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O avô inglês de Porto Velho que nasceu em Barbados

O escrivão anotou a nacionalidade britânica, e a família procura há décadas na Inglaterra. O batismo está numa paróquia do Caribe.

Trilho antigo na beira do rio e um livro anglicano aberto.

Trilho da ferrovia e o livro da paróquia

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Uma certidão inglesa de nascimento pedida ao General Register Office, o cartório central da Inglaterra e do País de Gales, custa £ 12,50, perto de R$ 90 (tabela do GRO, outubro de 2026). O batismo anglicano do mesmo avô, se ele nasceu em Barbados, abre por R$ 0 na coleção de registros de igreja da ilha no FamilySearch. Os R$ 90 pagos em Londres costumam comprar uma busca vazia, porque o avô de sobrenome inglês de Porto Velho raramente nasceu na Inglaterra.

Na capital de Rondônia, Johnson, Chase, Blackman e Maloney aparecem em lápide, em fachada de loja e em lista de chamada de escola. A família cresce ouvindo que o bisavô era inglês, veio trabalhar na ferrovia e ficou.

A segunda metade da frase costuma estar certa. A primeira quase nunca está.

Entre 1907 e 1912, a Madeira-Mamoré Railway Company, empresa do americano Percival Farquhar, assentou 364 quilômetros de trilhos de Porto Velho a Guajará-Mirim, para escoar a borracha boliviana e cumprir o Tratado de Petrópolis, de 1903. Faltava gente que aguentasse o calor e a malária da beira do rio Madeira.

A empresa foi buscar operários no Caribe. Vieram homens de Barbados, Granada, Trinidad e outras ilhas das Antilhas, muitos com experiência na abertura do Canal do Panamá. Em Porto Velho, todos ganharam um apelido só: barbadianos.

Barbados era colônia britânica. Quem nascia lá era súdito do rei da Inglaterra, falava inglês e viajava com passaporte britânico. Na hora de lavrar o casamento no cartório brasileiro, o escrivão anotava a nacionalidade como inglesa.

Uma palavra no livro do cartório trocou o país inteiro da família. Três gerações adiante, o neto procura o bisavô em Londres, Liverpool e Manchester, e a busca volta vazia porque o homem nasceu numa ilha de 430 quilômetros quadrados no mar do Caribe.

O sobrenome de hoje é o mais comum dessa leva, e a história dele mostra como um nome inglês chegou a Barbados antes de chegar a Rondônia.

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I  O Sobrenome do Dia

Johnson, o filho de John na ilha do açúcar

O sobrenome do dia é Johnson, um dos mais frequentes entre os barbadianos que a Madeira-Mamoré Railway Company levou para Porto Velho entre 1907 e 1912. Ele é patronímico (formado a partir do prenome do pai): quer dizer filho de John, o João inglês.

Na Inglaterra medieval, o sufixo -son (filho) colado ao prenome do pai identificava quem era quem numa aldeia cheia de Johns. Com o tempo, a marca deixou de mudar a cada geração e virou herança fixa.

O sobrenome chegou a Barbados por dois caminhos. O primeiro foi a colonização: ingleses ocuparam a ilha a partir de 1627 e levaram servos por contrato (indentured servants, trabalhadores brancos presos a um patrão por alguns anos em troca da passagem), muitos deles Johnson.

O segundo caminho foi a escravidão. Com o açúcar, a partir da década de 1640, Barbados recebeu africanos escravizados em massa. Eles não tinham sobrenome reconhecido: nos papéis, apareciam só pelo prenome, ligados ao dono e à fazenda.

O JOHNSON DE BARBADOS QUASE NUNCA APONTA PARA UM ANCESTRAL INGLÊS DE SANGUE

A abolição veio em 1834, seguida de um período de aprendizado (apprenticeship, trabalho obrigatório para o antigo dono, sem salário pleno) que só terminou em 1838. Livres, os ex-escravizados passaram a batizar filhos e a casar na igreja anglicana, e ali precisavam de sobrenome.

Muitos ficaram com o sobrenome do antigo dono. Outros escolheram um nome inglês comum, e Johnson estava entre os mais à mão. Assim, o Johnson de Porto Velho descende, na maioria das famílias, de africanos levados a Barbados, e a herança inglesa ficou restrita ao nome.

A mesma lógica vale para os vizinhos de sobrenome. Maloney, irlandês de origem, lembra que Barbados recebeu irlandeses deportados por Oliver Cromwell na década de 1650, e o nome passou adiante pelos mesmos dois caminhos.

Em Porto Velho, o sobrenome ganhou outra camada. Escrivães brasileiros que não falavam inglês grafavam de ouvido, e Johnson podia virar Jonson ou Jhonson no mesmo livro, às vezes na mesma família.

Quem pesquisa precisa saber que o sobrenome sozinho não prova parentesco. Dois Johnson de Porto Velho podem descender de fazendas diferentes de Barbados, sem nenhum laço de sangue, porque cada família recebeu o nome por um caminho próprio.

A busca, então, começa com três grafias anotadas. A certa costuma ser a da ilha, porque o padre anglicano de Barbados escrevia na própria língua.

 
 

II  O Registro

O livro anglicano das 11 paróquias

O registro do dia são os livros de batismo, casamento e sepultamento da Igreja Anglicana de Barbados, guardados pelo Barbados Department of Archives, em Black Rock, perto da capital Bridgetown.

