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A busca por um Kim brasileiro tem uma vantagem rara: ela é curta. A imigração coreana começou em 1963, então entre o imigrante original e uma criança nascida hoje há três ou quatro gerações, todas ao alcance de documento vivo e de parente que ainda lembra.
A primeira parada é a casa da própria família. Pergunte pelo bon-gwan antes de qualquer outra coisa, procure o jokbo na estante do parente mais velho e fotografe todas as páginas, inclusive as colunas que ninguém sabe mais ler.
A segunda parada é o cartório brasileiro. Peça certidões de inteiro teor de nascimento e de casamento em São Paulo, especialmente nos distritos do Bom Retiro, do Brás e da Liberdade, e procure nas margens a anotação de naturalidade estrangeira e o número do registro de estrangeiro.
A terceira parada é o Arquivo Nacional e o Museu da Imigração, em São Paulo, que guardam listas de desembarque, cartões de identificação de estrangeiro e processos de naturalização. O nome do navio e a data de atracação em Santos são a chave de busca mais eficiente nesses acervos.
A quarta parada é coreana e depende das três anteriores. Com sobrenome, bon-gwan e nome do ancestral emigrado, a certidão de relações familiares pode ser pedida em consulado, e a associação do clã correspondente costuma manter arquivo próprio de linhagem.
Três armadilhas derrubam a maioria das buscas por esse sobrenome.
A primeira é a romanização instável. O mesmo som virou Kim, Gim, Kimm e até Kin em documentos diferentes, e o funcionário brasileiro copiava o que via no passaporte, então a variação de grafia dentro da mesma família é normal, não erro.
A segunda é a homonímia perfeita. Um Kim encontrado num arquivo coreano não é parente sem a coincidência de bon-gwan, de geração e de nome de ancestral, e insistir num homônimo sem elas produz árvore falsa.
A terceira é o nome de uso. Muitos imigrantes adotaram nome próprio ocidental na vida comercial e mantiveram o coreano no documento, de modo que o Paulo da loja e o registro de nascimento podem parecer duas pessoas até a certidão provar que são a mesma.
Fechar a corrente exige três movimentos, nesta ordem.
Passo 1: anote o bon-gwan da boca do parente mais velho, com a grafia coreana se possível. Sem ele, nenhum arquivo da Coreia devolve resultado utilizável.
Passo 2: ancore a chegada no papel brasileiro. Ache o registro de estrangeiro ou a lista de desembarque com nome, data e navio, porque é esse conjunto que amarra a pessoa ao ano de entrada.
Passo 3: cruze o nome do ancestral emigrado com o jokbo do clã e com a certidão coreana. A prova de descendência é a coincidência de bon-gwan mais pelo menos dois nomes da mesma casa.
O sobrenome que hoje aparece numa identidade de São Paulo nomeou primeiro a nobreza de um reino coreano, virou escolha de milhões de famílias recém-libertadas no fim do século 19 e atravessou dois oceanos num navio holandês. A prova está numa coluna de livro de linhagem, com a cidade de origem no topo.
"Qual é o bon-gwan que a sua família ainda repete em voz alta?"
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