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ED 013

O Grinberg brasileiro começa num lote, não numa capital

A Jewish Colonization Association assentou famílias do Leste Europeu no Rio Grande do Sul entre 1904 e 1926, e mediu cada lote em papel.

Contrato de lote de colônia aberto sobre mesa de madeira, com carimbo em relevo e pena de aço ao lado.

O lote de colônia que virou endereço de família

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Em outubro de 1904, um trem parou numa parada de linha férrea a poucos quilômetros de Santa Maria, no centro do Rio Grande do Sul. Desceram ali cerca de trinta e sete famílias, algo em torno de duzentas e sessenta pessoas, com baú, ferramenta e contrato assinado.

O lugar ganhou o nome de Philippson, em homenagem a Franz Philippson, o banqueiro belga que administrava a operação. Foi a primeira colônia agrícola judaica montada no Brasil.

Quem pagou a passagem foi a Jewish Colonization Association, companhia registrada em Londres em setembro de 1891 por iniciativa do barão Maurice de Hirsch, com dois milhões de libras de capital inicial e um objetivo declarado em estatuto: tirar famílias judias do Império Russo e assentá-las em terra própria fora da Europa.

Aquele grupo específico vinha da Bessarábia, região que hoje se divide entre Moldávia e Ucrânia. A emigração ganhou pressa depois dos ataques de Kichinev, em abril de 1903, e a Argentina já recebia colônias da mesma companhia desde 1891.

A diferença dessa rota para qualquer outra imigração está no papel. A companhia não despachava gente solta num porto: media o lote, numerava, escriturava, emprestava dinheiro para a casa e o arado, e cobrava a dívida em prestação anual.

Cada família virou linha de planilha antes de virar vizinha de alguém. Existe nome do chefe de família, número do lote, hectares, valor emprestado e data de entrada, tudo escrito por um funcionário que precisava prestar contas a um conselho em Londres.

Sete anos depois veio a operação grande. A companhia comprou terras no norte do estado e abriu a colônia Quatro Irmãos, na região de Erechim, com núcleos batizados de Barão Hirsch, Baronesa Clara e Rio Padre.

Para quem procura o próprio sobrenome, a consequência é direta. O nome não entra no Brasil por uma capital, por um sobrado de esquina ou por um comércio na rua principal: ele entra por um número de lote em zona rural gaúcha, e sai de lá uma ou duas gerações depois.

Antes de abrir contrato e lista, vale entender o que a palavra dizia quando ainda não era sobrenome de ninguém.

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I  O Sobrenome do Dia

A montanha verde que virou nome de família

Grinberg é palavra ídiche colada de duas peças. Grin quer dizer verde, e berg quer dizer montanha ou monte, o que faz do sobrenome uma descrição de paisagem, não uma linhagem.

O ídiche nasceu do alto alemão medieval e absorveu hebraico e eslavo pelo caminho. Por isso a mesma palavra vira Grünberg em alemão e Greenberg em inglês, e as três apontam para o mesmo monte verde.

Existe até um endereço concreto por trás da forma alemã. Grünberg in Schlesien, hoje Zielona Góra, na Polônia, é literalmente a montanha verde, e a cidade emprestou o nome a famílias que passaram por ela.

O ponto que quase ninguém conta em casa é quando o nome foi fixado. A maioria das famílias asquenazes não usava sobrenome hereditário antes do fim do século 18: a identificação era o patronímico, fulano ben sicrano, refeito a cada geração.

Quem mudou a regra foi o Estado, para poder contar e recrutar. O edito de José 2º da Áustria, de 1787, obrigou os judeus dos domínios dos Habsburgo a adotar sobrenome fixo em alemão, e o Império Russo repetiu a exigência no estatuto de 1804, reforçado em 1835.

Sobrenome asquenaze quase nunca nasceu na família. Nasceu num balcão de repartição imperial, escolhido ou imposto num dia marcado, e o que sobrou na certidão é a decisão daquele dia.

Daí vem a família de nomes de paisagem que domina a lista. Junto de Grinberg aparecem Rosenberg, o monte das rosas, Goldberg, o monte de ouro, e Blumenfeld, o campo de flores, escolhidos pelo som e não por herança.

Ao lado deles vieram os nomes de ofício. Schneider é alfaiate, Kaufman é comerciante, Schuster é sapateiro, e cada um descreve o que o homem fazia na cidadezinha antes de assinar qualquer coisa.

E vieram também os patronímicos eslavizados, com terminação em vitch ou son. Rabinovitz é filho do rabino, Abramovitz é filho de Abraão, e a mesma família podia trocar de forma ao cruzar uma fronteira administrativa.

No Brasil essas palavras sofreram um segundo desgaste, agora fonético. Um escrivão de comarca gaúcha ouvia Grinberg e escrevia Grimberg, Grinbergue ou Greenberg, e o filho registrava do jeito que o pai tinha aprendido a assinar.

O resultado prático é que a grafia da sua certidão não é a grafia europeia. Ela é o registro de como um funcionário brasileiro entendeu o nome numa tarde de cartório, e serve para achar o documento local, nunca para negar o parentesco.

Nada disso, porém, prova que a família veio pela colônia. O que prova é a papelada que a companhia produziu para justificar cada centavo emprestado.

 
 

II  O Registro

A lista de colonos e o contrato de lote

A Jewish Colonization Association era uma companhia com acionistas, conselho e auditoria. Antes de ser história de família, cada chegada foi um lançamento contábil que alguém precisava explicar em Londres.

O primeiro documento que interessa é a lista nominal de colonos. Ela registra, por colônia e por ano, o chefe de família, o número do lote recebido, a quantidade de pessoas na casa e a procedência declarada na Europa.

