|
A vida desse refugiado deixou quatro camadas de papel, cada uma num país. A infância na Hungria deixou assento paroquial em latim ou registro civil em húngaro. A fuga de 1956 deixou ficha de campo austríaco. A entrada aqui deixou registro de estrangeiro e naturalização. A permanência deixou cartório brasileiro, missa em húngaro na capela da colônia em São Paulo e lápide com o nome já invertido.
A pesquisa monta em quatro paradas, e começa dentro do Brasil.
A primeira parada é a certidão brasileira de inteiro teor mais antiga que a família alcançar, de preferência o casamento do imigrante. Ela declara filiação e naturalidade, e copia o nome dos pais do documento húngaro, com a ordem e a grafia que o escrevente enxergou.
A segunda parada é a ficha de registro de estrangeiro no Arquivo Nacional. Peça a imagem completa da frente e do verso, porque a aldeia de nascimento, a data exata e a assinatura de próprio punho aparecem no corpo do documento, e são elas que abrem o acervo húngaro.
A terceira parada é o processo de naturalização, quando existir. Ele reúne declaração de testemunhas, cópia do documento de refugiado e, em muitos casos, a tradução juramentada da certidão húngara, que entrega paróquia e número de assento.
A quarta parada é o lado húngaro. Com aldeia, dia e nome dos pais na mão, o pedido vai ao Magyar Nemzeti Levéltár ou ao acervo digitalizado dos livros paroquiais, atrás do assento no ano certo e na língua daquele ano, latim antes de 1895 e húngaro depois.
Duas armadilhas derrubam a maior parte das buscas nessa linha.
A primeira armadilha é aceitar o campo do formulário como verdade. O Nagy que aparece como prenome na ficha brasileira é sobrenome, e quem monta a árvore sobre o campo errado herda o erro por três gerações.
A segunda armadilha é supor parentesco por sobrenome repetido. Nagy é comum demais para provar vínculo: prova a combinação de aldeia, paróquia, dia e nome dos pais no assento, e dois Nagy sem esses quatro elementos não são parentes.
Fechar a corrente exige três movimentos, nesta ordem.
Passo 1: suba pelas certidões brasileiras até o documento mais antigo que declare naturalidade húngara, e copie o nome dos pais exatamente como está escrito, sem corrigir ordem nem acento.
Passo 2: peça ao Arquivo Nacional a imagem completa da ficha de registro de estrangeiro e leia a assinatura: ela mostra a ordem que a pessoa usava e o acento que o formulário perdeu.
Passo 3: com aldeia, data e nome dos pais, abra o livro da paróquia húngara no acervo digitalizado, na década certa, e confira os padrinhos antes de aceitar o assento como seu.
Hoje: abra a busca do Arquivo Nacional e rode duas consultas, uma com Nagy no campo de sobrenome e outra com Nagy no campo de prenome, anotando quantos resultados cada uma devolveu. Amanhã você compara as listas e separa quem nasceu entre 1900 e 1935.
"Em qual campo do documento mais antigo da sua família o sobrenome húngaro foi parar, prenome ou sobrenome?"
|