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O voluntário de 1865 deixou altura e cicatriz no papel

O assentamento do soldado da Guerra do Paraguai traz pais, terra natal, idade e sinais do corpo; os livros estão no Arquivo Nacional.

Livro militar de 1865 aberto ao lado de um quepe imperial gasto.

Matrícula de um corpo de Voluntários da Pátria

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Ler o assentamento de um Voluntário da Pátria custa R$ 0 no SIAN, o sistema de busca do Arquivo Nacional (sian.an.gov.br, consulta em 23/10/2026); em 1865, o Decreto 3.371 prometia a quem se alistasse 300 mil-réis na baixa e um lote de terra. O governo pagava para encher a fila de recrutas, e a fila hoje se abre sem custo a quem procura um bisavô.

O Paraguai de Francisco Solano López invadiu Mato Grosso em dezembro de 1864 e, nos meses seguintes, Corrientes, na Argentina, e o Rio Grande do Sul. O Exército imperial era pequeno, e o governo de D. Pedro II recorreu ao alistamento voluntário em 7 de janeiro de 1865.

Os corpos de Voluntários da Pátria saíram de cada província com número próprio, e cada praça que entrava ganhava uma linha num volume de matrícula. O escrivão anotava o que o Exército precisava para reconhecer um homem sem fotografia: filiação, naturalidade, idade, estado civil, ofício e os sinais do corpo.

Sinais, na linguagem militar do Império, eram a descrição física: altura, cor, cabelo, olhos, barba e marcas particulares, como cicatriz ou falta de dente. Para o genealogista, essa coluna vale ouro, porque é o mais perto de um retrato que a família de um lavrador de 1865 vai encontrar.

Entre os voluntários havia gente de todo tipo: filhos de fazendeiro, caixeiros, lavradores, libertos e escravizados alforriados para lutar no lugar de outro homem. A guerra durou até 1870 e levou para o Sul recrutas de todas as províncias, do Pará ao Rio Grande.

Muita família guarda só a lembrança oral: o bisavô foi para o Paraguai. A matrícula transforma essa frase em data, corpo, companhia e lugar de nascimento.

Antes de abrir os volumes, vale olhar para um sobrenome comum entre esses soldados, mais antigo que a própria guerra, e a primeira seção conta de onde ele veio.

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I  O Sobrenome do Dia

Guerra, um sobrenome mais velho que o Paraguai

Guerra é um sobrenome português e espanhol de origem medieval, e as famílias Guerra mais antigas dos registros não têm relação com o conflito de 1864 a 1870. Ele nasceu como alcunha, o apelido que distinguia um homem dos vizinhos de mesmo prenome.

A palavra vem do germânico werra (confusão, briga), que entrou no latim tardio e substituiu o latim bellum (guerra) na fala do povo. Dela saíram guerra em português, espanhol e italiano, e guerre em francês.

Como alcunha, Guerra marcava o homem briguento, o que voltava de campanha militar ou o que servia em tropa armada de algum senhor. O apelido grudava na casa e descia para os filhos, e em poucas gerações virava sobrenome herdado.

GUERRA NO SOBRENOME NÃO PROVA SOLDADO NA FAMÍLIA

Muita família Guerra no Brasil ouve a história de um antepassado combatente que teria ganhado o sobrenome no front paraguaio. A cronologia desmente: o sobrenome já circulava em Portugal séculos antes de 1865 e chegou à colônia com os povoadores portugueses.

Há, porém, um caso em que o alistamento pode ter mexido na assinatura de alguém. Libertos e homens sem sobrenome fixo às vezes adotavam um ao se alistar ou ao dar baixa, e o escrivão anotava o que o praça declarava.

Se o antepassado aparece sem sobrenome no batismo e com Guerra depois de 1870, a hipótese merece teste nos volumes de matrícula. Sem a linha do alistamento, ela fica como hipótese, e a família deve registrar assim na árvore.

O historiador Ricardo Salles, em “Guerra do Paraguai: escravidão e cidadania na formação do exército” (Paz e Terra, 1990), estudou como libertos e escravizados entraram nas fileiras, alguns libertados pelo governo e outros oferecidos por senhores como substitutos de filhos convocados.

Imigrantes italianos de sobrenome Guerra também chegaram a São Paulo e ao Sul a partir da década de 1870, e esses ramos não têm ligação com os portugueses. A pista para separar os dois está no batismo e no casamento: o ramo italiano chega com prenome italiano e pais nascidos na Itália.

Daí o primeiro teste: antes de supor um herói de 1865, confira se o sobrenome já aparece no casamento dos pais do soldado. Se aparecer, ele veio de herança; se não, o assentamento pode guardar o momento da troca.

 
 

II  O Registro

O que a matrícula guardava de cada praça

Pelo Decreto 3.371, de 7 de janeiro de 1865, assinado por D. Pedro II, cada corpo de Voluntários da Pátria abria seus volumes de matrícula no ato do alistamento. Praça, no vocabulário do Exército, é o soldado sem posto de oficial, e eram dele quase todas essas páginas.

