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Em Varpa, a mesma família assinou Berzins e Berzina

Os batistas letões fundaram a colônia em 1922, e os livros da igreja guardam as duas formas do nome.

Livro de atas de igreja aberto ao lado de uma Bíblia e espigas.

Livro de membros de uma igreja batista letã

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No começo da década de 1920, centenas de famílias batistas deixaram a Letônia rumo ao Brasil. Elas tinham vendido casa, gado e ferramenta, e chegavam ao porto de Santos com a Bíblia, a roupa do corpo e um plano: viver juntas, longe de um país que acabavam de ver sair da guerra.

O destino ficava no oeste de São Paulo, numa região ainda coberta de mata, a Alta Paulista. Ali, a partir de 1922, os recém-chegados abriram roças, levantaram casas de madeira e deram ao lugar um nome da língua deles: Varpa, que quer dizer espiga.

Varpa existe até hoje como distrito do município de Tupã. A igreja batista que os colonos fundaram segue de pé, e o cemitério guarda lápides com nomes que o leitor brasileiro estranha à primeira vista: Ozols, Kalnins, Liepins, Berzins.

Quem procura um antepassado letão na colônia esbarra cedo numa pista que parece erro de cartório. No mesmo livro, o pai aparece como Berzins e a filha como Berzina. Na lápide da mãe, o nome termina em a; na do filho, em s.

Não há erro algum. O letão marca o sexo no fim do sobrenome, e a família inteira divide a mesma raiz com duas pontas. Quem lê o papel sem saber a regra separa irmãos como se fossem estranhos.

Os papéis da colônia, por sorte, são muitos. Os batistas anotavam batismos de adultos, casamentos, entradas e saídas de membros em livros próprios, e cada família comprou ou recebeu um lote de terra registrado em escritura.

Esses dois arquivos, o da igreja e o da terra, contam a história da mesma gente por ângulos diferentes. O primeiro diz quem acreditava junto; o segundo diz quem plantava ao lado de quem.

A primeira seção abre com o sobrenome mais comum da Letônia, o da bétula, e mostra como ele chegou ao interior paulista com duas formas.

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I  O Sobrenome do Dia

Berzins, a bétula que virou sobrenome

Berzins vem de bērzs, a palavra letã para bétula (a árvore de casca branca das florestas do norte da Europa). O sufixo -iņš funciona como diminutivo, e o nome quer dizer algo próximo de pequena bétula.

Na Letônia, a maior parte dos camponeses só recebeu sobrenome fixo no começo do século 19. Até então, muita gente era conhecida pelo nome da fazenda onde trabalhava ou pelo nome do pai.

Quando as autoridades exigiram nomes de família, muitos escolheram palavras da natureza: árvores, pássaros, rios e pedras. Daí Berzins, Ozols (carvalho) e Liepins (de liepa, tília) aparecem com tanta frequência entre os letões.

A grafia original leva sinais que o português não tem: Bērziņš, com um traço sobre o e e uma vírgula sob o n e sob o s. Nos portos brasileiros, o funcionário que copiava a lista de passageiros raramente reproduzia esses sinais.

A FILHA DO BERZINS ASSINA BERZINA

No letão, o homem carrega o nome terminado em -š ou -s, e a mulher em -a ou -e. Bērziņš é o pai e o filho; Bērziņa é a mãe e a filha.

Em Varpa, os colonos mantiveram a regra dentro de casa e na igreja. O escrivão brasileiro, quando registrava um nascimento, nem sempre sabia dela, e copiava a forma que ouvia do pai declarante.

O resultado aparece nos papéis da mesma família. Uma filha pode ter sido batizada como Berzina na igreja e registrada como Berzins no cartório civil, porque o declarante disse o próprio sobrenome.

Com o casamento, a forma feminina mudava junto com o nome do marido. A filha de um Kalnins que casava com um Berzins passava de Kalnina para Berzina, e as duas formas femininas podem aparecer em papéis de anos diferentes.

Ao longo das gerações nascidas no Brasil, muitas famílias acabaram fixando uma forma só, quase sempre a masculina. Hoje há mulheres Berzins em Tupã e em São Paulo, e a variação antiga ficou guardada nos livros mais velhos.

Para a pesquisa, a consequência é prática. Toda busca por um sobrenome letão precisa correr em duas formas, com e sem os sinais: Berzins, Berzina, Bērziņš, Bērziņa, e às vezes Berzin, quando o escrivão cortou a última letra.

 
 

II  O Registro

Os livros da igreja e da terra

A Primeira Igreja Batista Letã de Varpa foi organizada pelos próprios colonos nos primeiros anos da colônia. O culto era em letão, os hinos vinham da Letônia, e a ata das reuniões se escrevia na língua de origem por décadas.

