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Raiz do Sobrenome   Raiz do Sobrenome
ED 034
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Os 39 alemães que desembarcaram em São Leopoldo e a lista que guarda cada nome

A leva de 25 de julho de 1824 abriu a colônia do Vale do Sinos, e o Museu Histórico Visconde de São Leopoldo guarda as listas de famílias.

Lista manuscrita de colonos sobre madeira escura, ao lado de uma lupa de latão.

Da lista da colônia ao cartório do Vale do Sinos

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A certidão de casamento de inteiro teor pedida a um cartório gaúcho sai por cerca de R$ 120 pela tabela de emolumentos do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, e ler o nome da mesma família na lista de colonos consultada na sala de pesquisa do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo custa R$ 0.

A distância entre os dois preços é de acervo, não de sorte. Os R$ 120 compram o documento com fé pública, o que cartório e consulado exigem num processo de reconhecimento de cidadania. Os zero reais compram a informação que destrava a busca: o nome escrito na chegada, a composição da família e o lote que ela recebeu.

Em 25 de julho de 1824 desembarcaram na Real Feitoria do Linho Cânhamo, às margens do rio dos Sinos, 39 alemães. Vinham de uma travessia que começou em Hamburgo, passou pelo Rio de Janeiro e subiu para o sul em embarcação menor. O galpão de trabalho escravizado que a Coroa mantinha ali virou o marco zero de São Leopoldo.

Aqueles 39 não chegaram anônimos. A comissão de colonização anotou nome, idade, ofício declarado, religião e a região alemã de saída, e depois foi lançando cada lote de terra concedido no papel, com o número do prazo e a data da posse.

Essa papelada continua existindo, e ela é o que separa a pesquisa séria da lenda de família. As listas da colônia estão guardadas no Museu Histórico Visconde de São Leopoldo, junto com documentação de fundação, e o Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul tem os fundos de colonização e terras públicas do mesmo período.

O problema aparece antes do acervo, no próprio nome. O escrivão brasileiro de 1824 ouvia um som alemão e escrevia com as letras do português, e o sobrenome que o tataraneto carrega hoje pode estar a três letras de distância do sobrenome que embarcou.

Quem entende como o sobrenome alemão foi montado e como ele foi deformado no papel brasileiro encontra a família em semanas, e não em anos.

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I  O Sobrenome do Dia

Ofício, pai ou lugar: as três matrizes do nome alemão

O sobrenome alemão se explica quase inteiro por três matrizes, e reconhecer a matriz certa já entrega uma pista de região e de época.

A primeira matriz é de ofício, e é a mais comum entre as famílias que abriram o Vale do Sinos. Schmidt é o ferreiro, Schneider o alfaiate, Müller o moleiro, Weber o tecelão, Wagner o carpinteiro de carroça, Becker o padeiro, Schuster o sapateiro, Bauer o lavrador.

OFÍCIO, PAI OU LUGAR: TODA A ESTRUTURA CABE AÍ

A segunda matriz é patronímica e aponta o norte. Terminações em sen e em s marcam Schleswig, Frísia e a costa do Báltico: Petersen é o filho de Peter, Jansen o filho de Jan, Hinrichs o filho de Hinrich. Nome com essa terminação num registro gaúcho costuma vir de leva posterior a 1850, não da primeira.

A terceira matriz é toponímica e é o atalho mais direto de todos, porque ela nomeia um lugar. Bergmann é o homem do monte, Kirchner o da igreja, Lindenberg guarda uma colina de tílias, e o sufixo er cola a origem ao nome, como em Hunsrücker.

Um grupo à parte descreve corpo ou temperamento sem sufixo nenhum. Klein é o pequeno, Gross o grande, Braun o moreno, Lang o comprido, Reich o abastado.

A maior parte dos colonos de 1824 e dos anos seguintes saiu do Hunsrück, da Renânia e da região do Palatinado, com contingentes da Vestfália, de Württemberg, da Saxônia e da Pomerânia entrando depois. A matriz do sobrenome, sozinha, raramente fecha a origem, mas ela reduz o mapa de busca a duas ou três regiões.

O segundo obstáculo nasce no guichê e não na Alemanha. O escrivão da colônia e o do cartório escreviam de ouvido, sem tabela de correspondência entre as duas línguas.

Daí veio uma família inteira de grafias para a mesma pessoa. O trema virou vogal simples ou par de letras, e Müller aparece como Muller, Mueller, Miler e Mile. O ß virou ss e depois s, e Strauß saiu como Strauss e Straus. O W foi lido como V, e Weber virou Veber e Vebér.

O som ch enlouqueceu o papel brasileiro. Bach aparece como Bak e Bac, Reichert vira Reicherte e Reixert, e Schmidt se espalha em Schmitt, Schmith, Schimidt e até Ximit em livro de paróquia do interior.

A regra prática cabe em três minutos. Escreva o sobrenome à mão, marque cada vogal com trema e cada bloco sch, ch e ss, e monte de quatro a seis variantes antes de abrir qualquer índice digitalizado.

 
 

II  O Registro

O que o museu guarda e o que a paróquia guarda

A pesquisa dessa linha tem três acervos paralelos, e cada um responde uma pergunta diferente. Misturar as três perguntas é o que faz a busca girar em falso por meses.

O primeiro acervo é o da colônia. O Museu Histórico Visconde de São Leopoldo guarda listas de imigrantes, documentação de fundação e material sobre a distribuição de lotes no Vale do Sinos, e o Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul mantém os fundos de terras públicas e colonização com os mapas de prazos coloniais.

