|
|
| {{subiu_orn | }} |
{{subiu_num | }} |
{{subiu_orn | }} |
{{subiu_caps | }}
{{subiu_linha | }}
|
|
Galego virou apelido de português no Rio, e o registro de estrangeiros diz de onde cada um veio
Entre 1880 e 1930 a Galiza mandou boa parte de quem tocou o comércio e as obras do Rio, e a entrada de cada um ficou no Arquivo Nacional.
|
Do registro de estrangeiro à paróquia galega
|
| ▼ |
| |
| |
|
A certidão de casamento de inteiro teor de um casal galego casado na Freguesia de Santana sai por cerca de R$ 130 na tabela de emolumentos do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro em vigor em 2026, e a mesma entrada procurada na ficha de registro de estrangeiro, na sala de consulta do Arquivo Nacional, no Rio, custa R$ 0.
A distância entre os dois preços é de finalidade. Os R$ 130 compram o papel com fé pública, aquele que cartório e consulado exigem num processo de cidadania. Os zero reais compram a linha que destrava a pesquisa: como o funcionário grafou o sobrenome, o porto de embarque, a idade declarada e a província de saída.
Galego, no Rio, virou apelido de português por um atalho de ouvido, e o atalho tem endereço. A Galiza fica encostada no norte de Portugal, fala uma língua irmã e mandou para a cidade uma leva grande de homens jovens que foram trabalhar no balcão do armazém, na padaria, na quitanda e nas obras da reforma urbana. O carioca ouviu um sotaque parecido, viu o mesmo ofício e chamou todo mundo pelo apelido de um só grupo.
O apelido colou tão bem que atravessou gerações e chegou ao neto sem passaporte nenhum junto. A família repete que o bisavô era português, e a ficha guardada no arquivo diz Espanha, província da Corunha, Lugo, Pontevedra ou Ourense.
A janela mais cheia dessa chegada vai de 1880 a 1930. Nesse período a cidade cresceu, derrubou cortiço, abriu avenida e precisou de braço para o comércio de porta aberta e para o canteiro de obra, e a Galiza rural mandava o filho que a casa não conseguia sustentar.
A papelada da entrada sobreviveu, e é ela que separa a pesquisa da história contada na mesa de domingo. O que atrapalha vem antes do acervo, na grafia: o escrevente brasileiro ouvia galego, escrevia com as letras do português e cortava o acento, e o sobrenome que o bisneto assina hoje pode estar a duas letras do sobrenome que embarcou em Vigo.
Quem entende como o sobrenome galego foi montado, e o que o papel brasileiro fez com ele, chega à freguesia de origem em meses, e não em décadas.
Continue lendo ↓
|
|
|
|
I O Sobrenome do Dia
De Fernández a Souto: quatro matrizes galegas
|
|
O sobrenome da Galiza se explica por quatro matrizes, e reconhecer a matriz certa já reduz o mapa de busca a uma faixa de comarcas.
A primeira matriz é patronímica, a mais numerosa de todas. Fernández, Rodríguez, González, Álvarez, Martínez e Vázquez são formas de filho de Fernando, Rodrigo, Gonzalo, Álvaro, Martín e Vasco. A terminação ez carrega essa ideia de descendência, e por isso um Fernández de Ourense e um Fernández de Pontevedra podem não ter parente comum nenhum.
A segunda matriz é toponímica, e é a mais generosa, porque entrega o lugar dentro do próprio sobrenome. Souto é o bosque de castanheiras, Lago aponta a água parada perto da casa, Carballo é o carvalho, Veiga é a várzea de rio, Outeiro é a elevação, Barreiro é o barro. São nomes tirados da paisagem da aldeia, e várias dessas palavras batem com topônimos que existem até hoje no mapa galego.
|
PAI, LUGAR, CASA OU OFÍCIO: O SOBRENOME GALEGO CABE NESSAS QUATRO
|
A terceira matriz nasce da casa e da parede. Da Torre, Castro, Iglesias e Pazos apontam construção, fortificação antiga ou o terreno da igreja da freguesia, e funcionavam como endereço falado antes de existir número de porta.
