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Raiz do Sobrenome   Raiz do Sobrenome
ED 039
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Kazlauskas chegou a Vila Zelina escrito de três jeitos, e o índice do arquivo separou a família em três gavetas

O sobrenome lituano muda de terminação conforme o portador seja homem, esposa ou filha solteira, e a lista de embarque copiou as três formas.

Livro de matrícula de hospedaria aberto sobre madeira escura, ao lado de uma cruz lituana de ferro.

Do livro de bordo ao assento da paróquia

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A cópia digitalizada do livro de matrícula da Hospedaria de Imigrantes do Brás sai por R$ 0 no portal do Arquivo Público do Estado de São Paulo, e a certidão de casamento de inteiro teor do mesmo imigrante, pedida a um cartório da capital paulista, sai por cerca de R$ 120 na tabela de emolumentos do Tribunal de Justiça de São Paulo em vigor em 2026.

A distância entre os dois preços tem explicação simples. Os R$ 120 compram fé pública, o papel que consulado e processo de cidadania exigem. Os zero reais compram matéria-prima de pesquisa: o nome como o escrevente ouviu no desembarque, a idade declarada, a aldeia de procedência, o navio e o grupo familiar inteiro numa linha só.

Kazlauskas figura entre os sobrenomes mais repetidos da Lituânia, e a família que chegou a São Paulo entre 1926 e 1930 desembarcou no pico: foi nesses cinco anos que a maior leva lituana entrou no Brasil, atraída pelo fechamento das portas norte-americanas em 1924 e pelo contrato de lavoura no interior paulista.

Muitos ficaram poucos meses na fazenda de café e voltaram à capital. O bairro que os recebeu foi Vila Zelina, na zona leste, onde nasceram a igreja, o clube e o jornal em lituano.

O enigma aparece quando o neto pede a lista de embarque e não acha ninguém. O sobrenome lituano tem gênero e estado civil embutidos na terminação: o homem assina de um jeito, a esposa dele assina de outro, e a filha solteira assina de um terceiro. O escrivão do porto copiou as três formas como três sobrenomes diferentes.

O índice do acervo fez o resto do estrago. Cada terminação caiu numa gaveta alfabética própria, e a família que embarcou junta aparece hoje em três pontos distantes da mesma lista. Some a isso o guichê brasileiro, que apagou os sinais diacríticos do alfabeto lituano, e a busca por uma grafia só devolve tela vazia.

Quem entende como a terminação lituana funciona, e o que o papel brasileiro fez com ela, encontra em três tardes o registro que não apareceu em três anos.

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I  O Sobrenome do Dia

Kazlauskas: o bode polonês que virou sobrenome lituano

Kazlauskas nasceu de empréstimo. A raiz vem do polonês Kozłowski, formado sobre kozioł (bode), apelido de quem pastoreava o animal, e chegou às terras lituanas pela via da nobreza e do clero de língua polonesa, no período da união entre os dois estados.

A língua local adaptou a peça ao próprio molde. O sufixo polonês de posse, escrito owski, virou auskas na boca lituana, e o mesmo mecanismo gerou Jankauskas, Petrauskas e a família inteira de sobrenomes terminados naquela sílaba.

O ponto que muda a pesquisa vem da gramática, e não da etimologia. O lituano flexiona o sobrenome por gênero e por estado civil da mulher, e cada forma é um nome civil válido, escrito assim no passaporte e no registro paroquial.

A forma masculina é Kazlauskas, usada pelo homem em qualquer idade. A forma da esposa é Kazlauskienė, montada com o sufixo ienė, que marca mulher casada com um Kazlauskas. A forma da filha solteira é Kazlauskaitė, montada com o sufixo aitė, que marca filha de um Kazlauskas.

KAZLAUSKAS, KAZLAUSKIENĖ, KAZLAUSKAITĖ: TRÊS NOMES CIVIS PARA UMA CASA SÓ

Um casal com uma filha solteira embarcou, portanto, com três sobrenomes em três passaportes. Nenhum deles está errado, e nenhum se repete.

