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O sobrenome russo de ferreiro que chegou ao Paraná em 1958
Velhos crentes fugiram para a China, desembarcaram nos Campos Gerais e deixaram poucos papéis antes de seguir para o Oregon.
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A forja que deu nome aos Kuznetsov
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Uma certidão de casamento breve pedida pelo portal Registro Civil, mantido pela Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen Brasil), sai por cerca de R$ 60, e a certidão em inteiro teor do mesmo assento passa de R$ 90 (consulta no portal em 28/09/2026). A diferença compra a transcrição integral do livro, e é nela que aparece o sobrenome escrito do jeito que o escrivão entendeu.
Para uma família russa que chegou ao Paraná em 1958, essa grafia decide a busca. O mesmo nome pode ter entrado no Brasil com K ou com C, com dois F no fim ou com a terminação cortada, conforme o ouvido do funcionário.
As famílias vinham de longe e por um caminho torto. Eram velhos crentes, russos que recusaram a reforma da Igreja Ortodoxa no século XVII e passaram três séculos se afastando do centro do império. Nos anos 1920 e 1930, fugindo da coletivização soviética das terras, atravessaram a fronteira para a Manchúria, no nordeste da China.
Na China ficaram até a vitória comunista de 1949 fechar a porta outra vez. Na década de 1950, saíram por Hong Kong com apoio de organizações internacionais de refugiados, e o Brasil aceitou receber um grupo.
Em 1958, as primeiras famílias chegaram aos Campos Gerais do Paraná, a região de campo aberto em torno de Ponta Grossa. Trouxeram barba longa, camisa bordada, livros de reza em eslavo eclesiástico (a língua antiga da liturgia russa) e a regra de não casar fora da fé.
O Paraná foi escala. Poucos anos depois, a maior parte do grupo seguiu para o estado americano do Oregon, onde a comunidade de Woodburn cresceu a partir de 1963. Quem passou por aqui deixou pouco papel: fichas de estrangeiro, alguns registros de terra e de casamento, e sobrenomes que ainda soam estranhos num cartório brasileiro.
É por esses sobrenomes que a trilha pode ser refeita. Um deles quer dizer ferreiro e está entre os mais comuns da Rússia.
A edição parte desse nome, passa pelo documento que a polícia preencheu na chegada e termina nos arquivos onde a ficha pode estar guardada.
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I O Sobrenome do Dia
O filho do ferreiro
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O sobrenome do dia é Kuznetsov, carregado por famílias de velhos crentes (starovery, "os de fé antiga", em russo) que passaram pela Manchúria. A raiz é a palavra kuznets, que quer dizer ferreiro.
A terminação -ov indica posse. Ao pé da letra, Kuznetsov quer dizer "do ferreiro", o filho do homem da forja. O linguista Boris Unbegaun, em "Russian Surnames" (1972), mostrou que a maior parte dos sobrenomes russos se formou assim: um apelido de pai, de ofício ou de lugar, somado às terminações -ov, -ev ou -in.
O ofício explica a frequência. Toda aldeia russa tinha forja, e toda forja tinha um homem conhecido pelo trabalho. Quando o Estado passou a exigir sobrenome fixo dos camponeses, o apelido de ofício virou nome de família em milhares de aldeias, sem parentesco nenhum entre elas.
O padrão se repete em outras línguas. Ferreira em português, Smith em inglês, Schmidt em alemão, Kowalski em polonês e Kovač em croata saem do mesmo trabalho com fogo e bigorna.
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KUZNETSOV QUER DIZER FILHO DO FERREIRO E NÃO PROVA PARENTESCO ENTRE QUEM O CARREGA
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Entre os velhos crentes, o nome ganhou outra camada. O grupo nasceu do raskol (o cisma, em russo), a divisão aberta quando o patriarca Nikon reformou os ritos da Igreja Ortodoxa a partir de 1652. Quem recusou a reforma continuou a fazer o sinal da cruz com dois dedos, manteve os livros antigos e passou a ser perseguido.
A perseguição empurrou as famílias para a borda do império: Sibéria, montanhas do Altai, margem do rio Amur. Longe de padre oficial, os nomes passaram a ser anotados nos livros da própria comunidade, e o ofício de ferreiro seguiu valendo em aldeia isolada, onde ninguém comprava ferramenta pronta.
Nos anos 1930, parte desses grupos cruzou para a Manchúria, a região chinesa que faz fronteira com a Sibéria. Os Kuznetsov e as outras famílias levaram o sobrenome escrito em cirílico (o alfabeto russo), e ninguém ali precisou transcrevê-lo.
A primeira transcrição veio na saída. Para receber documento de refugiado em Hong Kong, o nome precisou ganhar letras latinas, e cada funcionário escolheu as suas. Kuznetsov, Kusnezov e Kuznetzoff podem ser a mesma família no papel, e o Brasil acrescentou versões próprias no desembarque.
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II O Registro
A ficha que a polícia preencheu
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Todo estrangeiro que desembarcava no Brasil nos anos 1950 passava por dois papéis. O primeiro era o cartão de desembarque, preenchido a bordo ou no porto, com nome, idade, profissão, nacionalidade e navio. O segundo era o registro de estrangeiro, feito depois na polícia, com foto, impressão digital e endereço.
A regra vinha da legislação de imigração montada no governo Vargas, que obrigava o estrangeiro com residência permanente a se registrar e a carregar carteira de identidade própria. Nas famílias de imigrantes, esse documento ficou conhecido como carteira modelo 19.
Para os velhos crentes, a ficha trazia um campo que confundia o funcionário: a nacionalidade. Muitos tinham nascido na China, filhos de pais russos, e viajavam com documento de apátrida (pessoa sem nacionalidade reconhecida). Na mesma família, um irmão podia sair registrado como russo e o outro como chinês.
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NA FICHA, O VELHO CRENTE NASCIDO NA MANCHÚRIA PODE APARECER COMO CHINÊS
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A viagem teve padrinhos. O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) e o Conselho Mundial de Igrejas ajudaram a tirar russos da China pela rota de Hong Kong ao longo dos anos 1950. Brasil, Argentina e Austrália estavam entre os destinos.
No Paraná, as famílias receberam terra nos Campos Gerais e plantaram trigo e hortaliças. O inverno frio lembrava a Manchúria, e a distância das cidades permitia manter a regra da comunidade: casamento dentro da fé, barba sem corte para os homens, lenço na cabeça para as casadas.
A permanência durou pouco para a maioria. No começo dos anos 1960, a Fundação Tolstói, criada em Nova York por Alexandra Tolstaia, filha do escritor Liev Tolstói, ajudou famílias a obter visto para os Estados Unidos. O grupo se fixou em Woodburn, no Oregon, a partir de 1963, e parte dele seguiu depois para o Alasca, onde fundou a aldeia de Nikolaevsk em 1968.
A saída explica o registro escasso. Quem ficou menos de uma década não chegou a se naturalizar, não deixou inventário e, muitas vezes, não registrou filho em cartório brasileiro, porque batizava na própria igreja. O rastro que sobrou no país costuma ser a ficha de estrangeiro.
Uma parte não foi embora. Famílias continuaram no Paraná, e outras migraram décadas depois para Mato Grosso, onde mantêm comunidades rurais de velhos crentes. Nesses casos, o sobrenome passou para a certidão brasileira com a grafia que o primeiro escrivão escolheu.
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