qualquer parente pode pedir e ler.

Guarde as duas listas separadas, a provada e a herdada. Quando um parente perguntar de onde veio o brasão da família, você mostra em qual geração a prova termina.

“Até qual geração a sua árvore paulista tem papel, e onde começa a parte que só a tradição conta?”

Hoje, até as 22h: abra a transcrição da Genealogia Paulistana, busque 1 sobrenome da sua família e anote, num papel, o volume e o título em que ele aparece.

 
 

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Segundo as Atas da Câmara da Vila de São Paulo, qual era a ocupação registrada do Bartolomeu Bueno que teria fundado a linhagem nobre dos Buenos?

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CCavaleiro de Ordem Militar
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