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O livro da Santa Casa guardou o bilhete da roda

Cada criança deixada na roda dos expostos ganhou um assento com data, roupa, bilhete e ama de leite, e o livro ainda existe.

Roda de madeira com bilhete dobrado sobre um livro de registro.

Roda dos expostos e livro de matrícula

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Uma segunda via de certidão de nascimento custa perto de R$ 60 num cartório paulista (tabela de emolumentos de São Paulo, 2026), e a consulta a um livro de expostos no arquivo de uma Santa Casa, com hora marcada, costuma sair por R$ 0. A distância se explica pelo papel: o cartório vende a cópia de um registro civil, e a Santa Casa guarda o original de um registro que nenhum cartório tem.

Esse original nasceu numa parede. Até o século XX, várias Santas Casas de Misericórdia do Brasil tinham, no muro do prédio, um cilindro de madeira que girava sobre um eixo, aberto de um lado só. Era a roda dos expostos (exposto quer dizer a criança abandonada e recolhida pela instituição).

Quem deixava o bebê punha a criança no vão voltado para a rua, girava o cilindro e tocava uma sineta. Lá dentro, a irmã rodeira (a encarregada de vigiar a roda) recolhia a criança sem ver o rosto de quem a deixou.

O segredo era a regra da casa. A mãe solteira, a família pobre ou o senhor que não queria reconhecer um filho entregavam a criança sem nome e sem testemunha.

O nome de quem deixou ficava fora do papel. O resto entrava inteiro: a hora da chegada, o pano que envolvia o bebê, a fita no pulso, o bilhete preso na roupa.

O bilhete às vezes trazia só uma frase: a criança já era batizada, ou ainda não, e se chamava assim. Outras vezes pedia que a guardassem bem, porque alguém voltaria para buscar.

Muitos voltaram. Para provar que o filho era seu, a mãe descrevia a roupa e o sinal deixado, e a Santa Casa conferia com o livro.

Por esse motivo, o assento da roda servia de recibo. E é ele que hoje devolve ao neto a data, o nome dado na pia e a família da ama de leite que criou o avô.

A primeira seção mostra o sobrenome que a roda dava e por que tanta família brasileira o carrega.

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I  O Sobrenome do Dia

De Jesus, o sobrenome da pia batismal

O sobrenome do dia é De Jesus, um dos que a roda da Santa Casa da Misericórdia mais deu às crianças recolhidas no Brasil. A criança chegava sem pai declarado, e o capelão precisava de um nome para escrever no batismo.

A solução saía do calendário e da devoção. O menino recolhido no dia de São José podia virar José de Jesus; a menina, Maria da Conceição, do Nascimento ou dos Anjos. O sobrenome religioso preenchia o lugar do sobrenome do pai.

O SOBRENOME DEVOTO TAMPAVA O NOME DO PAI

Esses nomes não eram exclusivos dos expostos. Famílias inteiras, livres ou escravizadas, também adotavam De Jesus, Dos Santos ou Da Conceição por devoção, e o mesmo nome corria em todas as classes.

Por esse motivo, o sobrenome sozinho não prova a roda. Um De Jesus no século XIX pode ser filho de casal casado na igreja, alforriado que tomou o nome do santo do dia ou criança deixada no cilindro da Santa Casa.

O que separa os casos é o assento de batismo. No livro da paróquia, a criança da roda costuma aparecer como exposta, com pais incógnitos (desconhecidos), e às vezes com a observação de que foi achada na roda da Misericórdia.

Em alguns lugares, o capelão punha o sobrenome do padrinho. Em outros, a criança recebia o nome de quem a criou, a ama de leite ou a família que a acolheu depois dos primeiros anos.

Esse último caminho pesa na pesquisa. Um avô registrado como José de Jesus no livro da roda pode ter casado décadas depois como José da Silva, com o sobrenome da família que o recebeu em casa.

As rodas brasileiras seguiram o modelo português. A primeira abriu em Salvador, na Santa Casa da Bahia, em 1726; a do Rio de Janeiro veio em 1738; a de São Paulo só em 1825.

A da Bahia funcionou até 1950 e a de São Paulo até 1951, quando a lei e a medicina da infância já condenavam o sistema. Durante mais de dois séculos, portanto, cada criança deixada ali deixou também um registro.

Quem carrega De Jesus, Dos Anjos ou Da Conceição na árvore do século XIX tem um motivo concreto para abrir o livro da roda antes de desistir do ramo.

 
 

II  O Registro

O livro de matrícula da roda

O assento começava na madrugada ou na hora em que a sineta tocasse. A irmã rodeira ou o escrivão da casa abria o livro de matrícula dos expostos e dava à criança um número de ordem.