O segundo é o contrato do lote. A companhia não doava terra: vendia em prestação, com o lote medido em hectares, o preço fechado, o prazo de pagamento e a cláusula que devolvia a terra à companhia se o colono abandonasse a lavoura.

Junto do contrato costuma existir a conta corrente da família. É o livro onde entram o adiantamento para a casa de madeira, os animais, a semente, e onde saem os pagamentos anuais, ano após ano, com saldo devedor no fim da página.

Esse conjunto tem um efeito raro na genealogia brasileira. Ele nomeia a aldeia europeia de origem, o que certidão de casamento local quase nunca faz, e amarra a família a uma coordenada rural com número.

Philippson começou com trinta e sete famílias em 1904, em terras ligadas ao município de Santa Maria, e nunca passou de colônia pequena. O cemitério da colônia continua lá, com lápides em hebraico, e as primeiras datas gravadas são de 1904 e 1905.

Quatro Irmãos foi outra escala. A companhia comprou uma área grande no norte do estado por volta de 1909 e abriu a colônia em 1911, cortada pela ferrovia São Paulo, Rio Grande, com estação e serraria próprias.

A ferrovia explica a economia do lugar. Vendia-se madeira e cereal pela linha, e a mesma linha levava o colono ao comércio de Passo Fundo, então a comarca que respondia por boa parte daquele território.

A jurisdição muda ao longo do período e derruba muita busca. Boa Vista do Erechim virou município em 1918, e o registro de imóveis dos lotes migra de comarca conforme a data do ato, sem que ninguém avise o pesquisador.

O ciclo de assentamento fecha nos anos 1920. A companhia reduziu o ritmo de novos contratos, muita família vendeu o lote e desceu para Porto Alegre, Erechim ou Passo Fundo, e a colônia virou lembrança de infância no relato dos netos.

Essa saída é justamente o que apaga a pista. O neto conhece o sobrenome e a cidade grande, não conhece o lote, e é o lote que o arquivo sabe procurar.

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III  A Rota

Do cartório de Erechim ao arquivo em Jerusalém

A busca por um sobrenome de colônia tem quatro endereços, e o primeiro deles fica na sua própria cidade.

Comece pelo cartório onde a família já está registrada. Peça a certidão de inteiro teor, que copia o assento inteiro e as anotações da margem, e monte a corrente de nomes até o antepassado nascido fora do Brasil.

O segundo endereço é a entrada no país. As listas de passageiros e os registros de estrangeiros estão no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, e a série de Santos tem parte digitalizada no acervo do Museu da Imigração do Estado de São Paulo.

Vale procurar também o processo de naturalização. Ele costuma trazer a cidade de nascimento, o nome dos pais, a data de chegada e o navio, quatro dados que resolvem sozinhos a ponte para a Europa.

O terceiro endereço é o acervo da colônia. Em Porto Alegre, o Instituto Cultural Judaico Marc Chagall reúne documentos, fotografias e depoimentos das colônias gaúchas desde 1985, e o Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul guarda a documentação estadual de terras e colonização.

Some a esse endereço o registro de imóveis da comarca. Transcrição de compra e inventário nomeiam confrontantes, e confrontante é vizinho, o que costuma abrir três famílias de uma vez.

O quarto endereço fica fora do Brasil. O fundo da Jewish Colonization Association está nos Central Archives for the History of the Jewish People, em Jerusalém, com a série administrativa das colônias sul-americanas, e o lado europeu se procura nos índices de comunidade do JewishGen.

Três armadilhas derrubam quase toda busca desse tipo. A primeira é a grafia: procure por Grinberg, Grynberg, Grimberg, Greenberg e Grünberg, e teste o nome sem a letra final, porque o índice do acervo alfabeta pela forma escrita e não pelo som.

A segunda é o nome de casa. O mesmo homem podia ser Hersch no documento europeu e Henrique na certidão brasileira, e o par de nomes só aparece junto no registro de estrangeiro ou no processo de naturalização.

A terceira é procurar pessoa quando o caminho é lugar. Achada a colônia e o número do lote, o nome aparece quase sozinho, porque a papelada da companhia é organizada por colônia e por lote, nunca por sobrenome.

Achar a primeira aparição do nome no Brasil segue três movimentos, nesta ordem.

Passo 1: recolha o que a família guarda. Anote nome completo, data, cartório, livro e folha de cada certidão, e feche a corrente de gerações até o primeiro nascido fora do país.

Passo 2: prove a chegada. Procure lista de passageiros, registro de estrangeiro e processo de naturalização, e copie o nome do navio, a data do desembarque e a cidade de nascimento declarada.

Passo 3: entre pela colônia, não pelo sobrenome. Com a cidade gaúcha em mãos, peça a lista de colonos e o contrato de lote nos acervos de Porto Alegre, e anote colônia, núcleo, número do lote e ano do contrato.

O sobrenome que hoje aparece num crachá de Porto Alegre foi, por algumas décadas, o nome escrito ao lado de um número de lote em terra de mato. Está em contrato, em lista de colonos e em livro de conta corrente, sempre preso a uma coordenada com data.

"Em que lote de qual colônia o seu sobrenome aparece pela primeira vez em papel brasileiro?"

 
 
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O texto exato que traz a certidão do seu avô de qualquer cartório do país sem despachante.

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De onde veio o nome da colônia Philippson, primeiro assentamento judaico agrícola do Brasil?

ADo rio que cortava o lote original
BDe Franz Philippson, banqueiro belga que administrava a operação
CDo rabino que liderou o grupo de Bessarábia
DDa estação ferroviária construída em 1911

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