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ED 019

Kim é um em cada cinco coreanos, e o bon-gwan separa cada um

Kim cobre um quinto da Coreia, o bon-gwan diz de qual clã cada família saiu e o navio Tjisadane trouxe os primeiros a Santos em 1963.

Livro de linhagem coreano aberto sobre madeira escura, com carimbo de pedra ao lado.

Do jokbo coreano ao porto de Santos

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Em 12 de fevereiro de 1963, o navio holandês Tjisadane atracou no porto de Santos com um grupo de coreanos a bordo, depois de quase dois meses de travessia. Era o primeiro contingente da imigração oficial da Coreia do Sul para o Brasil, autorizado por acordo entre os dois governos.

A Coreia tinha saído havia dez anos de uma guerra que matou centenas de milhares de civis, dividiu a península em duas e deixou Seul em escombros. Sair do país era uma decisão de sobrevivência, e o Brasil aparecia nos jornais de lá como terra de lote agrícola barato e clima generoso.

O plano no papel era rural. Os recém-chegados deveriam ocupar glebas no interior de São Paulo, do Paraná e de Minas Gerais e virar colonos, como o governo brasileiro vinha organizando com outros grupos estrangeiros havia um século.

Quase nenhum ficou na roça. A terra prometida costumava estar longe de estrada, sem casa e sem crédito, e em poucos meses as famílias desceram para a capital. O Bom Retiro e o Brás receberam a maior parte delas.

Ali a comunidade construiu sua marca econômica: a cadeia de confecção de roupa, do corte à loja de rua, tocada em regime familiar. Em duas gerações, a colônia coreana no Brasil passou de dezenas de famílias a dezenas de milhares de pessoas.

O cartório brasileiro recebeu esses nomes já romanizados no passaporte emitido em Seul. Kim, Lee, Park, Choi e Han entraram no registro civil com a grafia inglesa intacta, sem a tradução fonética que deformou tanto sobrenome italiano e árabe no mesmo país.

O primeiro deles é o mais comum de todos, e também o mais enganoso. Dois Kim que se encontram numa rua do Bom Retiro têm chance altíssima de não ter parentesco nenhum, e a diferença entre eles não está no sobrenome escrito na identidade.

Ela está numa segunda informação, que não aparece no documento brasileiro e que qualquer família coreana sabe de cor. Antes de chegar a ela, porém, vale entender o que a palavra significa e por que uma sílaba só cobre um quinto de um país inteiro.

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I  O Sobrenome do Dia

A sílaba que cobre um quinto da Coreia

Kim é a leitura coreana do caractere chinês 金, que significa ouro ou metal. O mesmo sinal é lido jin em mandarim e kin em japonês, e chegou à península junto com a escrita chinesa, adotada pela elite coreana muito antes de existir alfabeto próprio.

A romanização oficial da Coreia do Sul, revisada em 2000, transcreve o som como Gim. O passaporte, porém, continua emitindo Kim para a quase totalidade dos portadores, porque a grafia com K se firmou nos documentos internacionais desde o começo do século 20 e ninguém quis trocar de nome no meio da vida.

Por isso o sobrenome existe em três peles ao mesmo tempo: Kim no registro civil, 김 no alfabeto coreano, 金 no livro de linhagem antigo. As três designam a mesma família, e a busca que ignora duas delas para no primeiro arquivo.

O peso do nome na população coreana é o dado que assusta quem chega de fora:

Participação de Kim no total da população sul-coreana: cerca de 21%.

Portadores contados no censo demográfico de 2015: pouco mais de 10,6 milhões.

Posição no ranking de sobrenomes do país: primeiro, à frente de Lee e de Park.

Somados, os três primeiros sobrenomes cobrem quase metade da Coreia do Sul.

Um sobrenome carregado por um quinto da população não identifica ninguém. Ele apenas confirma que a pessoa é coreana, e a identificação real começa depois dele.

A concentração tem explicação histórica. Sobrenome, na Coreia antiga, era privilégio de aristocracia: a maior parte da população, camponesa e sem terra, simplesmente não tinha um. As dinastias Silla e Goryeo distribuíram nomes de prestígio a linhagens nobres, e Kim estava entre os mais altos.

O bloqueio caiu no fim do período Joseon, com a decadência do sistema de castas e a abolição formal da escravidão em 1894. Ao registrar nome próprio pela primeira vez, milhões de famílias sem sobrenome adotaram os de maior prestígio disponível, e Kim liderou a escolha.

O registro geral de população conduzido pela administração japonesa a partir de 1909 congelou esse retrato. O que era escolha recente virou linha impressa em livro oficial, e o percentual de hoje é herança de uma decisão tomada em pouco mais de uma geração.

A conclusão prática para quem procura antepassado é direta. O sobrenome sozinho não abre nenhuma porta na Coreia, e a chave verdadeira é a segunda coordenada, aquela que toda família guarda e que o documento brasileiro nunca anotou.

 
 

II  O Registro

O clã que o livro de linhagem guarda

Essa segunda coordenada se chama bon-gwan. É o lugar de origem do clã, a cidade ou o distrito de onde a linhagem se declara descendente, e ela vem sempre colada ao sobrenome na apresentação formal: não se diz apenas Kim, diz-se Kim de Gimhae ou Kim de Gyeongju.

O bon-gwan não indica onde a pessoa nasceu nem onde mora. Ele aponta o ponto de partida do ramo, fixado por um ancestral fundador que pode estar a mil anos de distância, e não muda quando a família troca de província ou de país.