A ilha se divide em 11 paróquias desde o século XVII: St. Michael, Christ Church, St. Philip, St. John, St. George, St. Thomas, St. James, St. Joseph, St. Andrew, St. Peter e St. Lucy. Cada uma mantinha os próprios livros.

A anglicana era a igreja oficial da colônia. Durante séculos, o batismo nela funcionou como registro de nascimento, inclusive para os filhos de ex-escravizados depois de 1834.

O FamilySearch fotografou e indexou parte desses livros na coleção “Barbados, Church Records, 1637-1887”, que aceita busca por nome, ano e paróquia.

O BARBADIANO QUE CHEGOU A PORTO VELHO EM 1910 NASCEU, EM GERAL, ENTRE 1870 E 1892

A conta vem da idade de quem pegava no pesado: entre 18 e 40 anos na obra. Para quem nasceu até 1887, o índice do FamilySearch resolve. Para os nascidos depois, o caminho são as imagens não indexadas e o Registration Department, em Bridgetown, que emite certidões por pedido à distância.

Antes da abolição existe outra fonte. Entre 1817 e 1834, o governo britânico exigiu um censo trienal dos escravizados de cada fazenda, os Slave Registers, guardados no The National Archives, em Londres, na série T 71. Os registros de Barbados saíram em 1817, 1820, 1823, 1826, 1829, 1832 e 1834, e hoje estão digitalizados no Ancestry. Eles trazem prenome, idade, cor e às vezes a origem africana.

Do lado brasileiro, o melhor documento é o de inteiro teor (a cópia integral do assento, com todas as anotações da margem) do nascimento ou do casamento lavrado em Porto Velho. A certidão resumida corta a naturalidade; a de inteiro teor guarda o que o escrivão ouviu.

O engenheiro e historiador Manoel Rodrigues Ferreira, em A Ferrovia do Diabo, de 1959, registra que a obra reuniu trabalhadores de dezenas de nacionalidades e que os antilhanos foram dos poucos grupos a fincar raiz na cidade quando os trilhos ficaram prontos.

Ficaram, em boa parte, num bairro perto da ferrovia que Porto Velho chamou de Barbadian Town. Os filhos nasceram brasileiros, foram registrados no cartório local e herdaram o sobrenome da ilha com a nacionalidade errada do pai anotada ao lado.

 

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III  A Rota

Do cartório de Porto Velho à paróquia da ilha

A rota começa no papel mais antigo que a família guarda: a certidão de casamento do bisavô, a de nascimento do avô ou um documento militar. O objetivo é achar o campo da naturalidade escrito à mão.

Se a certidão diz inglês e o casamento foi em Porto Velho entre 1910 e 1940, trate a Inglaterra como hipótese fraca. A chance maior é Barbados, Granada ou Trinidad.

A segunda fonte é a ficha de estrangeiro. A partir de 1938, o governo de Getúlio Vargas obrigou o estrangeiro residente a se registrar na polícia, e a ficha trazia foto, data e local de nascimento. Parte delas está no Arquivo Nacional, com consulta pelo sistema SIAN.

Passo 1: peça ao cartório de registro civil de Porto Velho a certidão de inteiro teor do casamento ou do nascimento mais antigo da família.

Passo 2: leia o campo de naturalidade do pai ou do avô e anote qualquer ilha, cidade ou paróquia citada.

Passo 3: no FamilySearch, abra a coleção “Barbados, Church Records, 1637-1887” e busque o prenome, o sobrenome nas três grafias e a década provável do nascimento.

Se aparecer uma paróquia, abra as imagens daquele livro e confira pelos pais. O assento anglicano costuma trazer o pai, a mãe, a ocupação e a fazenda ou a vila onde a família morava.

Nem todo inglês de Porto Velho era barbadiano. Houve granadinos, trinitários e jamaicanos, e houve ingleses de fato, engenheiros e capatazes da empresa. Se duas décadas de livros em Barbados não devolverem nada, a ficha de estrangeiro decide a ilha.

Achado o batismo, anote três dados: a paróquia, a data do assento e o nome da fazenda ou da vila. Com a paróquia em mãos, os livros de casamento da mesma igreja costumam devolver os avós do barbadiano, uma geração antes da ferrovia.

Em parte das famílias, nenhuma fonte responde. Documentos de Porto Velho se perderam em mudanças de cartório e em enchentes do Madeira, e sem a naturalidade escrita não há como afirmar a ilha de origem. Nesse caso, o teste de DNA com base de comparação caribenha é a última pista.

“Na certidão mais antiga da sua família, o que o escrivão escreveu no campo da nacionalidade?”

Hoje, até as 22h: mande 1 email ao cartório onde o seu avô casou e peça a certidão de inteiro teor do casamento.

 
 

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O Pedido de Duas Linhas, no ebook e no app.

📖O ebook ensina: O texto exato que traz a certidão do seu avô de qualquer cartório do país sem despachante.
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Segundo a edição, por que o escrivão do cartório de Porto Velho anotava a nacionalidade do avô barbadiano como inglesa?

APorque ele tinha nascido na Inglaterra antes de embarcar para o Caribe
BPorque a Madeira-Mamoré Railway Company exigia o registro de todo operário como britânico
CPorque Barbados era colônia britânica, e quem nascia lá era súdito do rei da Inglaterra
DPorque o sobrenome inglês do operário já bastava, por si só, para definir a nacionalidade no papel

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