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ED 025

Higa é o sobrenome mais comum de um reino que deixou de existir em 1879

Higa nasceu nas aldeias de Okinawa, não no Japão continental, e chegou a Santos em 1908 com um terço dos passageiros do Kasato Maru.

Registro familiar japones aberto sobre mesa escura, com carimbo hanko e mapa de Ryukyu ao lado.

De Ryukyu ao balcão de Naha

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No dia 18 de junho de 1908 o navio Kasato Maru encostou no porto de Santos com 781 imigrantes contratados para as fazendas de café do interior paulista. Esse número virou marco fundador da imigração japonesa no Brasil e aparece em placa, em livro escolar e em nome de rua. O que quase nunca acompanha o número é a origem daquela gente.

Dos 781, cerca de 325 tinham embarcado em Okinawa. Quase um terço do primeiro contingente japonês do Brasil não vinha do Japão que o Brasil imaginava estar recebendo, e sim de um arquipélago a mais de mil e quinhentos quilômetros de Tóquio, incorporado à administração japonesa havia menos de trinta anos.

Até 1879 aquelas ilhas formavam um reino próprio. Ryukyu tinha corte em Shuri, tributo pago à China por séculos, comércio marítimo com Sudeste Asiático e Coreia, língua própria e um sistema de nomes que não seguia a regra do arquipélago principal. Naquele ano o governo Meiji dissolveu o reino por decreto, depôs o último rei e transformou o território na província de Okinawa.

A província nascia como a mais pobre do país, com terra vulcânica escassa, tufões anuais e imposto pesado. Foi de lá que saiu, proporcionalmente, a maior corrente emigratória do Japão inteiro: primeiro para o Havaí a partir de 1899, depois para as Filipinas, o Peru e o Brasil.

Para quem hoje tenta reconstruir uma família com um desses sobrenomes, essa história tem consequência prática e imediata. O documento que prova a linha não está nos arquivos de Tóquio, está em Naha. Não foi escrito com o mesmo critério do resto do Japão. E, no caso de Okinawa, uma parte enorme dele foi refeita do zero depois de 1945.

Antes de procurar o papel, porém, é preciso entender o que a palavra escrita nele significava na ilha onde nasceu.

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I  O Sobrenome do Dia

Hija na boca, Higa no papel

Higa é o sobrenome mais frequente de Okinawa e ocupa lugar modesto nas listas do Japão continental. Essa assimetria não é curiosidade estatística, é a impressão digital de um sistema de nomes que se formou separado do japonês por séculos.

Os sobrenomes de Okinawa são, em maioria esmagadora, topônimos. Vêm do nome do lugar de onde a família saiu ou onde exercia função, e Higa é um deles: existe como nome de localidade no leste da ilha principal, na região de Katsuren, hoje dentro do município de Uruma.

A pronúncia é o primeiro tropeço de quem pesquisa. Em uchinaguchi, a língua de Okinawa, a palavra soava mais perto de Fija ou Hija, com a consoante inicial que o japonês padrão não tem. O escrivão do arquipélago principal ouviu e escreveu à maneira dele, e a família saiu de casa com um nome e desembarcou com outro.

Higa, Hija, Fija e Hega são a mesma palavra registrada por ouvidos diferentes, e o pesquisador que procura só uma das grafias perde a família na primeira estante.

Existe ainda uma camada política dentro do nome. Depois da invasão de Satsuma, em 1609, o domínio japonês do sul passou a controlar o reino sem anexá-lo formalmente, e em 1625 veio a ordem que separou de vez os dois sistemas: as famílias de Ryukyu ficaram proibidas de usar sobrenomes que parecessem japoneses.

A ordem tinha função diplomática. O reino continuava enviando missões tributárias à China, e convinha a Satsuma que os enviados não parecessem súditos do Japão. O resultado foi um repertório de nomes deliberadamente distinto, que hoje é a evidência mais confiável de origem okinawana num documento brasileiro.

"O reino de Ryukyu foi extinto por decreto, e as ilhas passaram a ser a província mais pobre do Japão." George H. Kerr, Okinawa: The History of an Island People, 1958.

Depois de 1879 o movimento se inverteu. Com o reino dissolvido e a pressão de assimilação em curso, muitas famílias trocaram a leitura do próprio nome por uma versão que soasse continental, e algumas trocaram os caracteres. A mesma linhagem aparece com duas formas em duas gerações, e nenhuma delas é falsa.

No Brasil o embaralhamento ganhou uma terceira camada. Higa foi anotado por funcionário de hospedaria, capataz de fazenda e escrivão de cartório do interior paulista, gente que escrevia de ouvido, e o mesmo homem responde por Higa, Higá, Hyga e Riga em papéis do mesmo ano.

Nada disso individualiza uma pessoa. Higa se repete às dezenas de milhares dentro de Okinawa, sem parentesco nenhum entre a maioria delas. O que separa uma família da outra é o registro em que ela foi anotada, e o registro japonês tem um desenho muito particular.

 
 

II  O Registro

O koseki que Naha teve de escrever de novo

O documento que sustenta qualquer pesquisa genealógica japonesa é o koseki, o registro familiar criado em 1872 e organizado por domicílio, não por indivíduo. Ele não é uma certidão avulsa, é um livro de família que acompanha a casa ao longo das gerações.

