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Raiz do Sobrenome   Raiz do Sobrenome
ED 026

O sufixo -ian é um genitivo armênio que guarda o nome do pai

O sufixo significa de em armênio e cola o nome do pai ao sobrenome, e as famílias do Brás chegaram por Marselha entre 1920 e 1927.

Livro de assentos paroquiais aberto sobre mesa escura, com carimbo de latao e bilhete de vapor de Marselha ao lado.

De Marselha ao Brás, pelo livro da paróquia

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Existe uma pergunta que o brasileiro faz há um século sem saber que está fazendo gramática: por que tanto sobrenome armênio termina igual. Kevorkian, Bedoyan, Terzian, Kalfayan, Ohanian. A terminação se repete com uma regularidade que nenhum outro grupo de imigrantes trouxe para cá com a mesma força.

A explicação de bar de esquina diz que é enfeite de sonoridade, um jeito de a língua fechar palavra. Ela está errada, e a diferença entre ela e a verdade vale, para quem pesquisa família, algumas dezenas de horas de arquivo.

Aquelas quatro letras são um caso gramatical. Em armênio, a partícula que aparece no fim do sobrenome é a marca do genitivo, a mesma função que o português resolve com a preposição de. O sobrenome não termina em -ian por gosto, termina porque a frase inteira está dizendo que a pessoa pertence a alguém ou a alguma coisa nomeada logo antes.

Isso muda o que se pode ler num documento. Quem entende a terminação como decoração vê um bloco fechado, um rótulo étnico e nada mais. Quem entende como genitivo vê um sobrenome que se abre em duas partes, e a parte da frente costuma ser o nome de um homem que viveu, ou a profissão que sustentava a casa.

No Brasil essa leitura tem endereço. A maioria das famílias armênias que se fixaram aqui desembarcou entre a década de 1920 e o começo da seguinte, quase sempre depois de uma escala longa no sul da França, e concentrou-se em poucos quarteirões da capital paulista. Ali montaram comércio, oficina e, principalmente, uma paróquia que registrou por escrito o que os documentos oficiais brasileiros anotaram pela metade.

O primeiro passo, antes de procurar navio ou passaporte, é aprender a partir a palavra ao meio. É o que a terminação faz com quem sabe olhar.

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I  O Sobrenome do Dia

A partícula que significa de

Um sobrenome armênio típico é uma frase curta com duas peças. A peça da frente carrega o conteúdo, o nome do pai ou o ofício, e a peça de trás informa a relação. Kevorkian se decompõe em Kevork, a forma armênia de Jorge, mais a marca de pertencimento: o filho de Kevork.

A partícula aparece em duas grafias principais nos documentos brasileiros. As famílias que vinham do antigo território otomano, no oeste, tendem a aparecer como -ian, e as que vinham do lado oriental, na região que depois virou república soviética, tendem a aparecer como -yan. A diferença é de transliteração e de tradição escrita, não de parentesco.

O conteúdo da frente cai em três grupos, e reconhecer o grupo é o que dá pista de pesquisa. O primeiro é o patronímico puro, o nome de batismo do pai congelado numa geração: Ohanian de Ohannes, Bedrosian de Bedros, Sarkisian de Sarkis.

O segundo grupo é o do ofício, e é o mais generoso com quem pesquisa. Terzian vem de terzi, alfaiate. Boyajian vem de boyaci, tintureiro. Kalfayan vem de kalfa, o mestre de obra que comandava a oficina. Demirjian vem de demirci, ferreiro.

Sobrenome de ofício não nomeia um homem, nomeia uma oficina, e a oficina ficava numa cidade: o ofício é frequentemente a única pista geográfica que sobrou da família.

O terceiro grupo é o topônimo, o nome da cidade de onde a casa saiu, e é o mais raro dos três nos registros brasileiros.

Vale reparar numa camada que quase ninguém nota: boa parte das raízes de ofício não é armênia, é turca. Terzi, boyaci e demirci são palavras do vocabulário otomano, e a família armênia colou nelas o genitivo da própria língua.

"A dispersão criou comunidades armênias em três continentes, e cada uma delas reorganizou seus próprios registros a partir da igreja." Richard G. Hovannisian, The Armenian People from Ancient to Modern Times, 1997.

Há também o efeito da fixação tardia. O sobrenome hereditário se estabilizou entre as famílias armênias sobretudo ao longo do século 19, e antes disso o patronímico trocava a cada geração.

No papel brasileiro entrou mais uma camada. O escrivão da capital paulista ouviu a terminação e resolveu do jeito dele, então a mesma família responde por Kevorkian, Kevorquian, Kevorkiam e Kevorkyan em documentos do mesmo ano.

Nada disso individualiza uma pessoa. Existem milhares de Bedrosian sem parentesco algum entre si, exatamente como existem milhares de Silva. O que separa uma casa da outra é o assento onde ela foi anotada, e o assento das famílias armênias de São Paulo tem uma história própria.

 
 

II  O Registro

O livro que a paróquia nunca fechou

O documento central da genealogia armênia no Brasil não é estatal, é eclesiástico. A Igreja Apostólica Armênia funcionou por séculos como a instituição que registrava batismo, casamento e sepultamento da comunidade, e o hábito atravessou o oceano intacto quando as famílias chegaram à capital paulista.

Isso não é detalhe litúrgico, é consequência administrativa. No arranjo otomano, cada comunidade religiosa administrava o próprio estado civil, então o livro da paróquia era o registro oficial daquela gente. Quem cresceu nesse sistema chegou ao Brasil já sabendo que a certidão da família se pede na igreja.

O assento paroquial resolve o que a papelada brasileira deixa em branco. O registro civil daqui pedia nome, idade e nacionalidade, e nacionalidade nesse período era um problema: gente nascida em território otomano desembarcava classificada como turca, síria ou apátrida, sem que a palavra armênio aparecesse em lugar nenhum.

