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Kalaitzoglou guarda a aldeia turca da família grega

O final oglou marca os cristãos da Ásia Menor trocados em 1923, e a pista da aldeia mora em Istambul.

Tacho de cobre estanhado ao lado de um caderno otomano aberto.

Tacho de cobre estanhado e caderno otomano

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Numa certidão de casamento grega, o noivo assina Georgios Kalaitzoglou, filho de pais nascidos perto de Kayseri, no centro da Turquia. O nome de batismo é grego, a igreja do casamento é ortodoxa grega, e o sobrenome termina num pedaço de língua turca.

O neto que acha esse papel numa gaveta costuma procurar a família na Grécia. Escreve ao consulado, busca nos registros de Atenas e de Salônica, e encontra pouco sobre a aldeia de origem.

A pista estava no final do nome. Oglou é a forma grega de oğlu, a palavra turca para filho de. Um grego do continente quase nunca carrega esse final; quem carrega, em geral, descende de cristãos ortodoxos da Ásia Menor (a península da Anatólia, hoje território turco).

Essas famílias viveram por séculos em cidades e aldeias do Império Otomano. Muitas falavam turco em casa, rezavam em grego na igreja e escreviam o turco com letras gregas.

Em 30 de janeiro de 1923, Grécia e Turquia assinaram em Lausanne, na Suíça, a convenção da troca de populações. Os cristãos ortodoxos da Anatólia foram mandados para a Grécia, os muçulmanos da Grécia foram mandados para a Turquia, e a religião, nunca a língua, decidiu quem partia.

A família Kalaitzoglou embarcou como grega e desembarcou na Grécia falando turco. A aldeia ficou para trás, com a igreja, o cemitério e os livros de registro do lugar.

Na Grécia, os vizinhos novos estranharam o sotaque e o nome. Para eles, a família era refugiada; para a aldeia que ela deixou, tinha sido a dos cristãos.

Por esse motivo, o caminho até o bisavô passa por arquivo turco. Os registros de população do Império Otomano estão guardados na Turquia, em escrita otomana, e o nome da aldeia muitas vezes mudou depois da troca.

A primeira seção abre o sobrenome Kalaitzoglou em três pedaços e mostra o ofício escondido em cada um.

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I  O Sobrenome do Dia

Kalaitzoglou, o filho do estanhador

Kalaitzoglou se lê em três partes: kalai, tzi e oglou. Kalai vem do turco kalay (estanho); tzi é a grafia grega do sufixo turco -ci, que forma nome de ofício; oglou é oğlu, filho de. O nome inteiro quer dizer filho do estanhador.

O estanhador, kalaycı em turco, cobria por dentro panelas e tachos de cobre com uma camada fina de estanho, para a comida não pegar gosto de metal nem azinhavre (a crosta verde do cobre oxidado). Era ofício de rua e de feira em toda a Anatólia.

O mesmo molde gera dezenas de sobrenomes. Demirtzoglou vem de demirci (ferreiro); Kazantzoglou, de kazancı (quem fabrica caldeirão); Terzoglou, de terzi (alfaiate).

Outros pegam apelido ou lugar. Karaoglou vem de kara (preto, escuro), quase sempre o apelido de um avô moreno. Kayserlioglou junta Kayserli (quem nasceu em Kayseri) ao mesmo oglou.

OGLOU QUER DIZER FILHO DE

No Império Otomano, a maior parte dos súditos não tinha sobrenome fixo. A pessoa era Georgios, filho de Ioannis, ou Georgios, o estanhador. O apelido do pai ou do ofício grudava na família e passava ao neto.

A Turquia só tornou o sobrenome obrigatório com a Lei do Sobrenome de 21 de junho de 1934. Nessa data, os ortodoxos da Anatólia já tinham saído; o nome deles se fixou antes, no costume da aldeia e nos papéis da Grécia.

Na Grécia, o funcionário que registrou o refugiado escreveu o nome com letras gregas: Καλαϊτζόγλου. Ao passar para o alfabeto latino, a mesma palavra saiu Kalaitzoglou, Kalaidjoglou ou Kalaitzoglu, conforme o ouvido de quem copiou.

Muitas famílias, já instaladas na Grécia, cortaram o final turco e puseram um grego no lugar. Kalaitzoglou podia virar Kalaitzidis, com o sufixo grego -idis, que também quer dizer filho de. O sentido ficou; a língua mudou.

Para a pesquisa, o final turco funciona como carimbo de origem. Ele não diz a aldeia, mas aponta a região: Capadócia, Ponto (a costa turca do mar Negro), Constantinopla ou a costa do Egeu.

Quando o sobrenome guarda um ofício, a busca ganha um detalhe a mais. O caderno otomano anotava a profissão do chefe da casa, e um estanhador numa aldeia pequena ajuda a separar duas famílias de nome parecido.

 
 

II  O Registro

Os papéis do refugiado e da aldeia

Na Grécia, o refugiado da Ásia Menor ganhou papel próprio. A Comissão de Reassentamento dos Refugiados, criada em 1923 com apoio da Liga das Nações, distribuiu terra e casa às famílias e anotou de onde cada uma vinha.

