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Raiz do Sobrenome   Raiz do Sobrenome
ED 006

Müller perdeu o trema no cartório

Müller quer dizer moleiro, e o mesmo sobrenome saiu do papel brasileiro como Muller, Miler e Milher, uma grafia por livro.

Um livro paroquial luterano aberto na página de batismo, manuscrito em letra gótica alemã.

O livro da comunidade na linha do batismo

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O alfabeto português não tem ü. A frase parece miúda até o dia em que ela decide como a sua família vai aparecer em cada papel oficial pelos duzentos anos seguintes.

Em 25 de julho de 1824, trinta e nove imigrantes alemães desembarcaram na Real Feitoria do Linho Cânhamo, às margens do rio dos Sinos. O lugar virou São Leopoldo, e em seis anos perto de cinco mil pessoas repetiram o mesmo trajeto, quase todas rumo a um lote de mato prometido pelo governo.

Elas traziam nomes escritos com letras que o papel brasileiro não sabia formar. O ü, o ö, o ä e o ß não existiam na pena do escrivão, e ninguém no balcão tinha obrigação de saber alemão.

O escrivão resolvia de ouvido, uma linha por vez. Perguntava o nome, ouvia uma vez, escrevia o que dava e chamava o próximo da fila. Não havia formulário bilíngue, tabela de equivalência nem grafia de referência pra conferir.

O resultado não é uma grafia. São várias, e todas valem: a mesma família aparece Müller no livro da comunidade evangélica, Muller na certidão, Miler numa lista de recrutamento e Milher num inventário de partilha.

Não é erro de uma pessoa distraída. É o sistema funcionando como funcionava, com o agravante de que o Estado brasileiro ainda passaria por cima do alemão nos anos 40, fechando escola, jornal e o que estivesse escrito na língua.

Quem procura hoje esbarra numa conta simples: uma pessoa, três ou quatro identidades documentais, cada uma dormindo num acervo diferente, em cidade diferente, sob uma letra inicial diferente.

Antes de sair caçando as variantes, vale saber o que o nome dizia quando ainda tinha o trema. Müller não descreve linhagem nem terra natal: descreve um ofício, e um ofício que a aldeia mantinha em endereço fixo.

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I  O Sobrenome do Dia

O moinho que virou nome de família

Müller não é uma família: é um ofício que virou etiqueta em milhares de aldeias ao mesmo tempo.

Müller quer dizer moleiro. A palavra vem do médio-alto-alemão mülnære, e antes dele do latim molinarius, o homem do moinho. Sem brasão, sem linhagem: profissão escrita na segunda coluna do nome.

O sobrenome alemão se fixou devagar, entre os séculos 12 e 16, no sentido sul-norte. O sudoeste já tinha nome hereditário quando o norte se virava com um só; na Frísia a obrigação chegou em 1811, por decreto napoleônico.

As fontes são quatro, e quase todo sobrenome alemão encaixa numa delas. Ofício: Müller, Schmidt, Schneider, Bauer. Patronímico: Peters, Jansen, Petersen. Procedência: Bayer, Schwab, Hess. Traço físico: Klein, Lang, Braun, Weiss.

Os três nomes mais comuns da Alemanha são ofícios, e vêm nesta ordem: Müller, o moleiro, Schmidt, o ferreiro, e Schneider, o alfaiate. Só de Müller são cerca de setecentas mil pessoas.

O moinho explica a liderança. Todo povoado com água corrente tinha um, e moer era obrigação: o senhor da terra detinha o monopólio, e o camponês levava o grão pro moinho dele.

O moleiro, portanto, era cargo do lugar, e não sobrenome de sangue. Quando o pároco precisou de uma segunda palavra pra separar dois Johann na mesma página, ele escreveu o que cada um fazia da vida.

Müller não conta de quem a família descende. Conta o que ela fazia no dia em que o livro precisou distinguir dois homens com o mesmo nome de pia.

Daí sai a regra que economiza busca: dois Müller não têm parentesco por serem Müller. Eles têm em comum o moinho de povoados diferentes, e a coincidência para aí.

A forma variava dentro da própria Alemanha. No norte, em baixo-alemão, o moleiro é Möller. No sudoeste suábio e na Suíça alemã ele é Miller, com i. Mueller é a mesma palavra na regra ortográfica que troca ü por ue quando falta a tecla.

A consequência incomoda. Um Miller do sul do Brasil pode ter chegado Miller da Suábia, com passaporte já escrito assim, e não ser Müller corrompido no balcão. Mesma grafia no fim, origens distintas no começo.

O trema não é enfeite. O ü alemão é vogal própria, e a boca portuguesa ouve alguma coisa entre o i e o u. Quando ele cai, muda o som e some a chave de busca.

No papel brasileiro sobrou a consoante e a dúvida. A pergunta seguinte é onde a grafia inteira ficou registrada, e a resposta passa por um detalhe pouco lembrado: o Brasil demorou a ter registro civil.

 
 

II  O Registro

A lei que mandou escrever em português

O registro civil brasileiro só passou a valer em 1889. Até então quem anotava nascimento, casamento e óbito era a igreja católica, e o imigrante luterano não cabia naquele livro.

O decreto que criou o registro civil tem o número 9.886, de 7 de março de 1888, com vigência a partir do primeiro dia de 1889. Até ali o livro paroquial era documento de Estado, e não papel de fé.

Para o alemão protestante recém-chegado, o arranjo era um beco. O casamento dele não produzia efeito civil, o filho não entrava na conta oficial e a herança ficava exposta a contestação.

