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O y de Pereyra esconde o bisavô no arquivo

A reforma de 1911 tirou o y, o ph e as letras dobradas da escrita portuguesa, mas o assento antigo guarda a grafia do escrivão.

Livro paroquial manuscrito aberto, com pena e tinteiro ao lado.

A grafia do escrivão antes de 1911

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Abrir a imagem de um batismo de 1895 no portal de um arquivo distrital português custa R$ 0; pedir a certidão desse mesmo assento pelo Civil Online, o balcão digital do registo civil de Portugal, custa 20 euros, perto de R$ 125 no câmbio deste mês (tabela do Instituto dos Registos e do Notariado, 2026). A distância entre os dois preços some quando a busca acerta, porque a imagem grátis só aparece para quem acha o assento no índice.

O índice guarda a letra do escrivão. Um padre de Braga que batizava um menino em 1895 escrevia Manoel Pereyra, filho de Luiz e de Marianna, neto de Thereza. Ninguém o corrigia: Portugal não tinha lei que fixasse a forma das palavras, e cada escrivão seguia o costume que aprendeu no seminário.

O costume vinha do latim e do grego. O y, o ph, o th e as consoantes dobradas davam ar erudito à página, e muitos escrivães punham a letra a mais até onde a etimologia nem pedia.

A República Portuguesa, proclamada em 1910, quis arrumar a escrita junto com as escolas. Em 1911 uma comissão de filólogos fixou regras novas, e uma portaria publicada no Diário do Governo de 1 de setembro daquele ano tornou a grafia reformada obrigatória no ensino e nos papéis do Estado.

Pereyra virou Pereira. Luiz virou Luís, Marianna virou Mariana, Thereza virou Teresa. O neto do menino de 1895 já aprendeu a escrever o próprio sobrenome sem y.

Os arquivos, porém, não reescreveram os livros velhos. Quando um voluntário indexa um assento de 1895, copia o que está na folha, e o catálogo digital devolve Pereyra a quem digita Pereyra. Quem procura o bisavô com a grafia da certidão de hoje passa reto por ele, e conclui que o registro se perdeu.

No Brasil a confusão corre nos dois sentidos. O país não adotou a reforma portuguesa de 1911, e cartórios brasileiros seguiram escrevendo Luiz e Souza por décadas, enquanto o parente que ficou em Portugal já assinava Luís e Sousa.

A primeira seção mostra o sobrenome que mais sofre com o y na busca, e de onde ele vem.

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I  O Sobrenome do Dia

Pereira, a árvore de fruto que virou aldeia

Pereira é um sobrenome português de origem toponímica, ou seja, nascido de um lugar. A pereira é a árvore que dá a pera, e Portugal tem dezenas de lugares batizados por ela: freguesias, aldeias, quintas e casais chamados Pereira, do Minho ao Algarve.

O caminho até o apelido de família segue o padrão dos sobrenomes de lugar. Quem saía de um lugar chamado Pereira e ia morar noutra terra virava conhecido pela origem, e o filho herdava a marca mesmo sem nunca ter visto a aldeia.

Por ter brotado em tantos pontos, Pereira não aponta um tronco único. Dois Pereira do mesmo concelho (o município português) podem não ter parentesco algum, e a única forma de ligar famílias é seguir assento por assento, de filho para pai.

Há uma linhagem antiga e documentada com o sobrenome. Os Pereira senhores da Feira, ligados ao condestável Nuno Álvares Pereira, aparecem nos livros de linhagens medievais. A grande maioria dos Pereira que vieram para o Brasil, contudo, descende de lavradores, artesãos e soldados sem relação com essa casa.

O Y DE PEREYRA NUNCA FOI SINAL DE NOBREZA

Em fóruns de genealogia circula a ideia de que a grafia com y indicaria família fidalga. Os livros paroquiais desmentem. O mesmo padre, na mesma página, escrevia Pereyra para o filho de um jornaleiro (trabalhador pago por dia) e para o filho do morgado (dono de um morgadio, a herança indivisível da casa).

A escolha era do escrivão, nunca da família. Num livro de 1870, um irmão pode sair Pereira no batismo e Pereyra no casamento, porque o padre mudou ou o mesmo padre mudou de hábito.

Do outro lado da fronteira, a letra ficou. Na Espanha e na região do Rio da Prata, Pereyra seguiu como grafia corrente, e milhares de uruguaios e argentinos assinam assim até hoje. Quem tem antepassado português que passou pelo Uruguai ou pelo sul do Brasil pode encontrar o mesmo homem como Pereira num documento e Pereyra no seguinte.

O sobrenome também recebeu outras variações de mão. Nos índices aparecem Pereira, Pereyra, Pereiyra e abreviações como Per.a, com a última letra suspensa acima da linha, forma de poupar tinta e espaço.

Para a pesquisa, a lição tem duas pontas. A grafia antiga não prova origem nobre, e também não prova família diferente: Pereyra de 1890 e Pereira de 1920 podem ser pai e filho, separados só pela reforma.

