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A busca de uma família Mamani no Brasil sobe por camadas, e cada camada responde a uma pergunta que a anterior deixou aberta. A primeira camada é brasileira e está dentro de casa. A última é colonial e está em Sucre.
A primeira parada é a gaveta da própria família. Procure a carteira de estrangeiro, o protocolo da anistia de 2009, a carteira de trabalho antiga e a certidão de nascimento dos filhos nascidos aqui, porque a certidão brasileira do filho copia o nome dos pais estrangeiros exatamente como constava do documento apresentado no dia.
A segunda parada é o processo administrativo. Com o número de registro em mãos, peça vista do processo migratório ao órgão federal responsável, por requerimento escrito, e reúna as cópias entregues à época, que costumam incluir passaporte, certidão boliviana e comprovante de residência.
A terceira parada é o SERECI, em La Paz ou por intermédio do consulado boliviano em São Paulo. Peça a certidão de nascimento do imigrante com apostila, porque a Bolívia passou a integrar a convenção de apostilamento de Haia em 2018 e a certidão apostilada dispensa a legalização consular antiga.
A quarta parada é a paróquia do município de nascimento. Leve o nome dos pais e o ano aproximado, e leia o livro inteiro do período, porque o índice antigo alfabetizava pelo primeiro nome e porque a grafia do sobrenome oscila de página para página.
A quinta parada é o Archivo y Biblioteca Nacionales de Bolivia, em Sucre, onde os padrones e revisitas colocam a família dentro de um ayllu nomeado, com vizinhos e parentes na mesma folha.
Três armadilhas derrubam a maior parte das buscas nessa linha.
A primeira é confiar na grafia atual. Mamani aparece escrito Mamany, Mamane e Mamanni em documento brasileiro antigo, porque o funcionário escreveu de ouvido, e quem busca só uma forma perde as outras três.
A segunda é comprar brasão de família com tema andino. Sobrenome aimará não tem heráldica europeia, e a loja que vende escudo para Mamani está vendendo desenho inventado.
A terceira é procurar pelo sobrenome quando o certo é procurar pelo lugar. Com um nome tão repetido, o município e o ayllu separam famílias que o sobrenome sozinho embaralha.
Fechar a corrente exige três movimentos, nesta ordem.
Passo 1: junte os documentos brasileiros e copie o nome dos pais e o município boliviano exatamente como estão escritos, com erro e tudo, sem corrigir acento nem letra.
Passo 2: peça a certidão apostilada ao SERECI usando esse município e esse ano, e compare as duas grafias lado a lado antes de mandar traduzir.
Passo 3: com a certidão boliviana na mão, escreva à paróquia do município pedindo o batismo dos pais, que costuma ser a geração em que o livro ainda existe.
Hoje: abra a gaveta de documentos da família e fotografe três papéis, a carteira de estrangeiro, o protocolo de 2009 e a certidão de nascimento mais antiga que houver, e anote num caderno o município boliviano que aparecer em cada um. Amanhã você compara as três grafias e escolhe qual vai para o pedido no SERECI.
"O município de nascimento do seu antepassado está escrito em algum papel seu, ou só na memória de quem conta a história?"
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