A certidão brasileira do imigrante armênio frequentemente diz turco, e essa palavra no papel não descreve a família, descreve o passaporte que ela conseguiu obter.

O livro da paróquia costuma trazer três informações que nenhum documento brasileiro traz. A primeira é a cidade de origem escrita como a família a pronunciava, muitas vezes um nome que o mapa atual já não usa.

A segunda é o nome dos padrinhos, e o padrinho de batismo em comunidade de imigrantes quase nunca é estranho: costuma ser tio, primo ou conterrâneo da mesma cidade, o que transforma cada assento num pequeno mapa de parentesco lateral.

A terceira é a grafia em alfabeto armênio, feita por quem sabia escrever a língua. Ela é a única versão do nome que não passou pelo ouvido de um escrivão brasileiro, e serve de chave para cruzar com acervos de fora do país.

Existem três obstáculos concretos, e é melhor conhecê-los antes de bater na porta da secretaria.

O primeiro é o de guarda. Livro paroquial não é acervo público, o acesso depende da secretaria da paróquia e das regras dela, e o pedido costuma exigir que se prove a ligação familiar antes de qualquer consulta.

O segundo é o de idioma. Boa parte dos assentos mais antigos está manuscrita em alfabeto armênio, com abreviatura litúrgica e datação por calendário próprio, o que exige leitura assistida por alguém da comunidade.

O terceiro é o do intervalo perdido. Família que passou anos na França antes de embarcar deixou nascimento e casamento registrados lá, e esses anos não aparecem no livro paulistano, que só começa a contar depois do desembarque.

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III  A Rota

De Marselha ao Brás

A rota que trouxe essas famílias para o Brasil quase nunca foi direta. O trajeto padrão saiu do Mediterrâneo oriental, passou por campo de refugiados ou por trabalho temporário no sul da França, e só então tomou o vapor para Santos, o que espalha o rastro documental por três países.

Marselha é o nó central. Foi o principal porto de recepção de refugiados armênios na Europa daquele período, e ali se formou uma colônia grande, com paróquia e sociedade de auxílio, que serviu de sala de espera para quem seguiria adiante. Muitos passaram anos no bairro portuário antes de comprar a passagem.

O destino paulistano também foi concentrado. As famílias se instalaram principalmente no Brás e nos quarteirões vizinhos, perto da estação e do comércio têxtil, e o ofício trazido no sobrenome virou ofício exercido: alfaiataria, tinturaria, sapataria e oficina de metal.

A pesquisa, então, monta em quatro paradas.

A primeira parada é a papelada de entrada. As listas de passageiros e o acervo do museu da imigração em São Paulo trazem nome, idade, profissão declarada, porto de embarque e nacionalidade anotada, e o porto de embarque costuma ser o primeiro sinal claro da escala francesa.

A segunda parada é a paróquia. Peça na secretaria da Igreja Apostólica Armênia de São Paulo a busca de batismo e casamento pelo sobrenome e pelo período, e leve consigo datas aproximadas, porque a busca é feita por ano e não por índice alfabético.

A terceira parada é a certidão brasileira de inteiro teor. Casamento e óbito do imigrante nomeiam os pais que ficaram do outro lado e trazem a naturalidade declarada pela família, que às vezes contradiz a nacionalidade do passaporte, e a contradição é informação.

A quarta parada é a França. Os arquivos departamentais de Bouches-du-Rhône guardam os registros civis de Marselha, e uma família que ficou anos por lá provavelmente deixou um nascimento ou um casamento lavrado em francês.

Três armadilhas derrubam a maior parte das buscas por sobrenome armênio.

A primeira é procurar por nacionalidade. Quem filtra a lista de passageiros pela palavra armênio não acha quase ninguém, porque o campo costuma dizer turco ou sírio, e o filtro produtivo é o sobrenome combinado ao porto de embarque.

A segunda é ignorar a escala francesa. Assumir viagem direta do Oriente para Santos faz o pesquisador perder o intervalo em que a família viveu, teve filho e registrou casamento em cartório europeu.

A terceira é confiar numa grafia só. Quem procura apenas a forma com -ian perde os papéis lavrados com -yan, -iam e -quian, e essas variantes brasileiras costumam ser justamente as do documento mais antigo da família.

Fechar a corrente exige três movimentos, nesta ordem.

Passo 1: parta o sobrenome ao meio e identifique a raiz, decidindo se ela é nome de batismo, ofício ou cidade, porque cada tipo aponta para um acervo diferente.

Passo 2: cruze o nome do imigrante com as listas de passageiros filtrando por porto de embarque francês, e depois leve o resultado à secretaria da paróquia para localizar o assento de batismo ou de casamento.

Passo 3: com a cidade de origem escrita no assento, procure os registros franceses do período de escala e os acervos armênios de fora do país, usando a grafia em alfabeto armênio como chave.

Quatro letras no fim de um sobrenome guardam um caso gramatical, o nome de um homem, às vezes o barulho de uma oficina, e um itinerário que passou pela França antes de virar comércio no Brás. O livro da paróquia continua aberto na estante, escrito num alfabeto que o cartório brasileiro nunca soube copiar, e ainda responde a quem chega com o ano certo na mão.

"Que nome de pai está escondido na frente do seu sobrenome?"

 
 
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No texto, a terminação -yan (em vez de -ian) aparece como sinal de que a família armênia veio de qual região?

ADo sul da França, na escala do navio antes do Brasil
BDo antigo território otomano, a oeste
CDa região que depois virou república soviética, a leste
DDa capital paulista, onde a comunidade se fixou

Resultado da última edição: 0% acertaram.

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