Os dois maiores clãs Kim têm fundadores separados por séculos. O Kim de Gimhae remete a Suro, rei lendário de Geumgwan Gaya no século 1, e é o clã mais numeroso da Coreia. O Kim de Gyeongju remete a Kim Alji, ancestral da casa real de Silla, e domina outra fatia enorme do mesmo sobrenome.

Existem dezenas de outros bon-gwan de Kim, ligados a cidades como Andong, Gwangsan, Uiseong e Yeonan. Duas famílias Kim com bon-gwan diferente não são parentes distantes: são famílias sem vínculo de sangue documentado entre si.

O documento que registra tudo isso é o jokbo, o livro de linhagem do clã. Ele lista as gerações em colunas, do fundador para baixo, e traz nome, geração, casamento e sepultura de cada homem da linha principal, atualizado de tempos em tempos pela associação de parentes.

"A imigração coreana no Brasil começou com famílias que trouxeram na bagagem o livro de linhagem, o retrato dos pais e pouco mais." Choi Keum Joa, Vida e Sonho: Meio Século da Imigração Coreana no Brasil, 1991.

O jokbo é o melhor mapa disponível e, ao mesmo tempo, uma fonte que exige o mesmo cuidado de uma nobiliarquia portuguesa. As gerações recentes são confiáveis e verificáveis; as ligações com o fundador lendário, no topo da coluna, são construção de prestígio, não prova documental.

O peso do bon-gwan já foi jurídico, e não apenas simbólico. Até o fim do século 20, a lei sul-coreana proibia casamento entre pessoas de mesmo sobrenome e mesmo bon-gwan, tratando os dois nomes juntos como prova de parentesco.

A regra atingia dezenas de milhares de casais, sobretudo entre os Kim de Gimhae. A Corte Constitucional declarou a proibição incompatível com a Constituição em 1997, e a reforma do código civil que a retirou de vez entrou em vigor em 2005.

O sistema de registro também mudou. O hojeok, o velho registro familiar chefiado pelo homem mais velho da casa, foi extinto em 2008 e substituído por um cadastro individual de relações familiares, o que alterou a forma de pedir certidão na Coreia.

Para uma família Kim do Brasil, a consequência é útil. O bon-gwan é a informação que faltou no documento brasileiro e a que reabre a busca do outro lado do mundo, e ela costuma estar na memória de um avô, não num arquivo público daqui.

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III  A Rota

Do Bom Retiro ao arquivo de Gimhae

A busca por um Kim brasileiro tem uma vantagem rara: ela é curta. A imigração coreana começou em 1963, então entre o imigrante original e uma criança nascida hoje há três ou quatro gerações, todas ao alcance de documento vivo e de parente que ainda lembra.

A primeira parada é a casa da própria família. Pergunte pelo bon-gwan antes de qualquer outra coisa, procure o jokbo na estante do parente mais velho e fotografe todas as páginas, inclusive as colunas que ninguém sabe mais ler.

A segunda parada é o cartório brasileiro. Peça certidões de inteiro teor de nascimento e de casamento em São Paulo, especialmente nos distritos do Bom Retiro, do Brás e da Liberdade, e procure nas margens a anotação de naturalidade estrangeira e o número do registro de estrangeiro.

A terceira parada é o Arquivo Nacional e o Museu da Imigração, em São Paulo, que guardam listas de desembarque, cartões de identificação de estrangeiro e processos de naturalização. O nome do navio e a data de atracação em Santos são a chave de busca mais eficiente nesses acervos.

A quarta parada é coreana e depende das três anteriores. Com sobrenome, bon-gwan e nome do ancestral emigrado, a certidão de relações familiares pode ser pedida em consulado, e a associação do clã correspondente costuma manter arquivo próprio de linhagem.

Três armadilhas derrubam a maioria das buscas por esse sobrenome.

A primeira é a romanização instável. O mesmo som virou Kim, Gim, Kimm e até Kin em documentos diferentes, e o funcionário brasileiro copiava o que via no passaporte, então a variação de grafia dentro da mesma família é normal, não erro.

A segunda é a homonímia perfeita. Um Kim encontrado num arquivo coreano não é parente sem a coincidência de bon-gwan, de geração e de nome de ancestral, e insistir num homônimo sem elas produz árvore falsa.

A terceira é o nome de uso. Muitos imigrantes adotaram nome próprio ocidental na vida comercial e mantiveram o coreano no documento, de modo que o Paulo da loja e o registro de nascimento podem parecer duas pessoas até a certidão provar que são a mesma.

Fechar a corrente exige três movimentos, nesta ordem.

Passo 1: anote o bon-gwan da boca do parente mais velho, com a grafia coreana se possível. Sem ele, nenhum arquivo da Coreia devolve resultado utilizável.

Passo 2: ancore a chegada no papel brasileiro. Ache o registro de estrangeiro ou a lista de desembarque com nome, data e navio, porque é esse conjunto que amarra a pessoa ao ano de entrada.

Passo 3: cruze o nome do ancestral emigrado com o jokbo do clã e com a certidão coreana. A prova de descendência é a coincidência de bon-gwan mais pelo menos dois nomes da mesma casa.

O sobrenome que hoje aparece numa identidade de São Paulo nomeou primeiro a nobreza de um reino coreano, virou escolha de milhões de famílias recém-libertadas no fim do século 19 e atravessou dois oceanos num navio holandês. A prova está numa coluna de livro de linhagem, com a cidade de origem no topo.

"Qual é o bon-gwan que a sua família ainda repete em voz alta?"

 
 
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B1 de outubro de 1909
C12 de fevereiro de 1963
D15 de agosto de 1945

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