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O sertão também desceu do trem na Hospedaria

De 1930 a 1978, a hospedaria do Brás registrou o migrante nordestino, e a ficha dele está no acervo do Museu da Imigração.

Livro de matrícula aberto ao lado de uma mala e um bilhete de trem.

Livro de matrícula da Hospedaria do Brás

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O trem da Central do Brasil chegava ao Brás com vagões de terceira classe cheios de gente que tinha saído do sertão semanas antes. Muitos vinham da Bahia pelo rio São Francisco até Pirapora, em Minas Gerais, e de lá seguiam de trem até São Paulo.

Na plataforma, um ramal levava direto ao portão da Hospedaria de Imigrantes, na Rua Visconde de Parnaíba. Ali o recém-chegado recebia cama, comida, vacina e um número de matrícula escrito num livro grosso.

A imagem que ficou desse prédio é a do italiano de chapéu e mala, desembarcado em Santos. Ela vale para as primeiras décadas. A partir dos anos 1930, o perfil de quem passava pelo portão mudou.

Com a cota de imigração estrangeira da Constituição de 1934 e a crise do café, o governo paulista passou a recrutar o chamado trabalhador nacional. Eram famílias da Bahia, de Pernambuco, de Alagoas, do Ceará e de Minas, levadas para as lavouras de café e de algodão do interior.

O escrivão registrava cada uma delas do mesmo jeito que registrava o estrangeiro: nome, idade, estado civil, procedência, destino. A ficha não fazia distinção de sotaque.

Vale um cuidado com o nome do lugar. São Paulo teve antes a Hospedaria do Bom Retiro, que funcionou de 1882 a 1887 num prédio menor. As fichas dos nordestinos não estão lá: elas são da hospedaria do Brás, aberta em 1887 e fechada em 1978.

O prédio do Brás virou o Museu da Imigração do Estado de São Paulo, e os livros de matrícula foram digitalizados. Qualquer pessoa pode consultar pela internet, de graça, os nomes anotados à mão.

Para muito neto de nordestino nascido em São Paulo, a primeira prova escrita da chegada da família está numa dessas páginas. E o sobrenome aparece ali do jeito que o escrivão ouviu.

A primeira seção conta a origem de um sobrenome que desceu do sertão aos milhares e chegou ao livro com mais de uma grafia.

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I  O Sobrenome do Dia

Cavalcanti, de Florença ao sertão de Pernambuco

Cavalcanti é um dos sobrenomes mais associados ao Nordeste, e a origem dele está em Florença. A família Cavalcanti era uma linhagem de mercadores e políticos da cidade desde o século 13.

O nome mais lembrado da casa é Guido Cavalcanti, poeta amigo de Dante Alighieri, que aparece citado na Divina Comédia. A raiz do sobrenome é discutida, e a hipótese mais repetida liga Cavalcanti a cavalcare (cavalgar), o que daria um apelido de família de cavaleiros.

O ramo brasileiro começa com Filippo Cavalcanti, florentino que se estabeleceu em Olinda por volta de 1560. Ele se casou com Catarina de Albuquerque, filha de Jerônimo de Albuquerque, cunhado do donatário Duarte Coelho.

Desse casamento saiu uma das famílias mais ramificadas do Pernambuco colonial. Os netos e bisnetos espalharam o sobrenome pelos engenhos da Zona da Mata e, depois, pelo sertão, junto com o gado.

NO SERTÃO, O SOBRENOME PASSOU DE FAMÍLIA A FAMÍLIA

Um sobrenome tão frequente não indica, sozinho, descendência de Filippo. No Brasil colonial, afilhados, agregados e pessoas escravizadas libertas recebiam muitas vezes o sobrenome do padrinho ou do senhor.

Por isso, Cavalcanti aparece no século 20 em famílias de vaqueiros, lavradores e meeiros do interior de Pernambuco, da Paraíba e de Alagoas. A ligação com o fidalgo florentino só se prova documento por documento.

A grafia também mudou no caminho. Cavalcanti, com i, é a forma italiana. Cavalcante, com e, é a forma aportuguesada, e no sertão as duas conviviam até dentro da mesma família.

Quando um Cavalcanti de Garanhuns chegava ao Brás nos anos 1940, o escrivão escrevia o que ouvia. Na matrícula podia sair Cavalcante, Cavalcanti ou até Cavalcate, e é essa letra que o neto encontra hoje na tela do acervo.

Euclides da Cunha descreveu o homem dessa terra numa frase que virou bordão: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte” (Euclides da Cunha, Os Sertões, 1902). Os sobrenomes que esse sertanejo carregou para o sul guardam a mesma resistência, e também as marcas de cada mão que os escreveu.

O teste da seção é simples: se a família usa Cavalcante e um documento antigo diz Cavalcanti, ou o inverso, as duas formas são o mesmo nome. Busque pelas duas, e acrescente a forma errada mais provável, aquela que um ouvido apressado anotaria numa fila de recém-chegados.