O escrivão brasileiro copiou o que leu. Pai, mãe e filha entraram no livro de bordo em linhas vizinhas e no índice em letras distantes, porque a busca alfabética lê a palavra inteira, e Kazlauskaitė some do lugar onde Kazlauskas aparece.

Sobre essa camada veio a perda dos sinais do alfabeto lituano. O ė de Kazlauskienė virou e simples, e Kazlauskas aparece nos papéis daqui como Kaslauskas, Kazlausca e Caslauskas.

Existe ainda uma camada anterior, feita fora do Brasil. A Lituânia pertenceu ao Império Russo até 1918, e o documento oficial daquele período foi escrito em russo, em alfabeto cirílico, com a forma eslava do nome. Kazlauskas aparece nesses papéis como Kozlovski ou Kozlov, e a versão polonesa Kozłowski segue viva no livro paroquial da mesma paróquia.

A regra prática cabe numa folha. Escreva as três terminações lituanas, some as duas variantes eslavas e as grafias que o ouvido brasileiro produziu, e leve a lista inteira ao índice: cada linha dela pode conter uma pessoa da mesma casa.

 
 

II  O Registro

Três acervos, três perguntas, um sinal que o cartório apagou

A busca corre em três acervos paralelos, e cada um responde uma pergunta própria. Quem mistura as perguntas gira em falso por meses.

O primeiro acervo é paulista e o mais produtivo no começo. O livro de matrícula da Hospedaria de Imigrantes do Brás, guardado pelo Arquivo Público do Estado de São Paulo, registra o grupo familiar completo na entrada, com nome, idade, nacionalidade, profissão, navio, porto de embarque e destino contratado no interior.

Ao lado dele correm a lista de bordo, o processo de naturalização e a ficha de registro de estrangeiro, guardada no Arquivo Nacional, que traz fotografia, filiação e assinatura da própria pessoa.

""O nome de uma pessoa é, para ela, o som mais doce e mais importante em qualquer idioma." Dale Carnegie, Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, 1936."

O livro da Hospedaria do Brás mostra a casa inteira numa linha só, e a certidão de cartório mostra uma pessoa por vez.

O segundo acervo é lituano. O Lietuvos valstybės istorijos archyvas (Arquivo Histórico do Estado da Lituânia), em Vilnius, guarda os metrikų knygos (livros de registro paroquial) de batismo, casamento e óbito das paróquias católicas, muitos deles digitalizados e abertos no portal público de patrimônio documental do país.

Esses livros foram escritos em polonês até a metade do século XIX, em russo no período czarista e em lituano depois de 1918, e o mesmo antepassado aparece com três versões do nome conforme a década do assento.

O terceiro acervo é o da colônia aqui, e costuma resolver o que os outros dois deixaram em aberto. A paróquia São José de Vila Zelina manteve livro de batismo e de casamento em lituano, a Sąjunga (aliança) de socorro mútuo guardou ficha de sócio com aldeia de origem, e o jornal comunitário publicado em São Paulo trazia nota de chegada e de aniversário com o nome escrito com os sinais certos.

A leitura desse conjunto pede quatro cuidados, nenhum dispensável.

O primeiro cuidado é a terminação. Procurar apenas Kazlauskas deixa de fora a mãe e a irmã do antepassado, e são elas que costumam carregar a aldeia de origem escrita por extenso.

O segundo cuidado é o porto. Klaipėda, Hamburgo e Bremen aparecem como procedência nos papéis de embarque e funcionam como escala, não como berço: a aldeia de nascimento aparece no registro de estrangeiro e no livro paroquial lituano.

O terceiro cuidado é a idade declarada. O imigrante informou a idade de cabeça, sem documento na mão, e a diferença de dois ou três anos entre o livro da Hospedaria e o assento de batismo lituano é comum, esperada e não invalida a identificação.

