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Raiz do Sobrenome   Raiz do Sobrenome
ED 008

De Jesus veio do padre, não do avô

Jesus, Nascimento e Conceição eram nomes de devoção dados na pia a quem chegava sem sobrenome, e a primeira assinatura está entre 1872 e 1889.

Um livro de assentos de batismo aberto sobre a mesa da sacristia, com pena e tinteiro ao lado.

O livro em que o exposto ganhou nome

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Uma gaveta cilíndrica de madeira, embutida no muro da Santa Casa, girava com um empurrão. De um lado ficava a rua, do outro a portaria. Quem deixava a criança ali puxava a corda do sino e ia embora sem ser visto.

A roda dos expostos funcionou no Brasil por mais de dois séculos. Salvador teve a primeira, em 1726. Depois vieram Rio de Janeiro em 1738, Recife em 1789 e São Paulo em 1825, e a última só parou de girar já no século 20.

A criança recolhida seguia para o batismo em poucos dias, e o problema do assento nunca foi o nome de pia. Era o resto da linha. Sem pai declarado, sem mãe conhecida e sem casa de origem, não havia de onde tirar um sobrenome.

O pároco escrevia filho de pais incógnitos, ou exposto na roda desta casa, e preenchia o vazio com o que tinha à mão naquela tarde: o santo do dia, a festa do calendário, a devoção da capela. Jesus, Nascimento, Conceição, Santos, Espírito Santo, Cruz.

O mesmo gesto se repetia numa fila muito maior. Quem saía do cativeiro chegava ao registro com um nome só, e recebia da mesma mão a mesma prateleira de devoções.

O efeito prático desmonta a busca de quem monta árvore genealógica. Um sobrenome de devoção não sobe: ele começa numa data, na letra de um homem que precisava fechar uma coluna do livro, e antes dessa data não existe nada para procurar.

A data está guardada entre dois documentos brasileiros que quase ninguém abre, um de 1872 e outro de 1889. Entre os dois cabe a primeira vez que a sua família assinou o nome inteiro, com livro, folha e número.

Antes de chegar ao papel, vale saber o que esses nomes queriam dizer para quem os escrevia. Nenhum dos três foi escolhido ao acaso, e a escolha tinha regra escrita.

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I  O Sobrenome do Dia

Três nomes para quem chegava sem nenhum

De Jesus não é sobrenome de linhagem. É sobrenome de devoção, e devoção é uma categoria à parte na formação do nome português.

O nome português se fixou por quatro caminhos. Patronímico, o filho de alguém: Fernandes, Gonçalves, Rodrigues. Toponímico, o lugar de origem: Silva, Lima, Braga. Alcunha, o corpo ou o jeito: Delgado, Ruivo, Moreno. E devoção, a fé escrita no papel: Jesus, Santos, Cruz, Conceição.

Os três nomes de hoje vêm do calendário litúrgico, nunca da família. Conceição é a Imaculada Conceição, festa de 8 de dezembro, e a invocação que D. João IV proclamou padroeira de Portugal em 1646.

Nascimento é a Natividade de Nossa Senhora, festa de 8 de setembro. De Jesus vem da devoção ao Santíssimo Nome de Jesus, difundida por carmelitas e jesuítas e presente em ordem religiosa, em capela e em nome de freira professa.

A prateleira era maior que três. Entram nela Espírito Santo, Cruz, Dores, Assunção, Purificação, Rosário, Anunciação e Sacramento, todos vindos de uma festa do ano litúrgico ou de uma invocação de Maria.

Quem recebia esses nomes na pia era, quase sempre, quem chegava ali sem nenhum. Duas portas alimentavam a mesma fila: a criança deixada na roda e a pessoa que saía do cativeiro.

As Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, de 1707, deram a moldura. Mandaram batizar toda pessoa escravizada, ordenaram ao pároco lavrar o assento e determinaram que o nome dado fosse de santo, nunca profano.

Na prática, a escolha coube ao padre. Ele tinha diante de si uma criança sem filiação, ou um adulto recém-liberto com um nome só, e uma coluna para preencher antes do fim do dia.

Um sobrenome de devoção não conta de onde a família veio. Conta o dia em que ela entrou no papel, e o nome que estava à mão de quem escrevia.

A consequência é dura para quem monta árvore. Dois de Jesus da mesma freguesia, batizados no mesmo ano, quase nunca são parentes. Têm em comum o padre, o calendário e a ausência de sobrenome anterior.

Vale o contrário também. Famílias portuguesas antigas, livres e cristãs-velhas, usaram Santos, Cruz e Conceição por devoção pura, então o nome sozinho não decide nada, nem para um lado nem para o outro.

Ele apenas avisa em que gaveta procurar, e a gaveta é a do registro, nunca a da tradição de almoço de família. No Brasil, ela tem duas datas, e a primeira está num livro que os proprietários foram obrigados a preencher em 1872.

 
 

II  O Registro

A linha de 1872 que não tinha sobrenome

A matrícula de 1872 anotou nome, cor, idade, filiação e ofício de quase toda a população escravizada do Império. O que ela não anotou foi sobrenome, porque naquele livro a coluna não existia.

A obrigação nasceu na Lei do Ventre Livre, a Lei 2.040 de 28 de setembro de 1871. O artigo 8º mandou proceder a uma matrícula especial de todos os escravos do Império, com nome, sexo, estado, aptidão para o trabalho e filiação de cada um.

