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O bisavô sumido pode ter entrado pela Ilha das Flores

A hospedaria da Baía de Guanabara recebeu imigrantes por 83 anos, e os papéis dela foram parar no Arquivo Nacional.

Antigo prédio da hospedaria de imigrantes numa ilha pequena da Baía de Guanabara, visto do mar ao entardecer.

Antiga hospedaria de imigrantes da Ilha das Flores

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O ingresso inteiro do Museu da Imigração, na Mooca, custa R$ 16, e a visita guiada à antiga hospedaria de imigrantes da Ilha das Flores, em São Gonçalo, custa R$ 0 (sites das duas instituições, consultados em outubro de 2026). A distância de preço pesa menos que a distância de acervo: cada casa guarda a chegada de um porto, e muita família procura o bisavô no porto errado.

A base online do museu paulista virou o primeiro endereço de quem pesquisa imigrante. Ela reúne os livros da Hospedaria do Brás, que recebia quem desembarcava em Santos com destino às fazendas de café do interior.

Quem digita o nome do bisavô ali e não acha nada costuma concluir que o registro se perdeu. Muitas vezes ele nunca esteve lá. O imigrante que desceu na capital do Império, e depois da República, passava por outra porta.

Essa porta ficava numa ilha pequena da Baía de Guanabara, do lado de São Gonçalo. A Hospedaria da Ilha das Flores abriu em 1883 e funcionou até 1966, com dormitórios, refeitório, enfermaria e cais próprio, longe do centro da cidade e das epidemias do porto.

Portugueses, espanhóis, italianos, sírios e libaneses passaram por ali. Dali seguiam para o comércio carioca, para as fazendas fluminenses e mineiras ou para as colônias do Espírito Santo, depois de alguns dias de quarentena, comida e papelada.

Quando a hospedaria fechou, a documentação que sobrou foi recolhida pelo Arquivo Nacional, no centro do Rio. É nesse acervo, e nas listas de bordo dos vapores que atracavam na Guanabara, que o bisavô ausente da base paulista costuma aparecer.

A pesquisa muda de endereço, e a primeira pista para saber se a família desceu na Guanabara costuma estar no próprio sobrenome. Um nome galego, comum entre os que passaram pela ilha, mostra o tamanho do engano de procurar só em Santos.

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I  O Sobrenome do Dia

Otero, o morro que atravessou o mar

Otero é um sobrenome galego de origem toponímica, ou seja, formado a partir do nome de um lugar. Vem de oteiro, forma galega de outeiro, o morro baixo e isolado que se ergue do campo plano.

A raiz é latina. A palavra descende de altarium (lugar alto, em latim), da mesma família de altar e de alto, e o castelhano fixou a grafia otero para a mesma elevação de terreno.

Na Galiza, o noroeste da Espanha colado ao Minho português, quase toda paróquia rural tinha o seu oteiro. A casa erguida no alto virava ponto de referência, e quem morava nela passava a ser identificado pelo morro.

Com o tempo, a referência virou nome de família. Daí o sobrenome não apontar uma aldeia só: há lugares chamados Otero, Oteiro e Outeiro espalhados pelas quatro províncias galegas, Corunha, Lugo, Ourense e Pontevedra.

A GALIZA MANDOU OS OTERO PELA GUANABARA, NÃO POR SANTOS

O caminho desses galegos até o Brasil teve um desenho próprio. Quem saía dos portos de Vigo e da Corunha no fim do século XIX e no começo do XX desembarcava sobretudo na capital e em Salvador, e bem menos em Santos.

Na capital, os galegos ocuparam o comércio miúdo: padarias, armazéns, botequins, carroças de entrega e serviço de cais. Poucos foram para as fazendas de café, o destino que a Hospedaria do Brás organizava em São Paulo.

A memória da família costuma confundir essa origem. No Rio, “galego” virou apelido genérico para o português pobre recém-chegado, e muito neto ouviu que o avô era português quando ele tinha nascido em Pontevedra.

O cartório brasileiro aumentou a confusão. O escrivão escrevia como ouvia e aportuguesava o nome, e um Otero espanhol podia sair na certidão de casamento como Oteiro ou Outeiro, grafias que parecem de outra família.

Por esse motivo, o sobrenome já sugere o porto. Um Otero ausente da base paulista tem boa chance de ter entrado pela Ilha das Flores, e a busca precisa cobrir as três grafias, nos papéis da hospedaria e nas listas dos navios que chegavam à Guanabara.

Resultado: procurar um Otero pede três grafias e dois portos, e o porto mais provável fica na Baía de Guanabara.

 
 

II  O Registro

Duas pilhas de papel no Arquivo Nacional

A chegada pela Ilha das Flores deixou papel em dois lugares. O primeiro é a lista de bordo, chamada na época de relação de passageiros, que o comandante do vapor entregava à polícia do porto ao atracar.