A quarta matriz é de ofício e de apelido físico. Ferreiro é quem batia metal, Pereira e Figueiroa vieram da árvore que dava fruto no quintal, Branco e Moreno descrevem quem carregava o nome.
Há um detalhe de sistema que muda a busca inteira. O espanhol registra dois sobrenomes, o do pai primeiro e o da mãe em seguida, e o galego que desembarcou no Rio chegou assim, com Fernández Souto ou Rodríguez Veiga escritos lado a lado. O cartório brasileiro apagou um dos dois em muitos casos, e a família perdeu metade da chave sem perceber.
O segundo obstáculo nasce no guichê da hospedaria e da delegacia. O escrevente escrevia de ouvido, sem tabela de correspondência, e ouvia galego falado, não o castelhano de gramática.
Daí saiu uma família inteira de grafias para a mesma pessoa. Fernández vira Fernandes, González vira Gonçalves, Rodríguez vira Rodrigues, Vázquez aparece como Vasques e Vasquez, Iglesias aparece como Iglezias e Iglésias. O x galego, que soa como o nosso ch, virou x ou ch no papel, e Seixas convive com Seijas e Xesta com Chesta.
O acento caiu primeiro, e a troca de z por s veio logo atrás. O índice digitalizado trata Vázquez e Vasques como pessoas diferentes, e quem procura uma das formas não vê a outra.
A regra prática cabe em três minutos. Escreva o sobrenome à mão, marque o acento, cada z final, cada x e cada ll, e monte de quatro a seis variantes antes de abrir qualquer índice.
|
|
|
|
|
II O Registro
Três acervos que provam a entrada na cidade
|
|
A pesquisa dessa linha tem três acervos paralelos, e cada um responde uma pergunta diferente. Misturar as perguntas é o que faz a busca girar em falso por meses.
O primeiro acervo é o da entrada no país, e ele mora no Arquivo Nacional, no Rio. Ali estão os registros de estrangeiros, as listas de passageiros dos vapores e a documentação de hospedaria de imigrantes, com busca pelo sistema de informação do próprio arquivo e atendimento presencial na sala de consulta.
A ficha de registro de estrangeiro traz o que nenhuma certidão brasileira traz. Sobrenome como foi grafado na chegada, nacionalidade declarada, província de nascimento, idade aproximada, estado civil, profissão, porto de embarque, navio e data de desembarque.
|
"A Galiza foi, ao longo do século XIX e das primeiras décadas do XX, a principal região de saída da emigração espanhola para o Brasil." Érica Sarmiento, Galegos no Rio de Janeiro, 2009."
|
|
A província anotada na entrada vale mais que qualquer papel posterior, porque ela é a única linha que aponta o lado de lá do Atlântico.
|
O segundo acervo é o religioso, e é o mais rico em detalhe pessoal. As paróquias do centro e da zona portuária, Santana, Santa Rita, Sacramento, Candelária e São José, abriram livros de batismo, casamento e óbito que trazem filiação, nome dos padrinhos e, em muitos assentos, a freguesia galega de origem escrita pelo padre.
O terceiro acervo é o civil, e ele começa tarde. O registro civil obrigatório vale desde 1889, e o assento do imigrante já idoso costuma trazer só o sobrenome abrasileirado, idade aproximada e a menção genérica de nacionalidade espanhola, que não diz província nenhuma.
Existe ainda um quarto caminho, o associativo: as entidades da colônia guardaram ficha de sócio com naturalidade e endereço.
A leitura desse conjunto pede três cuidados de método, e nenhum é dispensável.
O primeiro cuidado é de língua do documento. Livro paroquial do Rio no fim do século XIX aparece em latim ou em português de escrivão, com o prenome vertido, e Xoán aparece como Joannes ou João, Xosé como Josephus ou José.
O segundo cuidado é de nacionalidade declarada. Muito galego se apresentou como português no balcão, por conveniência ou por hábito do interlocutor, e o papel repete o apelido em vez da certidão de origem.
O terceiro cuidado é de nome de lugar. Uma parroquia galega pode ter sido incorporada por outro concello desde 1900, e procurar o livro pelo nome atual do município joga a busca na diocese errada.
|
|
|