O registro seguia um roteiro fixo. Vinham a data e a hora, o sexo, a idade aparente, a cor anotada pelo escrivão e o estado de saúde na chegada.

Depois vinha a roupa, peça por peça. Camisa de cassa, cueiro de baeta (pano grosso de lã), touca de renda, fita azul no braço: o escrivão descrevia o tecido e a cor porque a roupa era o documento da mãe.

O BILHETE ERA COPIADO NO LIVRO OU COSTURADO NA PÁGINA

O bilhete recebia o mesmo cuidado. Em parte dos livros ele foi copiado palavra por palavra; em outros, o papel original ficou preso à folha com alfinete ou linha, e ainda está lá.

Cada linha do bilhete pode virar pista. Ele dizia se a criança já tinha batismo, com que nome, e às vezes trazia a data de nascimento, o nome da mãe ou uma moeda partida ao meio, cuja outra metade ficava com a família.

O assento seguia aberto pelos anos seguintes. A criança ia logo para uma ama de leite, quase sempre de fora da casa, e o livro anotava o nome da ama, o endereço e o valor pago por mês.

A Santa Casa pagava a ama até a criança completar alguns anos, em geral três de leite e mais alguns de criação, conforme o regulamento de cada cidade. Os recibos mensais também entravam nos livros de despesa.

No fim do assento, o escrivão anotava o destino. A criança podia ter sido entregue de volta a quem provou ser da família, encaminhada como aprendiz, casada com dote da casa ou dada como falecida, com a data.

Nem todo assento chegou completo. Livros de algumas cidades se perderam em incêndio, mudança ou umidade, e parte das rodas menores anotava pouco. Onde o livro sumiu, o batismo da paróquia é o único papel que sobra, e nem sempre ele diz que a criança era da roda.

Os livros que sobreviveram estão nos arquivos e museus das próprias misericórdias. A Santa Casa da Bahia guarda os seus no Arquivo da Misericórdia, em Salvador; a de São Paulo, no Museu da Santa Casa; a do Rio, no seu arquivo histórico.

Há também cópias em microfilme. O FamilySearch (o acervo genealógico gratuito mantido pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias) filmou parte dos livros de batismo paroquiais onde os expostos aparecem.

 

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III  A Rota

Do sobrenome da família ao assento da roda

A rota parte de três dados: o nome completo do antepassado suspeito, a cidade onde ele nasceu e um ano aproximado. Com eles, a busca começa na paróquia e termina no livro da Santa Casa.

• Passo 1: procure o batismo do antepassado no FamilySearch e leia a linha dos pais.

• Passo 2: se os pais aparecem como incógnitos, ou a criança como exposta, anote a data, o padrinho e o nome dado na pia.

• Passo 3: descubra se a cidade tinha roda e qual Santa Casa a mantinha naquele ano.

• Passo 4: escreva ao arquivo ou museu dessa Santa Casa pedindo o livro de matrícula dos expostos do período.

• Passo 5: no livro, procure a criança pela data de entrada e pelo nome, e copie o assento inteiro, com roupa, bilhete e ama.

No passo 1, use o filtro de cidade e de década, e teste o nome com e sem o sobrenome devoto. Um José de Jesus pode estar indexado só como José.

No passo 2, o batismo de exposto costuma vir poucos dias depois da entrada na roda. A data do batismo, portanto, aponta a semana em que a criança chegou à Santa Casa.

No passo 3, as maiores rodas ficavam em Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Porto Alegre e São Luís, mas cidades menores também tiveram as suas no século XIX.

No passo 4, informe o nome, a data aproximada e o motivo da pesquisa. Muitos arquivos de misericórdia atendem com hora marcada e pedem que o pesquisador leve luvas e lápis, nunca caneta.

No passo 5, fotografe a página inteira, inclusive a margem. As anotações posteriores, como a entrega à família ou o casamento, quase sempre aparecem escritas ao lado do assento.

Com o nome da ama em mãos, abra uma segunda busca. A família dela pode ter acolhido a criança depois do leite, e o sobrenome da ama às vezes reaparece no casamento do exposto.

Se o livro da roda não existir mais, o batismo e o casamento ainda entregam a cidade, o nome dado na pia e o sobrenome que a família adotou depois.

“Na sua árvore, qual antepassado aparece com pais incógnitos no batismo?”

Hoje, até as 22h: escolha 1 antepassado com sobrenome devoto, abra 1 batismo dele no FamilySearch e anote em uma linha como os pais aparecem.

 
 
Quiz da edição

Segundo a edição, em que ano a Santa Casa da Bahia, em Salvador, abriu a primeira roda dos expostos do Brasil?

A1738
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C1726
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