A saída veio pelo Decreto nº 3.069, de 17 de abril de 1863, que regulou o registro de nascimento, casamento e óbito das pessoas acatólicas e entregou o serviço aos pastores das próprias comunidades.

Sobrou um vão de quase quarenta anos, de 1824 a 1863, sem registro oficial. O que existe daquele período está no livro da comunidade, em alemão e em letra gótica manuscrita, a Kurrent, que o olho de hoje não lê de primeira.

Quando o nome enfim entrou no papel brasileiro, entrou de ouvido. Muller sem trema é a versão mansa; Miler e Milher são o que a pena entendeu; e houve quem traduzisse o ofício e virasse Moleiro na certidão.

Em 1938 o assunto deixou de ser do escrivão e virou pauta de governo. O Estado Novo abriu a campanha de nacionalização, e o Decreto-lei nº 406, de 4 de maio de 1938, determinou no artigo 85 o ensino primário em língua portuguesa em todo o território nacional.

No ano seguinte veio o Decreto-lei nº 1.545, de 25 de agosto de 1939, sobre a adaptação ao meio nacional dos brasileiros descendentes de estrangeiros. O título do decreto já entrega o programa inteiro.

Nome de lugar caiu junto. O Decreto-lei nº 311, de 2 de março de 1938, mandou rever topônimos, e distritos do Sul trocaram de nome: Neu Württemberg virou Panambi.

1942 foi o ano da conta fechada. O Brasil rompeu com o Eixo em janeiro e declarou guerra em agosto, e falar alemão na rua virou caso de polícia. Escola fechada, jornal fechado, biblioteca de comunidade apreendida.

O efeito no arquivo é direto. Famílias queimaram carta, bíblia e livro de sociedade por medo da revista policial, e buraco de acervo em vale alemão do Rio Grande do Sul costuma ter essa data.

Sobrenome não foi proibido por lei nenhuma. Mas a pressão fez muita família aportuguesar a grafia por conta própria, e o trema caiu de vez, por escolha, numa década em que chamar atenção saía caro.

A grafia inteira sobreviveu em dois lugares: no livro que a comunidade conseguiu guardar e na papelada que o Estado do Rio Grande do Sul arquivou antes da campanha. Chegar até eles é refazer a rota do nome de trás pra frente.

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III  A Rota

De Hamburgo ao vale do rio dos Sinos

A rota do Müller até o lote colonial tem quatro endereços, e em cada um o nome pode estar escrito de um jeito.

O primeiro é Hamburgo. As listas de passageiros do porto cobrem de 1850 a 1934, guardam milhões de nomes e estão no Staatsarchiv Hamburg, com boa parte digitalizada e indexada.

Bremen, o outro porto grande da emigração alemã, perdeu quase tudo: as listas antigas foram descartadas e o resto se foi na Segunda Guerra. Quem embarcou por lá se acha pela chegada, nunca pela saída.

Quem veio na primeira leva, antes de 1850, não aparece em lista de Hamburgo. A pista está do lado de cá, na papelada da colônia.

O segundo endereço é o porto de Rio Grande, com a subida pela lagoa dos Patos até Porto Alegre e o último trecho pelo rio dos Sinos, em barco pequeno.

O terceiro é São Leopoldo, a primeira colônia alemã do Rio Grande do Sul. O lote colonial media perto de 77 hectares, vinha com número, e o número entrava no papel junto com o nome do colono.

É o número do lote que interessa. O diretor da colônia anotava colono por colono: nome, tamanho da família, lote entregue e procedência. A última coluna troca a palavra Alemanha pelo nome de um povoado.

O quarto endereço é a comunidade evangélica. O livro de batismo traz data de nascimento e de batismo, o pai com o ofício, a mãe com o sobrenome de solteira, os padrinhos e, nos volumes mais antigos, a terra de origem do casal.

O sobrenome de solteira da mãe é o detalhe que destrava caso emperrado. Ele abre uma segunda família, com outra grafia e outro conjunto de erros, e costuma ser a ponte pro registro do lado alemão.

Parte desses livros continua na própria comunidade, com o pastor atual. Parte está no Arquivo Histórico da IECLB, em São Leopoldo, cidade que também abriga o Museu Histórico Visconde de São Leopoldo.

Em Porto Alegre fica o Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, com a documentação da colonização, os mapas de lotes, a correspondência dos diretores de colônia e o Registro Paroquial de Terras de 1854 a 1857, o registro do vigário.

Ali a grafia original continua escrita, do jeito que o próprio colono ditou, antes da campanha de nacionalização passar por cima da língua.

Achar o moinho da sua família começa com três movimentos, nesta ordem.

Passo 1: monte a lista de grafias antes de abrir qualquer base: Müller, Mueller, Muller, Möller, Moller, Miler, Milher, Miller. Busque uma por vez e anote onde cada uma apareceu.

Passo 2: ache a comunidade evangélica da localidade e peça os livros de batismo e de casamento do período. Se não estiverem na paróquia, procure o Arquivo Histórico da IECLB. Copie o nome de solteira da mãe e a procedência do casal.

Passo 3: com a procedência anotada, vá ao Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul atrás do lote e do registro de terras da família, e só então volte às listas de Hamburgo com o povoado em mãos.

O trema caiu numa linha de papel, na velocidade de uma pergunta mal ouvida. O moinho continua dentro do nome, e moinho sempre teve endereço.

"Que ofício a sua família carrega no nome sem saber?"

 
 
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