O regulamento veio pelo Decreto 4.835, de 1º de dezembro de 1871, e o levantamento correu ao longo de 1872. A sanção fez o serviço andar: o cativo não matriculado no prazo passava a ser havido por livre, e nenhum proprietário quis o risco.

O livro traz, linha a linha, o nome próprio, a cor, a idade declarada, o estado civil, a naturalidade, o ofício e o nome de quem declarava a posse. Quando conhecida, a filiação entrava na mesma linha.

É a filiação que salva a pesquisa. Um lançamento com Benedita, 34 anos, crioula, filha de Rita, amarra duas gerações num documento datado, raro para família que não deixou inventário.

Havia um segundo livro, o dos ingênuos, com os filhos nascidos de mãe escravizada depois de 28 de setembro de 1871, livres pela lei, com nome, data de nascimento e o nome da mãe.

Dezesseis anos depois, a Lei Áurea, de 13 de maio de 1888, encerrou o regime em duas frases curtas e não disse uma palavra sobre nome ou documento. Quem saiu do cativeiro saiu sem papel próprio.

O papel chegou por outra porta, no mesmo ano. O Decreto 9.886, de 7 de março de 1888, aprovou o regulamento do registro civil de nascimentos, casamentos e óbitos e mandou executá-lo a partir de 1º de janeiro de 1889.

Foi a virada do arquivo brasileiro. Até ali quem registrava nascimento era a paróquia, no livro de batismo. Dali em diante o Estado registrou, no cartório, e o assento deixou de depender da fé de ninguém.

A tentativa anterior fracassou feio. O Decreto 798, de 1851, já criara o registro civil, correu pelo Nordeste o boato de que o levantamento serviria para escravizar gente livre de cor, e o levante conhecido como Ronco da Abelha queimou livros de igreja em Pernambuco e na Paraíba até o governo suspender tudo, em janeiro de 1852.

Em 1889 a lei finalmente pegou. E o formulário do cartório pedia exatamente o que o livro de 1872 não pedia: nome e sobrenome do registrado, filiação completa, nome dos avós paternos e maternos, testemunhas e declarante.

Há um detalhe no pé do assento que vale a viagem. Quando o declarante não sabia escrever, o escrivão anotava que alguém assinava a rogo dele, e registrava o nome de quem segurou a pena.

É ali que muitas famílias encontram a primeira aparição do nome completo, escrito por autoridade civil, com data, livro, folha e número. Chegar até essa página é uma rota curta, quase toda aberta de graça na tela.

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III  A Rota

Do livro da Santa Casa ao cartório de 1889

A rota tem quatro endereços, e ela começa dentro de casa, nunca no arquivo.

O primeiro endereço é a certidão mais antiga que a família guarda. Peça ao cartório de origem a de inteiro teor, que reproduz o assento completo e as anotações da margem, e não a resumida do balcão.

Se o cartório se perdeu de vista, a busca nacional roda na Central de Informações do Registro Civil, em registrocivil.org.br, e devolve onde o assento foi lavrado.

O segundo endereço são os livros paroquiais. Batismo, casamento e óbito de paróquias brasileiras estão digitalizados e abertos no FamilySearch, e muitas mantinham livro separado para livres e para escravizados.

É no livro de batismo que aparece a palavra exposto, ao lado de pais incógnitos ou pais não sabidos. Quando ela aparece, a busca sai da paróquia e vai para a Santa Casa da cidade.

O terceiro endereço são os livros de matrícula de 1872 e os de ingênuos, guardados no Arquivo Nacional e nos arquivos públicos estaduais, com busca por município e pelo nome do proprietário.

O caminho até ela é indireto. O assento paroquial costuma trazer o nome do senhor junto do nome da pessoa batizada, e é esse nome que abre a matrícula, organizada por quem declarava a posse.

O quarto endereço são os livros de entrada de expostos das Santas Casas, com número de ordem, data, descrição da roupa e, às vezes, o bilhete que veio junto da criança. Ao lado deles ficam inventários e testamentos.

Duas armadilhas derrubam quase toda busca por sobrenome de devoção. A primeira é a transmissão: ele não passava inteiro de pai para filho, e irmãos da mesma casa saíam de Jesus, dos Santos e da Conceição sem nenhuma irregularidade.

A troca continuou depois de 1889. Um mesmo homem aparece como João de Jesus no batismo, João dos Santos no casamento e João Nascimento no óbito, e quem costura os três é a filiação, jamais o sobrenome.

A segunda armadilha é a data. Procurar de Jesus em papel de 1870 não devolve nada, porque a coluna do sobrenome não existia. Antes de 1888 a busca é por nome próprio, idade, cor, ofício e localidade.

Achar a primeira assinatura da família segue três movimentos, nesta ordem.

Passo 1: recolha o que já existe em casa. Reúna as certidões, anote nome completo, data, cartório, livro e número, e monte a corrente até o registro mais antigo que der para provar.

Passo 2: atravesse 1889 pela paróquia. Com o nome dos pais e a localidade, procure batismo, casamento e óbito no FamilySearch, e copie o que estiver escrito na margem, inclusive a condição ao lado do nome.

Passo 3: entre em 1872 pelo nome próprio. Nos livros de matrícula, busque a localidade e o proprietário que apareceu no assento paroquial, e leia a coluna de filiação, onde a família volta a se amarrar.

O nome que a sua família carrega hoje não desceu de brasão nenhum. Ele foi escrito à mão, num dia comum, por alguém que precisava fechar uma linha do livro, e a linha continua guardada com data e número.

"Qual é o documento mais antigo em que alguém da sua família assinou o nome inteiro?"

 
 
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