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Raiz do Sobrenome   Raiz do Sobrenome
ED 033
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O sobrenome ucraniano que chegou a Prudentópolis com passaporte austríaco

A primeira leva desembarcou em 1895 e 1896, e as paróquias greco-católicas do Paraná guardam batismo e casamento em cirílico até hoje.

Livro paroquial aberto com escrita cirílica, ao lado de uma cruz de três barras.

Do livro em cirílico ao cartório do Paraná

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A tradução juramentada de uma certidão escrita em cirílico custa cerca de R$ 105 por lauda pela tabela de emolumentos de tradutor público da Junta Comercial do Paraná, e ler a mesma folha na tela, depois de decorar as 33 letras do alfabeto num fim de semana, custa R$ 0.

A distância entre os dois preços é de alfabeto, não de dificuldade. Os R$ 105 compram a versão oficial, a única que consulado e cartório aceitam num processo de cidadania. Os zero reais compram a informação que move a pesquisa: quem era o pai, qual aldeia a família deixou e em que dia houve o batismo.

A primeira leva ucraniana desembarcou no Brasil em 1895 e 1896 e subiu a serra até Prudentópolis, no centro-sul do Paraná. Vinha da Galícia, província do Império Austro-Húngaro, e no papel de embarque quase todo mundo aparece com uma única nacionalidade declarada: austríaco.

Essa linha do documento derruba boa parte das buscas logo no começo. A família passa meses atrás de arquivo em Viena, e o livro que guarda o batismo do bisavô está numa paróquia do oeste da Ucrânia atual, ou no arquivo estadual de Ivano-Frankivsk e de Lviv, escrito em ucraniano.

Em Prudentópolis existe o outro lado dessa mesma corrente, e ele fica a poucas horas de Curitiba. As paróquias greco-católicas ucranianas da região mantêm livros de batismo e de casamento escritos em cirílico desde a virada do século, com data lançada pelo calendário juliano, treze dias atrás do calendário civil brasileiro no século XX.

O mesmo nascimento, portanto, costuma existir duas vezes e nunca igual. No livro do padre, com o prenome ucraniano e a grafia da família. No registro civil do cartório, com o nome que o escrevente entendeu de ouvido e escreveu em letra latina.

A campanha de nacionalização de 1938 empurrou a diferença para longe. Escola em ucraniano fechou, publicação em cirílico foi proibida, e muita família passou a usar em público só a versão abrasileirada do nome. Duas gerações depois, o neto tem a certidão do cartório e não sabe que existe uma segunda folha.

A terminação do sobrenome é o primeiro atalho, porque ela aponta a região de saída antes de qualquer arquivo.

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I  O Sobrenome do Dia

O sufixo diz de que lado dos Cárpatos a família saiu

O sobrenome ucraniano é quase sempre transparente na estrutura. Ele se forma por sufixo colado a um prenome, a um ofício ou a um apelido físico, e cada sufixo tem geografia e época próprias.

O sufixo enko é o mais reconhecido e vem sobretudo do centro e do leste, das terras do Dnipro. Kovalenko é o filho do ferreiro, Bondarenko o filho do tanoeiro, Tkachenko o filho do tecelão. Quem encontra enko na família tem uma pista de origem que raramente aponta para a Galícia.

A TERMINAÇÃO É UM ENDEREÇO, NÃO UM ENFEITE

Os sufixos uk e chuk marcam o oeste e o noroeste, e são a maioria absoluta entre as famílias de Prudentópolis. Kravchuk é o filho do alfaiate, Melnychuk o filho do moleiro, Havryliuk o filho de Havrylo. Ao lado deles aparecem os terminados em ak e em ko, e os patronímicos em ovych, mais raros no Brasil.

Um grupo à parte descreve ofício ou corpo sem sufixo nenhum. Koval é o ferreiro, Shevchuk vem do sapateiro, Chorny é o moreno, Kozak é o cossaco, Bilyk é o claro de pele.

Sobrenome terminado em uk ou chuk num registro paranaense do começo do século XX aponta Galícia austríaca, e é ali que o livro paroquial deve ser procurado, não em Viena.

A transliteração é o segundo problema, e ele nasce no guichê brasileiro. O escrevente ouvia um som e escrevia com as letras que tinha, sem tabela oficial nenhuma para consultar.

O resultado é uma família de grafias para a mesma pessoa. A letra Ш virou Ch, X, Sch ou Sh conforme quem escreveu. O В saiu como V ou W. O И e o I trocaram de lugar livremente, e o Г apareceu como H em papel ucraniano e como G em papel russificado.

Chuprina, Chuprena e Tchuprina aparecem numa mesma comarca sem que se trate de famílias diferentes. Wozniak, Voznhaki e Vosniak, também. Buscar por uma grafia só é a forma mais rápida de perder o próprio antepassado num índice digitalizado.

A regra prática é simples de aplicar. Escreva o sobrenome no papel, marque as consoantes que soam parecido, e monte de três a cinco variantes antes de abrir qualquer índice.

 
 

II  O Registro

O livro do padre e o livro do cartório

A pesquisa dessa linha tem duas séries paralelas, e elas não dizem a mesma coisa. Aprender a diferença entre as duas economiza anos de busca.

