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Monnerat veio de um moinho suíço e desembarcou no contrato de cem famílias de 1818
Monnerat nasceu do moleiro no Jura suíço, entrou no contrato de cem famílias de 1818 e aparece nomeado na lista da colônia de Nova Friburgo.
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Do moinho do Jura à lista da colônia de 1819
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Em 16 de maio de 1818, um decreto assinado no Rio de Janeiro autorizou uma coisa que o Brasil nunca tinha tentado: contratar cem famílias europeias, católicas e lavradoras, para fundar uma colônia agrícola de povoamento na serra fluminense. O texto não pedia soldado, não pedia mão de obra cativa e não pedia comerciante. Pedia família inteira, com mulher, filhos e ferramenta.
O intermediário era um homem de Friburgo, na Suíça, que negociou com a corte portuguesa um contrato detalhado. Cada família receberia passagem, terra medida, casa, sementes, animais e ajuda de custo por dois anos. Em troca, se comprometia a permanecer, plantar e formar uma povoação nova num ponto do caminho entre a capital e as Minas.
O que era para ser cem famílias virou outra escala. A Suíça daqueles anos vinha de safras perdidas e de um inverno que congelou o verão, e a fila de candidatos passou de longe o número previsto. Entre 1819 e o início de 1820, cerca de duas mil pessoas saíram de cantões suíços rumo ao Brasil, a maioria delas do cantão de Friburgo.
O caminho foi longo antes mesmo do mar. Os grupos desceram de barca pelos rios até os Países Baixos, esperaram semanas em porto estrangeiro e só então embarcaram para o Rio. A travessia cobrou um preço alto, e nem metade do que saiu chegou inteira ao destino.
Quem desembarcou subiu a serra e ergueu, em janeiro de 1820, a povoação que recebeu o nome da cidade de origem: Nova Friburgo. Cada lote foi numerado, cada família foi anotada, e é aí que a história vira documento aproveitável para quem pesquisa hoje.
Porque um contrato de imigração não é um episódio romântico, é um processo administrativo. Processo administrativo gera lista, e lista nomeia gente uma por uma: chefe de família, esposa, filhos, idade, profissão declarada e a comuna suíça de origem.
Um dos sobrenomes que atravessa essa papelada de ponta a ponta é Monnerat, hoje espalhado por toda a região serrana do Rio e por boa parte do Espírito Santo. Antes de abrir a lista, vale saber o que a palavra significava lá onde ela nasceu, porque ela descreve um ofício muito concreto.
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I O Sobrenome do Dia
O moleiro do Jura que virou nome de família
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Monnerat é um sobrenome de ofício, do tipo mais antigo e mais transparente que existe na onomástica europeia. A raiz é o antigo francês monnier, ou meunier na forma moderna, que quer dizer moleiro, o homem que toca o moinho de água ou de vento e mói o grão da aldeia inteira.
A terminação em -at é a assinatura regional. Nos falares franco-provençais do Jura e das terras entre Berna, Friburgo e o Doubs, esse sufixo funcionava como diminutivo ou como marca de filiação, algo próximo de o pequeno moleiro ou o filho do moleiro.
Nomes de ofício viram sobrenomes hereditários por uma razão prática. Numa aldeia com três Jean, o registro precisava distinguir um do outro, e o jeito mais rápido era colar a função ao nome próprio: Jean o moleiro, Jean o ferreiro, Jean o carpinteiro.
O moinho, além disso, era posto de prestígio local. Quem moía o grão do senhorio ocupava um cargo, pagava foro, aparecia nos livros de terras e passava a concessão de pai para filho, o que fixa o nome numa mesma casa por gerações seguidas.
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O ofício vira sobrenome quando ele deixa de ser o que a pessoa faz e passa a ser o que a família é, e o moinho, por ser posto herdado, acelerou essa passagem em toda a Europa alpina.
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A grafia varia conforme a mão que escreveu. Monnerat, Monneraz, Monnerats e Monerat aparecem nos mesmos registros paroquiais do Jura e do planalto de Friburgo, às vezes na mesma década e às vezes referindo a mesma família.
No Brasil, a grafia se estabilizou cedo em Monnerat, com dois enes, e é assim que ela consta nos livros de batismo da serra fluminense do século 19 em diante. Quem procura documento suíço, porém, precisa buscar as quatro formas, sempre.
Vale separar duas coisas que costumam ser confundidas. Monnerat não é o mesmo que Monnier, embora as duas venham da mesma raiz, e também não tem parentesco com Monnet, que segue outra rota de formação. A distinção importa na hora de pedir cópia de registro na comuna suíça.
O que leva esse nome de moleiro para o outro lado do Atlântico não é a fome sozinha, nem a aventura. É um contrato assinado, com cláusulas, prazos e uma lista nominal anexa. E essa lista existe.
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II O Registro
A lista de cem famílias que virou papel de arquivo
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O contrato de 1818 fixou uma engenharia detalhada, e o detalhe é o que salva o pesquisador dois séculos depois. Cada família aceita passava por um crivo formal, e o crivo produzia papel.
O primeiro papel nasce ainda na Suíça. As autoridades cantonais exigiam certificado de origem, atestado de bons costumes e prova de que a família não deixava dívida atrás, e o rol de emigrantes registrava nome, idade, profissão e comuna de cada pessoa embarcada.
O segundo papel nasce no porto de saída. O grupo suíço foi conduzido por rio até os Países Baixos, e ali se formaram os rols de bordo por navio, com o chefe de família na primeira linha e os dependentes listados logo abaixo, com idade ao lado.
O terceiro papel nasce na chegada. A administração imperial precisava saber quem desembarcou, quem seguiu serra acima e quem ficou pelo caminho, e produziu relações de colonos, listas de distribuição de lotes e registros de socorro e mantimento.
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"A emigração fribourguesa de 1819 foi, antes de tudo, uma operação administrativa, e é como tal que ela deixou os seus arquivos." Martin Nicoulin, A Gênese de Nova Friburgo, 1973.
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O quarto papel é o mais decisivo para a genealogia: a distribuição das terras. Cada família recebeu um lote numerado numa localidade específica da serra, e o número do lote amarra o sobrenome a um pedaço de chão que ainda pode ser localizado no mapa.
Somados, esses documentos entregam uma ficha completa de família. Nome do chefe, nome da esposa, filhos em ordem de idade, profissão declarada, comuna suíça de origem, navio, data de chegada e o lote recebido na colônia.
A comuna de origem é a coluna mais valiosa de todas. Ela é a chave que abre o arquivo do outro lado do oceano, porque na Suíça o registro de estado civil e o direito de cidadania são organizados pela comuna de origem da família, não pelo lugar onde ela morava.
Há um efeito colateral do contrato que muda a leitura da lista. Como a exigência era de família católica e lavradora, muitos casais se formaram às pressas antes do embarque, e há uniões celebradas semanas antes da partida justamente para caber na cláusula.
Existe também o problema das grafias suíças escritas por escrivão brasileiro. O nome dito em francês e anotado em português produz variações que confundem qualquer busca automática, e a maneira de contornar é procurar pelo primeiro nome combinado com a idade e a comuna.
Uma advertência que economiza meses de trabalho. Nem todo colono anotado permaneceu em Nova Friburgo, e há famílias que subiram para o Espírito Santo, desceram para Cantagalo ou voltaram para a Europa, o que explica por que o mesmo sobrenome aparece em três estados sem contradição nenhuma.
Achar o nome na lista, portanto, é o começo do trabalho, não o fim. O passo seguinte é seguir o rastro dele nos papéis que vieram depois, e esses papéis têm endereço conhecido.
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