Numa folha de koseki aparecem o chefe do domicílio, o endereço registrado, a esposa, os filhos com data de nascimento, as entradas por casamento e adoção e as saídas por casamento, morte ou emigração. Cada evento entra com data e com a origem ou o destino da pessoa, o que faz o documento apontar para o próximo documento.

Esse encadeamento é o que torna o koseki excepcional. Quando um filho se casa e forma domicílio novo, a folha antiga registra para onde ele foi, e a nova registra de onde ele veio, então a linha sobe geração por geração sem depender de dedução.

O koseki é organizado por endereço, não por sobrenome: sem o nome do município e da aldeia, o balcão de Naha não tem como procurar, por mais completo que seja o nome da pessoa.

Okinawa tem um capítulo que nenhuma outra província japonesa tem. Na batalha travada na ilha entre abril e junho de 1945, a maior parte dos cartórios foi destruída junto com as cidades, e o acervo de registro familiar da província desapareceu quase por inteiro.

A reconstrução começou ainda sob administração americana. Nos anos seguintes, o governo das ilhas refez os registros a partir de cópias sobreviventes, documentos guardados por famílias e declarações prestadas por parentes e vizinhos, e o resultado foi um acervo novo, com informação de qualidade desigual.

Isso muda o que se pode esperar do documento. É comum a folha reconstruída começar numa geração mais recente, faltar data exata ou trazer grafia diferente da que a família usava antes da guerra, sem que nada disso indique erro de quem procura.

Existem três obstáculos concretos, e é melhor conhecê-los antes de escrever para o Japão.

O primeiro é a regra de acesso. A cópia do koseki só é fornecida a descendente em linha reta, e o pedido precisa vir acompanhado de prova documental dessa descendência, geralmente traduzida. Primo, sobrinho e cônjuge não conseguem sozinhos.

O segundo é o prazo de descarte. Folhas encerradas têm prazo legal de guarda contado do fechamento do domicílio, e registros muito antigos podem ter sido eliminados legalmente, o que empurra a busca para outras séries.

O terceiro é o endereço extinto. Aldeia de Okinawa foi incorporada, renomeada e refundida em município novo várias vezes ao longo do século 20, e o endereço escrito no papel de 1908 muitas vezes não existe mais no mapa atual.

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III  A Rota

De Santos ao balcão de Naha

A pesquisa de uma linha Higa brasileira tem um ponto de estrangulamento único: descobrir o município e a aldeia de origem em Okinawa. Sem esse endereço, o acervo japonês não pode ser consultado, porque tudo lá é indexado por domicílio.

A primeira parada é a papelada da chegada. As listas de passageiros e os registros da Hospedaria de Imigrantes do Brás, hoje sob guarda do museu da imigração em São Paulo, nomeiam o chefe do grupo, a idade, a profissão declarada, o destino de fazenda e, no melhor dos casos, a província de procedência.

A segunda parada é a associação de província. As entidades de okinawanos e seus descendentes, organizadas por município de origem, guardam listas de sócios, históricos de família publicados em livros comemorativos e a memória oral de quem sabe qual aldeia mandou qual sobrenome.

A terceira parada é a certidão brasileira. Peça inteiro teor de casamento e de óbito subindo geração por geração, porque a certidão de casamento do imigrante costuma nomear os pais que ficaram na ilha, e a de óbito traz a naturalidade declarada pela família.

A quarta parada é o Japão. Com o endereço em mãos, o pedido de koseki vai ao balcão do município correspondente em Okinawa, e o consulado japonês no Brasil orienta o formato do requerimento e a prova de descendência exigida.

Três armadilhas derrubam a maior parte das buscas por esse sobrenome.

A primeira é procurar Higa nas fontes do Japão continental. A família não passou por lá, e o tempo gasto nos arquivos de Tóquio e de Kobe rende apenas o registro do embarque, nunca a origem.

A segunda é assumir parentesco entre homônimos. Higa é topônimo e nasceu em várias casas da mesma região ao mesmo tempo, sem sangue em comum, e só o encadeamento de folhas de koseki prova a ligação.

A terceira é confiar numa grafia só. Quem procura apenas Higa perde os papéis lavrados como Hyga, Higá e Riga, e essas variantes brasileiras costumam ser justamente as do documento mais antigo da família.

Fechar a corrente exige três movimentos, nesta ordem.

Passo 1: levante no Brasil o nome completo do imigrante, a data aproximada de chegada e o nome do navio, usando certidões de inteiro teor, lápide e registro de entrada.

Passo 2: cruze esse nome com as listas de passageiros e com o acervo da associação de província até aparecer o município de Okinawa e, com sorte, o nome da aldeia.

Passo 3: monte o pedido de koseki com a prova de descendência em linha reta traduzida e envie ao balcão do município okinawano correspondente ao endereço encontrado.

Um reino que negociava com meio Pacífico virou província pobre por decreto, mandou um terço dos passageiros do primeiro navio ao Brasil e viu seus cartórios queimarem numa batalha de três meses. O registro que sobrou foi reescrito por vizinhos que lembravam, e ainda hoje ele responde a quem chega com o endereço certo na mão.

"Qual é a aldeia que o seu sobrenome perdeu no caminho?"

 
 
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