A linha do assentamento, o registro individual do militar, seguia colunas fixas. Primeiro vinham prenome, sobrenome e filiação, com o pai e, muitas vezes, a mãe. Depois a naturalidade, que podia ser a freguesia, a vila ou só a província.

Em seguida, a idade declarada e o estado civil. A idade era a que o homem dizia na hora, sem certidão, e varia de documento para documento: dois ou três anos de diferença entre a matrícula e o batismo aparecem com frequência.

Vinham então os sinais. O escrivão anotava a estatura, na medida da época, e descrevia cor, cabelo, olhos, nariz, boca, barba e qualquer marca particular, de verruga a dedo torto.

OS SINAIS DO CORPO FAZEM AS VEZES DE FOTOGRAFIA

A coluna importava porque a deserção preocupava o comando, e o Exército precisava reconhecer o fugitivo sem retrato. Para a família de hoje, a mesma coluna diz se o bisavô era alto, se tinha os olhos claros da avó, se carregava uma marca no rosto.

Ao lado, as alterações: data de embarque, companhia, combate em que esteve, ferimento, promoção, licença, deserção ou baixa. Cada anotação vem datada, e a sequência delas desenha o caminho do homem pela campanha.

O historiador Francisco Doratioto, em “Maldita guerra” (Companhia das Letras, 2002), reconstrói a campanha combate a combate e ajuda a situar cada data dessas alterações: Riachuelo em junho de 1865, Tuiuti em maio de 1866, Curupaiti em setembro de 1866.

A fonte tem buracos. Nem todo corpo deixou volumes completos, parte deles se perdeu, e muitos homens da Guarda Nacional, a milícia de cidadãos convocada pelo Império, foram ao front sem passar pelos Voluntários e ficaram registrados em outra série.

Também é comum o sobrenome sair grafado de ouvido: Gonçalves vira Gonçalvez, Teixeira vira Texeira. Na busca, vale tentar as variantes antes de concluir que o homem não está lá.

 

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III  A Rota

Do SIAN ao assentamento do bisavô

A rota parte de três dados: prenome e sobrenome do soldado, a província de onde ele saiu e o intervalo entre 1865 e 1870. O objetivo é chegar à linha de matrícula dele e às alterações que a acompanham.

• Passo 1: acesse sian.an.gov.br, faça o cadastro gratuito e entre na pesquisa.

• Passo 2: busque por “Voluntários da Pátria” e filtre os registros que têm imagem digital.

• Passo 3: anote o fundo e a notação de cada volume, o código que identifica o documento no acervo.

• Passo 4: abra as imagens e leia página a página os volumes do corpo da província da família.

• Passo 5: copie a linha inteira, com filiação, naturalidade, idade, sinais e alterações.

No passo 1, o cadastro pede e-mail e senha, e a consulta às imagens já digitalizadas sai sem custo. O pedido de reprodução de documento ainda não digitalizado segue outra regra, e o próprio Arquivo Nacional informa as condições no atendimento.

No passo 2, a busca por pessoa raramente funciona, porque esses volumes quase nunca foram indexados soldado a soldado. O caminho é chegar ao volume certo e ler.

No passo 4, ajuda saber o número do corpo. Os voluntários de cada província formavam corpos numerados, e a tradição oral da família, um retrato com farda ou uma medalha guardada na gaveta costumam indicar a província de saída.

Se o soldado era oficial, ou se a viúva pediu pensão, há uma segunda rota: o Arquivo Histórico do Exército, no Rio de Janeiro, guarda as fés de ofício, a ficha de carreira dos oficiais, e processos de pensão de viúvas e mães.

No passo 5, os sinais pedem leitura atenta. Cor parda, cabelo crespo, olhos pretos, estatura regular: cada termo vem do vocabulário do escrivão, e a família deve copiar como está, sem modernizar.

Se a linha aparecer, a árvore ganha o que o batismo não dá: a cara do homem descrita por quem o viu, a idade dele em 1865 e a terra natal dita por ele mesmo.

Se não aparecer, há três explicações possíveis: o homem serviu pela Guarda Nacional ou pelo Exército de linha, o volume do corpo dele se perdeu, ou o sobrenome saiu grafado de outro jeito. Sem o volume, não há como saber qual delas vale, e a busca segue nas variantes e na outra série.

“Na sua família, alguém guarda a história de um parente que foi para a Guerra do Paraguai?”

Hoje, até as 22h: faça o cadastro no SIAN, rode 1 busca por “Voluntários da Pátria” com a província da sua família e anote quantos volumes com imagem aparecem.

 
 
Quiz da edição

Pelo Decreto 3.371, de 7 de janeiro de 1865, o que o governo imperial prometia a quem se alistasse como Voluntário da Pátria?

APatente de oficial garantida após um ano de serviço
B300 mil-réis na baixa e um lote de terra
CIsenção de impostos vitalícia para toda a família
DPassagem paga de volta à província de origem

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