Os municípios gregos abriram para cada família uma ficha no dimotologio (o livro de registro de moradores do município). Ali o local de nascimento do chefe aparece com o nome da aldeia na Anatólia, escrito em grego.

A ALDEIA DO REGISTRO GREGO TEM OUTRO NOME HOJE

O nome grego da aldeia raramente bate com o nome turco atual. Os gregos chamavam Kayseri de Kaisareia; a aldeia de Sinasos virou Mustafapaşa, e Gelveri virou Güzelyurt, as duas na Capadócia.

Na Turquia, os registros de população otomanos, os nüfus defterleri (cadernos de população), estão no Arquivo de Estado da Presidência da Turquia, em Istambul. Eles listam os moradores por domicílio, com nome, pai, idade e ofício, e separam os súditos por comunidade religiosa.

Os cadernos estão em turco otomano, escrito com alfabeto árabe. A leitura pede um paleógrafo (especialista em escrita antiga) ou um pesquisador turco treinado nessa escrita, porque o nome grego aparece adaptado ao som turco.

Em Atenas, o Centro de Estudos da Ásia Menor, fundado em 1930 pela pesquisadora Melpo Merlier, recolheu depoimentos de refugiados sobre as aldeias de origem. Os relatos descrevem a igreja, as famílias, os ofícios e o caminho da saída, e o arquivo se organiza por localidade.

Parte desse acervo virou livro. O próprio centro publicou volumes sobre a Capadócia e outras regiões, com mapas das aldeias, listas de igrejas e trechos de depoimentos, consultáveis na biblioteca em Atenas.

Os papéis têm limites claros. Muitos livros de batismo ficaram nas igrejas das aldeias e se perderam depois de 1923; outros foram levados pelos padres e hoje estão em paróquias de refugiados na Grécia. Onde nenhum livro sobreviveu, a aldeia só volta pelo depoimento ou pela memória da família, e em parte dos casos ela não volta: o nome fica sem lugar.

No Brasil, o imigrante grego da Ásia Menor desembarcou em geral em Santos ou no Rio de Janeiro. A lista de bordo registra a nacionalidade grega e o último porto, confirma a família e quase nunca traz a aldeia.

A certidão brasileira ajuda por outro caminho. No casamento e no óbito, o escrivão anotava a naturalidade, e às vezes escreveu a cidade da Anatólia, deformada, onde o leitor esperava ler Grécia.

 

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III  A Rota

Da certidão grega à aldeia na Anatólia

A rota parte de três dados: o sobrenome em todas as grafias, o nome de batismo do bisavô e qualquer nome de lugar que a família guardou. Com eles, a busca começa na Grécia e termina na Turquia.

• Passo 1: escreva o sobrenome em todas as grafias: oglou, oglu, oğlu e a forma grega em -idis, se a família trocou.

• Passo 2: procure a certidão grega do bisavô (casamento, nascimento de filho ou ficha no dimotologio) e copie o lugar de nascimento como está escrito.

• Passo 3: confira o nome da aldeia no Index Anatolicus, o mapa on-line do pesquisador Sevan Nişanyan, que liga o nome antigo ao nome turco de hoje.

• Passo 4: peça ao Centro de Estudos da Ásia Menor, em Atenas, os depoimentos sobre aquela aldeia.

• Passo 5: com o nome turco da aldeia, solicite ao Arquivo de Estado da Presidência, em Istambul, os cadernos de população do distrito.

No passo 1, inclua a grafia com dj (Kalaidjoglou), comum em papel francês e em listas de navio. Uma letra trocada basta para um registro certo sumir da busca.

No passo 2, o dimotologio fica no município onde a família se instalou na Grécia. O pedido pode ser feito pelo consulado grego em São Paulo ou por um procurador na cidade.

No passo 3, digite a forma grega e a turca do nome. O mapa mostra a aldeia, o distrito e o nome que ela usa hoje, e em muitos casos registra que os moradores cristãos saíram em 1923.

No passo 4, informe o sobrenome e a aldeia. O depoimento de um vizinho pode citar a família pelo ofício, e o estanhador da aldeia raramente era mais de um.

No passo 5, o pedido sai melhor com ajuda de um pesquisador na Turquia. O caderno lista o pai, o ofício e a idade do chefe, e a idade permite calcular o ano de nascimento.

Com o ano em mãos, volte à certidão grega e compare. Se o pai, o ofício e a idade batem, a aldeia do caderno é a aldeia da família, e o nome turco dela passa a valer em toda busca seguinte.

Se nenhum arquivo devolver a aldeia, o sobrenome ainda entrega o ofício e a região: o filho do estanhador vinha de um lugar com cobre, feira e igreja ortodoxa.

“Na sua família, qual sobrenome guarda um ofício escondido em outra língua?”

Hoje, até as 22h: escreva o sobrenome da família em 3 grafias, com e sem o final turco, e faça 1 busca com cada uma no FamilySearch.

 
 
Quiz da edição

Segundo a edição, qual foi o critério que decidiu, na troca de populações de 1923, quem deixava a Grécia e quem deixava a Turquia?

AA língua falada em casa pela família
BA religião de cada família
CO local de nascimento registrado no dimotologio
DO ofício anotado no caderno otomano

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