 
 

II  O Registro

O livro de matrícula do trabalhador nacional

A hospedaria do Brás recebeu, ao longo de 91 anos, mais de 2,5 milhões de pessoas, segundo o Museu da Imigração. Cada uma ganhava uma linha no livro de registro, também chamado de livro de matrícula.

Nos anos 1930, o Departamento de Imigração e Colonização do Estado de São Paulo assumiu o recrutamento de trabalhadores de outros estados. Agentes contratados viajavam ao Nordeste e a Minas, e o transporte até São Paulo era pago pelo governo.

No fim daquela década, os brasileiros de outros estados passaram a ser maioria entre os registrados. O prédio pensado para receber o europeu tornou-se a porta de entrada do migrante interno.

A FICHA DO NORDESTINO SEGUE O MESMO MODELO DA FICHA DO ESTRANGEIRO

A linha da matrícula traz o número do registro, a data de entrada, o nome do chefe da família, o nome da mulher e dos filhos com a idade de cada um, o estado civil, a religião e a profissão declarada.

No lugar da nacionalidade aparece o estado de origem, e às vezes o município. Ao lado, o campo de destino informa a fazenda ou a estação ferroviária para onde a família foi encaminhada, com o nome do contratante.

A procedência é o dado que mais rende para a árvore. Ela aponta o município do Nordeste onde procurar o batismo e o casamento dos avós, nos livros da paróquia ou do cartório local.

O destino rende o segundo galho. Sabendo a fazenda e o município do interior paulista, dá para buscar o registro de nascimento dos filhos que vieram depois, no cartório daquela cidade.

Os livros do período nacional têm uma particularidade. Muitos migrantes não sabiam assinar, e o nome foi escrito inteiro pelo funcionário, a partir da fala. Sobrenome composto podia virar um só, e sobrenome raro podia sair trocado por um parecido.

Há também lacunas. Parte dos livros sofreu com umidade e manuseio antes da digitalização, e algumas famílias passaram pela hospedaria sem matrícula completa, quando a chegada foi em massa.

A família que veio por conta própria, sem contrato do governo, muitas vezes nem entrou no prédio. Nesse caso, a falta da ficha não desmente a história da migração: só indica que a chegada seguiu outro caminho.

Mesmo com essas falhas, a matrícula costuma ser o único documento que junta a família inteira num só dia e num só lugar. Pai, mãe, filhos e às vezes um irmão solteiro aparecem lado a lado, com idade declarada, o que ajuda a calcular o ano de nascimento de quem não tinha certidão nenhuma.

 

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III  A Rota

Do nome do avô à ficha digitalizada

A rota parte de três dados: o nome completo de quem migrou, o ano aproximado da chegada a São Paulo e o estado de origem. O objetivo é sair com a imagem da página do livro de matrícula e o número do registro.

• Passo 1: entre no acervo digital do Museu da Imigração, pelo site museudaimigracao.org.br, na área de pesquisa do acervo.

• Passo 2: busque pelo sobrenome, sem o prenome, e repita a busca em cada grafia possível.

• Passo 3: filtre pelo período de chegada e confira o estado de procedência anotado.

• Passo 4: abra a imagem da página e copie número do registro, data, destino e o nome de cada membro da família.

• Passo 5: leve a procedência para a paróquia ou o cartório do município de origem e peça o batismo ou o nascimento.

No passo 1, a consulta é gratuita e não exige cadastro para ver os resultados. Se a imagem não carregar, o museu também atende pedidos de pesquisa por email.

No passo 2, comece pelo sobrenome porque o prenome costuma vir abreviado ou trocado por apelido. Para Cavalcanti, tente também Cavalcante; para Albuquerque, tente Alburquerque; para Gonçalves, tente Gonsalves.

No passo 3, o ano informado pela família costuma errar por pouco. Abra a janela de busca em cinco anos para cada lado da data lembrada.

No passo 4, a imagem vale mais que a transcrição. O índice digital foi digitado por pessoas e pode ter erro de leitura, e a página original mostra a letra do escrivão.

No passo 5, a procedência do livro às vezes traz só o estado. Nesse caso, a certidão de casamento do migrante, feita já em São Paulo, costuma declarar a naturalidade com o nome do município.

Se a busca não achar nada, a resposta também serve. A família pode ter chegado por conta própria, de caminhão ou de navio pelo porto de Santos, e a pista passa para o primeiro registro civil feito em São Paulo.

“Na sua família, quem desceu do trem no Brás com o nome escrito por outra mão?”

Hoje, até as 22h: anote o nome completo de 1 avô ou bisavô que migrou para São Paulo e faça 1 busca pelo sobrenome no acervo digital do Museu da Imigração.

 
 
Quiz da edição

Segundo a edição, em que ano a Hospedaria do Brás fechou as portas, encerrando o período de registro que havia começado em 1887?

A1930
B1934
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