Para o batista, o batismo vem na idade adulta, por escolha própria. Assim, o livro de membros da igreja não registra o recém-nascido, como faria um livro católico: registra o jovem ou o adulto que pediu para entrar, com a data e, muitas vezes, o nome dos pais.

O livro também anota quem saiu, quem foi excluído por disciplina, quem se mudou para outra igreja e quem foi sepultado. Essa lista de entradas e saídas permite reconstruir o caminho de uma pessoa dentro da comunidade, ano a ano.

A organização da colônia ajuda a leitura. Nos primeiros anos, parte dos imigrantes viveu num regime comunitário, com trabalho e comida divididos, numa fazenda que recebeu o nome de Palma. Outros compraram lotes próprios e trabalharam por conta.

A ESCRITURA DO LOTE DIZ QUEM ERA VIZINHO DE QUEM

O segundo arquivo é o da terra. A área onde Varpa nasceu foi loteada e vendida a colonos, e cada compra gerou uma escritura em cartório de notas e um registro no cartório de imóveis da comarca.

A escritura traz o nome do comprador, o do vendedor, a medida do lote e as divisas, quase sempre descritas pelos vizinhos: confronta com terras de fulano. Numa colônia fechada como Varpa, os vizinhos eram parentes, irmãos de fé ou famílias vindas da mesma paróquia na Letônia.

O registro de imóveis acompanha o lote ao longo do tempo. Quando o colono morria, o inventário passava a terra aos herdeiros, e o nome da viúva e dos filhos entrava no papel, às vezes com as formas femininas e masculinas misturadas.

Os dois arquivos têm limites. A ata da igreja está em letão antigo e, em alguns anos, em letra difícil; partes dela podem ter se perdido com mudanças de sede ou umidade, e nem sempre há cópia. A escritura só traz quem tinha terra em nome próprio, e quem trabalhava como agregado quase não aparece.

O registro civil brasileiro completa o quadro. Nascimentos, casamentos e óbitos da colônia ficaram no cartório de registro civil do distrito ou da sede do município, em português, e ali a grafia do sobrenome segue o ouvido do escrivão.

Postos lado a lado, o livro da igreja, a escritura e a certidão quase sempre mostram a mesma pessoa com duas ou três grafias. A pesquisa ganha quando trata essas grafias como pistas da mesma família, nunca como gente diferente.

 

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III  A Rota

Da lápide de Varpa ao livro de membros

A rota parte de três dados: o sobrenome em todas as formas, o nome de batismo e a década aproximada em que a família chegou ao Brasil. Com eles, a busca começa no que está on-line e termina no que exige contato direto.

• Passo 1: liste as formas do sobrenome, masculina, feminina, com e sem os sinais do letão.

• Passo 2: procure a família nas listas de desembarque do porto de Santos, no acervo on-line do Museu da Imigração do Estado de São Paulo.

• Passo 3: busque os registros civis de Tupã e região no FamilySearch, o banco gratuito de registros mantido pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

• Passo 4: escreva à igreja batista de Varpa pedindo consulta ao livro de membros e às atas antigas.

• Passo 5: peça ao cartório de imóveis da comarca a matrícula ou a transcrição do lote da família.

No passo 1, inclua a forma cortada (Berzin) e a forma aportuguesada que algumas famílias adotaram. A lista curta evita que um registro certo passe despercebido por causa de uma letra.

No passo 2, a lista de bordo registra o chefe da família e os acompanhantes. A mulher e as filhas podem constar com a terminação em -a, ou com o sobrenome do marido na forma masculina, conforme o funcionário.

No passo 3, procure pelo nome de batismo junto com o sobrenome, e filtre pelo município. Em Varpa, nomes como Jānis, Kārlis e Anna se repetem muito, e o ano de nascimento separa os homônimos.

No passo 4, explique o grau de parentesco e o nome completo do antepassado. A ata pode estar em letão, e uma tradução simples por um falante da língua basta para extrair nomes e datas.

No passo 5, informe o nome do comprador original e a década da compra. A transcrição antiga indica o número da escritura, e a escritura, por sua vez, indica o cartório de notas onde ela foi lavrada.

Se nenhum livro guardar o nome, a lápide do cemitério de Varpa ainda serve de ponto de partida: ela costuma trazer o nome completo e as datas de nascimento e de óbito, muitas vezes em letão.

“Na sua família, quem assinou o sobrenome com outra terminação, e em qual papel?”

Hoje, até as 22h: escreva 1 lista com as 4 formas do sobrenome da família, masculina, feminina, com sinais e sem sinais, e faça 1 busca com cada uma no FamilySearch.

 
 
Quiz da edição

No texto, qual é o significado da palavra letã que os imigrantes usaram para nomear a colônia fundada em 1922 no interior paulista, batizando-a de Varpa?

ABétula
BCarvalho
CEspiga
DTília

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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