A lista de colonos traz o que nenhum cartório traz. Nome escrito na chegada, idade, composição do grupo familiar, ofício declarado, confissão religiosa e, em muitos assentos, a região alemã de procedência anotada pelo funcionário da comissão.

"A colônia de São Leopoldo, fundada em 1824, foi a matriz de onde partiu toda a expansão alemã no Rio Grande do Sul." Jean Roche, A Colonização Alemã e o Rio Grande do Sul, 1969."

A região de procedência anotada na lista da colônia vale mais que qualquer papel posterior, porque ela é a única linha que aponta o lado de lá do Atlântico.

O segundo acervo é o religioso, e ele é o mais rico em detalhe pessoal. As comunidades evangélicas luteranas abriram livros de batismo, confirmação, casamento e óbito desde os primeiros anos, e as paróquias católicas fizeram o mesmo, com assentos que trazem nome dos pais, nome dos padrinhos e às vezes a paróquia alemã de origem.

O terceiro acervo é o civil, e ele começa tarde. O registro civil obrigatório vale desde 1889, e o assento do colono já idoso ou de seus filhos costuma trazer só nome abrasileirado, idade aproximada e a menção genérica de nacionalidade prussiana ou alemã.

A leitura desse conjunto pede três cuidados de método, e nenhum deles é dispensável.

O primeiro cuidado é de caligrafia. Documento alemão e livro paroquial do século XIX estão em escrita gótica manuscrita, Kurrent e depois Sütterlin, onde o e minúsculo parece um n e o h desce com laçada larga, e ler sem uma tabela de alfabeto ao lado produz topônimo inventado.

O segundo cuidado é de língua falada. A comunidade falava Hunsrückisch, dialeto que registrava sons diferentes do alemão padrão, e o funcionário que escrevia em português copiava o dialeto, não a norma culta.

O terceiro cuidado é de nome de lugar. Um pequeno vilarejo do Hunsrück ou do Palatinado pode ter mudado de município e de distrito duas vezes desde 1824, e procurar o livro paroquial pelo nome atual do município joga a busca na diocese errada.

 

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III  A Rota

De Hamburgo ao Vale do Sinos, em quatro paradas

A rota tem quatro pernas e cada perna deixou um tipo de papel para trás. A vida na aldeia alemã deixou livro paroquial e cadastro de moradores. A saída deixou autorização de emigração, lista de passageiros de Hamburgo ou de Bremen e contrato de agenciamento. A entrada deixou registro de porto e lista da comissão de colonização. A vida no Rio Grande do Sul deixou o livro da comunidade e o do cartório.

A pesquisa concreta monta em quatro paradas, e ela começa dentro do Brasil.

A primeira parada é a certidão brasileira de inteiro teor mais antiga que a família alcançar, de preferência um casamento celebrado no Vale do Sinos. Ela declara filiação e naturalidade, e é a naturalidade escrita à mão que aponta a região de saída.

A segunda parada é a comunidade evangélica ou a paróquia católica do município onde a família se fixou, com pedido de busca nos livros de batismo e de casamento na faixa de anos que a certidão indicou.

A terceira parada é o Museu Histórico Visconde de São Leopoldo, com as listas de imigrantes e a documentação de colonização, somada aos fundos de terras públicas do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, que amarram o sobrenome a um lote e a uma data.

A quarta parada é a Alemanha, com o arquivo eclesiástico da região indicada e o arquivo estadual correspondente, e ela só rende depois que as três anteriores entregaram o nome do vilarejo.

Três armadilhas derrubam a maior parte das buscas nessa linha.

A primeira armadilha é confiar na nacionalidade do papel de entrada. Prussiano, alemão e austríaco aparecem nos registros do século XIX como rótulo de Estado ou de império, e nenhum deles diz em que aldeia ficava a casa da família.

A segunda armadilha é fixar uma grafia única no índice digitalizado. Quem procura só Müller perde Mueller, Miler e Mile, e a mesma pessoa aparece com duas grafias em papéis separados por poucos anos.

A terceira armadilha é parar em 1942. A campanha de nacionalização proibiu o alemão no espaço público, fechou escola de comunidade e levou muita família a abrasileirar o nome de vez, e o registro civil dos filhos nascidos depois esconde o que o avô declarou ao pastor.

Fechar a corrente exige três movimentos, nesta ordem.

Passo 1: suba pelas certidões brasileiras até o documento mais antigo que declare naturalidade estrangeira, e copie o topônimo exatamente como o escrevente escreveu, com erro e tudo.

Passo 2: peça à comunidade evangélica ou à paróquia do município a busca do batismo e do casamento na faixa de anos correspondente, e peça foto do assento inteiro, não a certidão resumida.

Passo 3: com a região lida na lista da colônia ou no assento, escreva ao arquivo eclesiástico alemão daquela região pedindo o livro da paróquia do vilarejo.

Hoje: escreva quatro grafias do seu sobrenome, uma com trema, uma com ue, uma com vogal simples e uma com a troca de W por V, e mande um único email ao Museu Histórico Visconde de São Leopoldo pedindo busca nas listas de imigrantes, com as quatro grafias na mesma mensagem. Amanhã você separa as certidões brasileiras que já tem em casa.

"Qual região alemã está anotada no papel mais antigo da sua família?"

 
 

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Segundo a edição, desde que ano o registro civil brasileiro passou a ser obrigatório, virando o terceiro acervo de pesquisa da família alemã?

A1824, ano do desembarque em São Leopoldo
B1889
C1850, quando chegaram as levas de Schleswig e da Frísia
D1900, junto com os primeiros livros paroquiais católicos

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