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A rota do Gonçalves tem quatro paradas, e a segunda delas explica o volume.
A primeira é o nome germânico latinizado no noroeste da Península, entre a Galiza e o território que viraria Portugal, escrito por clérigo em documento de doação e de foral.
A segunda é um frade. Gonçalo de Amarante, dominicano do século 13, sepultado na vila de Amarante, na margem do Tâmega, virou um dos santos mais festejados do norte português.
A devoção fez o serviço que nenhuma moda de nome faz sozinha: encheu os batistérios do Minho, do Douro e de Trás-os-Montes de meninos batizados Gonçalo, geração atrás de geração, e a festa do santo em Amarante ainda enche a vila em junho.
A terceira parada é a travessia, e ela é quase uma consequência aritmética. O norte de Portugal é exatamente a região que mais mandou gente pro Brasil, na colônia e outra vez na leva de 1880 a 1930.
A quarta parada é o mapa. O santo veio junto e batizou freguesia, e freguesia virou município: São Gonçalo no Rio de Janeiro, São Gonçalo do Amarante no Ceará e no Rio Grande do Norte, São Gonçalo dos Campos na Bahia, e mais uma fileira em Minas Gerais.
A memória da cidade fluminense atribui o nome a uma capela do século 16, erguida por um sesmeiro chamado Gonçalo Gonçalves, o Gonçalo filho de Gonçalo. A data e a pessoa variam conforme o autor, então trate a fundação como versão.
E aí vem a virada do dia. Em Portugal, Gonçalo sobreviveu como nome de pia e continua sendo dado a menino até hoje. No Brasil, ele esvaziou, e sobrou só o patronímico.
O caso mais conhecido está numa capa de livro escolar. Antônio Gonçalves Dias assinou os versos mais repetidos da língua sobre pertencer a um lugar, em Primeiros Cantos, de 1846, e os dois sobrenomes dele são patronímicos: Gonçalves de Gonçalo, Dias de Diogo.
Falta o aviso que evita a decepção. Não existe censo oficial de sobrenome no Brasil, e qualquer posição de ranking que circula por aí sai de base privada, então trate número de Gonçalves como estimativa.
O patronímico agrava o ponto: ele se formou sozinho em milhares de famílias sem ligação nenhuma entre elas. Dois Gonçalves compartilham um mecanismo, não um antepassado, e a certidão não avisa.
Descobrir de qual Gonçalo veio o seu começa com três linhas anotadas à mão.
Passo 1: pegue a certidão mais antiga da família e copie os nomes de pia, não o sobrenome: o do pai, o do avô e o da freguesia ou município onde eles aparecem.
Passo 2: procure o assento de casamento do ancestral mais antigo. É ele que costuma declarar natural da freguesia de tal, bispado de tal, e essa linha é o endereço do outro lado do Atlântico.
Passo 3: com a freguesia na mão, abra o Digitarq e leia o batismo do ano correspondente, copiando a linha dos avós inteira antes de sair da página.
O sobrenome sozinho não leva a lugar nenhum. O nome de pia do pai leva, e ele está escrito lá desde o dia em que alguém precisou dizer de quem aquela criança era filha.
"Qual nome de pia está congelado dentro do seu sobrenome?"
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