A lista anotava o nome, a idade, o estado civil, a nacionalidade, a profissão e o porto de embarque. Em muitas viagens, acrescentava a classe da passagem, e quem vinha na terceira classe era quase sempre o imigrante que seguia para a hospedaria.

O segundo papel nascia na própria ilha. A hospedaria registrava a entrada de cada família, o dia da saída e o destino no interior, às vezes com o nome da colônia ou do fazendeiro que tinha contratado aquela mão de obra.

A partir de 1900, a polícia marítima passou a preencher cartões individuais de desembarque. Os cartões das décadas finais trazem fotografia e lugar de nascimento, o dado que a lista de bordo quase nunca dava.

A LISTA DE BORDO DIZ O NAVIO, E O NAVIO DIZ A DATA

O historiador Boris Fausto organizou o livro Fazer a América: a imigração em massa para a América Latina (1999), e os estudos reunidos ali tratam a chegada ao Brasil como uma etapa de um movimento continental, com rotas, agentes e portos próprios para cada povo.

Para o pesquisador, essa ideia tem uso prático. O nome do navio e a data de chegada permitem voltar ao porto de embarque na Europa, e de lá aos registros de saída do país de origem.

A documentação tem buracos, e convém saber quais. As listas mais antigas trazem só o sobrenome e a inicial, e o escrivão do porto castelhanizava ou aportuguesava o nome de acordo com o ouvido.

Parte dos livros internos da hospedaria também se perdeu. O Arquivo Nacional não publica um inventário que diga quanto sumiu, e a ausência de um nome nos registros da ilha não prova que o imigrante não passou por ali.

Os cartões ajudam também quem chegou já adulto com filhos pequenos. Cada membro da família ganhava cartão próprio, e os das crianças costumam repetir o nome da mãe, dado que a lista de bordo às vezes omitia.

Depois de 1966, a ilha ficou sob a Marinha. O antigo prédio hoje abriga um centro de memória montado com a UERJ, que recebe visitantes e expõe parte da história da hospedaria, mas não guarda a papelada original: ela está no Arquivo Nacional.

 

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III  A Rota

Do nome no SIAN ao navio da chegada

A rota começa no SIAN, o Sistema de Informações do Arquivo Nacional, a busca online do acervo. O cadastro é gratuito, e a imagem dos documentos digitalizados pode ser baixada de casa.

Separe três dados da família: o nome completo do imigrante, a nacionalidade declarada nos papéis brasileiros e um ano aproximado de chegada. A certidão de casamento ou o registro de estrangeiro costumam dar a idade, e a subtração aproxima o ano.

• Passo 1: no SIAN, faça a pesquisa livre com o sobrenome e o nome de batismo, testando também as grafias aportuguesadas.

• Passo 2: nos resultados, fique com as relações de passageiros e os documentos do porto carioca, e descarte processos de outros assuntos.

• Passo 3: no FamilySearch, abra a coleção de cartões de imigração do porto carioca, de 1900 a 1965, e repita a busca pelo nome.

• Passo 4: anote o nome do navio, a data de chegada e o porto de embarque, e confira se a idade bate com a da certidão brasileira.

• Passo 5: com o porto de embarque em mãos, procure a paróquia de origem nos livros digitalizados do país de saída.

No passo 1, aceite folga de dois ou três anos na idade. A idade da lista de bordo era declarada ao comissário do navio, e raramente coincide com a da certidão feita anos depois no Brasil.

No passo 3, o cartão vale mais que a lista. Nas décadas finais ele traz a cidade de nascimento escrita pelo próprio funcionário, e com ela a busca salta direto para a paróquia, sem passar pelo porto de embarque.

Se nada aparecer, há três explicações prováveis. O imigrante pode ter chegado antes de 1883, quando a ilha ainda não recebia ninguém; pode ter desembarcado em Salvador ou em Santos; ou o papel dele pode estar entre os que se perderam. Nos dois primeiros casos, a busca recomeça nos acervos baianos ou na base paulista; no terceiro, resta a certidão brasileira, que às vezes cita o navio pelo nome.

Achado o navio, a árvore ganha uma data exata. O vapor, o dia e o porto de saída levam ao registro de emigração do país de origem, e esse registro costuma dar a paróquia onde o batismo está guardado.

“Na sua família, alguém sabe em que porto o primeiro imigrante desceu, ou essa parte da história se perdeu com os mais velhos?”

Hoje, até as 22h: entre no SIAN, faça 1 busca com o sobrenome do seu bisavô imigrante e anote o nome do primeiro navio que aparecer com a idade compatível.

 
 
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Segundo o texto, até que ano a Hospedaria da Ilha das Flores recebeu imigrantes antes de passar para a Marinha?

A1950
B1966
C1930
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