 
 

II  O Registro

A comissão que apagou o y

O nome mais ligado à reforma é o do foneticista Aniceto dos Reis Gonçalves Viana. Em 1904 ele publicou o livro Ortografia Nacional, em que defendia escrever o português pela pronúncia e pela história real das palavras, sem as letras gregas e latinas que ninguém pronunciava.

A proposta ficou sete anos no papel. Com a República, o governo provisório nomeou uma comissão para transformá-la em regra, com Gonçalves Viana à frente e filólogos como Carolina Michaëlis de Vasconcelos, professora da Universidade de Coimbra, entre os membros.

As mudanças principais cabem numa lista curta. O y virou i, o ph virou f, o th virou t e o rh virou r. As consoantes dobradas sem som próprio foram simplificadas, e a acentuação ganhou regras escritas.

A reforma valeu primeiro para a escola e para o Estado. Jornais, editoras e particulares demoraram a aderir, e muitos portugueses nascidos antes de 1911 seguiram assinando com y e letra dobrada pelo resto da vida, o que deixa grafias misturadas nos papéis da mesma família.

Nos nomes de pessoa, o efeito foi o mesmo das palavras comuns. Pereyra, Luiz, Marianna, Thereza, Philippe e Mattos passaram a Pereira, Luís, Mariana, Teresa, Filipe e Matos nos papéis oficiais e nos livros de escola.

O MESMO ANO TROUXE O REGISTO CIVIL OBRIGATÓRIO

O Código do Registo Civil, de 18 de fevereiro de 1911, tornou o registo civil obrigatório em Portugal para nascimentos, casamentos e óbitos. Até ali, o assento que valia era o paroquial, feito pelo padre.

O corte de 1911 tem, por esse encontro de datas, duas faces. Antes dele, o antepassado está no livro da paróquia, na letra do padre. Depois, está na conservatória do registo civil, na grafia nova. Os livros paroquiais antigos foram recolhidos aos arquivos distritais, que hoje digitalizam e publicam as imagens.

No Brasil, a escrita seguiu outro calendário. A Academia Brasileira de Letras aprovou em 1907 uma simplificação própria, Brasil e Portugal assinaram um acordo em 1931, e o Formulário Ortográfico de 1943 virou a base da escrita brasileira. Até lá, cartórios e paróquias brasileiras escreviam Luiz, Souza, Mattos e Phelippe sem constrangimento.

O nome registrado de uma pessoa viva, contudo, não muda com a reforma. Daí haver brasileiros chamados Luiz e Thereza até hoje: a grafia do registro de nascimento vale para quem a recebeu, e passa ao filho quando o cartório copia o sobrenome.

 

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III  A Rota

Três grafias para cada antepassado

A rota parte da forma como o antepassado aparece no documento mais antigo que a família tem, e transforma esse nome nas formas que um escrivão anterior a 1911 usaria. O objetivo é chegar ao assento no portal do arquivo distrital da freguesia.

• Passo 1: escreva o nome e o sobrenome como estão na certidão mais antiga da família.

• Passo 2: troque i por y, f por ph, t por th e s por z onde couber: Luís vira Luiz, Teresa vira Thereza, Sousa vira Souza.

• Passo 3: dobre as consoantes simples do meio do nome: Mariana vira Marianna, Matos vira Mattos.

• Passo 4: monte três versões completas do nome, da mais parecida com a de hoje à mais antiga.

• Passo 5: pesquise cada versão no portal do arquivo distrital e anote quantos resultados cada uma devolve.

O prenome merece o mesmo cuidado do sobrenome, porque o batismo antigo raramente traz só uma forma dele. Manuel aparece como Manoel, João como Joam ou Joaõ, e José como Joze. Num livro de 1850, a mesma pessoa pode surgir com duas formas em dois assentos.

Quando o portal aceita o asterisco como curinga (o símbolo que substitui qualquer letra), a busca por Per*ra cobre Pereira e Pereyra de uma vez. Se o portal recusa o curinga, o caminho é pesquisar pela freguesia e pelo ano, e folhear o livro inteiro.

A folheada parece lenta e costuma render mais. Um livro de batismos de freguesia rural tem poucos assentos por ano, e pai e avós vêm escritos em cada um deles, o que permite reconhecer a família mesmo quando o sobrenome sai torto.

O FamilySearch, a base gratuita mantida pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, também indexou livros portugueses. Os voluntários dela transcreveram a grafia da folha, então a regra das três versões vale ali do mesmo jeito.

Depois de achado, o assento deve ser copiado como está, com y e letra dobrada. A grafia original é parte da prova, e trocar para a forma moderna na árvore apaga a pista que leva ao próximo livro.

“Na certidão mais antiga da sua família, o sobrenome aparece com y, ph ou letra dobrada?”

Hoje, até as 22h: escreva 3 grafias do prenome e do sobrenome do seu bisavô português, faça 1 busca com cada uma no arquivo distrital da freguesia dele e anote qual delas trouxe resultado.

 
 
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A1 de setembro de 1911
B5 de outubro de 1910
C18 de fevereiro de 1911
D22 de maio de 1931

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