O quarto cuidado é a honestidade sobre o que se perdeu. Parte dos livros paroquiais lituanos foi destruída nas duas guerras mundiais, e sem o livro da aldeia a linhagem para naquele ponto: o registro civil soviético, aberto depois de 1940, não reconstrói o assento católico anterior, e nenhum acervo brasileiro supre a falta.

 

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III  A Rota

Quatro paradas entre o cartório paulista e a paróquia em Marijampolė

A rota dessa família tem quatro trechos, e cada trecho deixou um tipo de papel para trás. A vida na Lituânia deixou assento paroquial. A saída deixou passaporte e registro de embarque no porto do Báltico. A chegada deixou lista de bordo, livro de matrícula da Hospedaria e ficha de estrangeiro. A permanência deixou cartório, livro de paróquia em Vila Zelina e lápide com sobrenome já aportuguesado.

A pesquisa monta em quatro paradas, e começa dentro do Brasil.

A primeira parada é a certidão brasileira de inteiro teor mais antiga que a família alcançar, de preferência o casamento do imigrante. Ela declara filiação e naturalidade, e o nome da mãe vem na forma feminina lituana, com a terminação que o escrevente copiou do papel original.

A segunda parada é o livro de matrícula da Hospedaria do Brás. Com sobrenome e ano aproximado, a consulta devolve a linha do grupo familiar inteiro, com navio, porto e fazenda de destino.

A terceira parada é a ficha de registro de estrangeiro no Arquivo Nacional. Peça a imagem completa, porque a aldeia de nascimento e a assinatura da própria pessoa aparecem no corpo do documento, com os sinais que o cartório apagou.

A quarta parada é o lado lituano. Com a aldeia e a paróquia na mão, o pedido vai ao Arquivo Histórico do Estado da Lituânia ou ao acervo digitalizado de patrimônio documental, à procura do assento de batismo na década certa e na língua daquela década.

Três armadilhas derrubam a maior parte das buscas nessa linha.

A primeira armadilha é tratar Kazlauskienė como outro sobrenome. Quem lê a certidão e conclui que a bisavó pertencia a outra família perde o vínculo justamente onde ele estava explícito, porque aquela terminação declara casamento com um Kazlauskas.

A segunda armadilha é procurar uma grafia só no índice. Kazlauskas, Kazlauskaitė e Kozlovski caem em gavetas alfabéticas distantes do mesmo acervo, e quem digita uma forma não vê as outras duas na tela.

A terceira armadilha é supor parentesco por sobrenome repetido. Kazlauskas é comum demais para provar relação: o que prova é a combinação de paróquia, aldeia e nome dos pais no assento de batismo, e dois Kazlauskas sem esses três elementos em comum não são parentes.

Fechar a corrente exige três movimentos, nesta ordem.

Passo 1: suba pelas certidões brasileiras até o documento mais antigo que declare naturalidade lituana, e copie o nome da mãe do imigrante com a terminação exatamente como o escrevente escreveu.

Passo 2: leve as seis grafias ao livro de matrícula da Hospedaria do Brás e ao Arquivo Nacional, e peça a imagem completa da ficha de registro de estrangeiro, com aldeia, porto e assinatura.

Passo 3: com a aldeia e a paróquia lidas na ficha, abra o livro paroquial correspondente no acervo lituano, na década do nascimento, e confira o nome dos pais antes de aceitar o assento como seu.

Hoje: escreva as seis grafias do seu sobrenome numa folha, Kazlauskas, Kazlauskienė, Kazlauskaitė, Kozlovski, Kozłowski e a forma aportuguesada que está no seu RG, e rode as seis no índice da Hospedaria do Brás, anotando quantos resultados cada uma devolveu. Amanhã você separa as certidões que já tem em casa.

"Qual terminação lituana está escrita no nome da sua bisavó, no papel mais antigo da sua família?"

 
 

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No sistema lituano de sobrenomes descrito na edição, qual forma do nome pertence à filha solteira de um homem chamado Kazlauskas?

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