A série religiosa é a mais antiga e a mais rica. A Igreja Greco-Católica Ucraniana, de rito bizantino e em comunhão com Roma, organizou paróquias no Paraná logo depois da chegada, e os padres da Ordem de São Basílio Magno assumiram o trabalho em Prudentópolis a partir de 1897.

O livro paroquial dessas comunidades traz o que nenhum cartório traz. Nome do batizando em ucraniano, nome do pai e da mãe, nome dos padrinhos, e em muitos assentos a aldeia de origem na Galícia, anotada pelo padre porque a comunidade toda vinha do mesmo punhado de vilarejos.

"A colonização ucraniana no Paraná formou-se em núcleos compactos, o que preservou a língua, o rito e os registros da comunidade por décadas." Oksana Boruszenko, Os Ucranianos, 1995."

A aldeia de origem escrita à mão pelo padre é o dado mais valioso de toda a corrente, porque ela substitui o nome vago de província que o passaporte austríaco declarava.

A série civil brasileira começa depois e fala outra língua. O registro civil obrigatório existe desde 1889, e o assento de nascimento do imigrante recém-chegado costuma trazer só nome abrasileirado, idade aproximada e a nacionalidade austríaca do papel de entrada.

Entre as duas séries está o acervo de entrada. O Arquivo Público do Paraná guarda documentação de colonização e de assentamento de imigrantes, com listas de lotes distribuídos nas colônias e correspondência das comissões que receberam as levas de 1895 e 1896.

A leitura desse conjunto pede três cuidados de método, e nenhum deles é opcional.

O primeiro cuidado é de calendário. O assento paroquial pode estar lançado pelo calendário juliano, que no século XX corre treze dias atrás do gregoriano, e o batismo de 20 de dezembro no livro do padre pode ser o registro de 2 de janeiro no cartório.

O segundo cuidado é de prenome. Ivan vira João, Vasyl vira Basílio, Mykhailo vira Miguel, Anna vira Ana, e Stefan vira Estevão, com a troca acontecendo às vezes na mesma década em papéis de dois órgãos diferentes.

O terceiro cuidado é de língua do documento. Assento paroquial anterior aos anos 1950 costuma estar em cirílico ucraniano, com trechos formulares em eslavo eclesiástico, e transcrever mal um topônimo joga a busca no distrito errado do outro lado do Atlântico.

 

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III  A Rota

De Kalush a Prudentópolis, em quatro paradas

A rota tem quatro pernas e cada perna deixou um tipo de papel para trás. A vida na Galícia deixou livro paroquial e cadastro fundiário austríaco. A saída deixou passaporte, contrato de agenciamento e lista de bordo. A entrada deixou registro de porto e documentação de colônia. A vida no Paraná deixou o livro do padre e o livro do cartório, lado a lado.

A pesquisa concreta monta em quatro paradas, e ela começa dentro do Brasil.

A primeira parada é a certidão brasileira de inteiro teor mais antiga que a família alcançar, de preferência um casamento celebrado no Paraná. Ela declara filiação e naturalidade, e é a naturalidade escrita à mão que abre a porta.

A segunda parada é a paróquia greco-católica do município onde a família se fixou, com pedido de busca no livro de batismo e no de casamento pela faixa de anos que a certidão indicou.

A terceira parada é o Arquivo Público do Paraná, com a documentação de colonização e de distribuição de lotes, que amarra o sobrenome a uma colônia e a uma data de assentamento.

A quarta parada é a Ucrânia, com os arquivos estaduais das óblasts de Ivano-Frankivsk, de Lviv e de Ternopil, e ela só rende depois que as três anteriores entregaram o nome da aldeia.

Três armadilhas derrubam a maior parte das buscas nessa linha.

A primeira armadilha é acreditar na nacionalidade do documento de entrada. Austríaco, polonês e russo aparecem nos papéis de 1895 a 1914 como rótulo de império, e nenhum deles diz onde ficava a casa da família.

A segunda armadilha é fixar uma grafia única no índice digitalizado. Quem procura só Kravchuk perde Krawtchuk e Cravchuque, e a mesma pessoa aparece com duas grafias em papéis separados por três anos.

A terceira armadilha é parar em 1938. A nacionalização apagou o ucraniano do espaço público, e o registro civil dos filhos nascidos depois esconde a origem que o pai declarou ao padre.

Fechar a corrente exige três movimentos, nesta ordem.

Passo 1: suba pelas certidões brasileiras até o documento mais antigo que declare naturalidade estrangeira, e copie o topônimo exatamente como o escrevente escreveu, com erro e tudo.

Passo 2: peça à paróquia greco-católica do município a busca do batismo e do casamento na faixa de anos correspondente, e peça foto do assento inteiro, não só a certidão resumida.

Passo 3: com a aldeia lida no assento, escreva ao arquivo estadual da óblast correspondente pedindo o livro metrical da paróquia daquele vilarejo.

Hoje: escreva três grafias do seu sobrenome, uma com Ch, uma com Tch e uma com W, e mande um único email para a paróquia greco-católica do município da família pedindo busca no livro de batismo, com as três grafias na mesma mensagem. Amanhã você separa as certidões brasileiras que já tem em casa.

"Qual aldeia está escrita no assento mais antigo da sua família?"

 
 

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