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Raiz do Sobrenome   Raiz do Sobrenome
ED 010

Bittencourt veio numa lista, não num brasão

Entre 1748 e 1756 a Coroa pagou a passagem de milhares de casais açorianos para o litoral catarinense e anotou cada família pelo nome.

Uma relação manuscrita de casais açorianos aberta sobre a mesa do cais, com pena e tinteiro ao lado.

A relação de casais que cruzou o Atlântico

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Antes de o navio sair do porto açoriano, uma lista tinha que fechar. Cada casal entrava numa linha, com o nome do marido, o nome da mulher, a idade dos dois, o número de filhos e a freguesia de onde a família saía.

A Coroa portuguesa bancava a viagem inteira. Passagem, ferramenta de lavoura, farinha até a primeira colheita e um pedaço de terra do outro lado do Atlântico, tudo por conta do Reino. Dinheiro público exige papel, e o papel virou uma relação nominal, família por família.

O motivo do Reino não era caridade. O sul do continente estava em disputa com a Espanha, e povoar a costa com lavrador casado valia mais que guarnição, porque família fica, planta e não volta no navio seguinte.

Nas ilhas, a pressão vinha do outro lado. Terra dividida até o limite entre herdeiros, colheita curta e casa cheia. Sair com passagem paga era a saída que muita família açoriana esperava havia anos.

A primeira leva desembarcou na Ilha de Santa Catarina em janeiro de 1748, no povoado de Nossa Senhora do Desterro. Até 1756 chegaram cerca de 6 mil ilhéus, quase todos dos Açores, num litoral que antes mal reunia 4 mil moradores.

O detalhe que muda a busca de quem procura o próprio nome está no destino dessas relações. Elas não ficaram em cartório brasileiro, porque cartório de registro civil só passou a funcionar em 1889. Ficaram no arquivo do Reino, em Lisboa.

Quem carrega Bittencourt no Sul do Brasil costuma ouvir em casa a versão do fidalgo normando e do brasão pendurado na parede. A relação de casais conta uma história mais seca e mais útil: idade, ilha, freguesia e a data do embarque.

Antes de entrar na lista, o nome já tinha atravessado três arquipélagos e trocado de grafia várias vezes. Vale saber de onde ele saiu e o que a palavra queria dizer no começo.

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I  O Sobrenome do Dia

O normando que virou nome de ilhéu

Bittencourt é toponímico, ou seja, nome de lugar virado nome de família. O lugar fica no norte da França e se escreve Béthencourt.

A terminação court vem do latim cortem, o pátio da quinta, e virou sufixo de dezenas de povoados normandos e picardos. O primeiro pedaço costuma ser um nome de pessoa germânico, então Béthencourt quer dizer, na origem, a quinta de um homem chamado Betto.

O nome entra na história das ilhas em 1402. Jean de Béthencourt, senhor de Béthencourt, desembarcou nas Canárias com uma armada pequena, ficou com o senhorio do arquipélago e chegou a se intitular rei das ilhas.

Ele voltou para a França e deixou o sobrinho Maciot no lugar. A partir dali o sobrenome andou de ilha em ilha, das Canárias para a Madeira e da Madeira para os Açores.

Em Angra, na Terceira, Francisco de Bettencourt fixou a casa no século 16, e o filho primogênito, João de Bettencourt de Vasconcelos, herdou o nome inteiro.

Nos três séculos seguintes o sobrenome deixou de ser propriedade de uma parentela só. Até o século 19, nome de família em Portugal não seguia regra fixa: um filho podia tomar o nome do avô, da avó, do padrinho ou do senhorio da terra.

Um Bittencourt de Santa Catarina, portanto, não prova parentesco com o fidalgo normando. Prova que a família passou pelas ilhas, porque foi ali que o nome ficou comum, e ilha é exatamente o que o documento consegue mostrar.

Sobrenome não é certidão de parentesco. É a marca de um lugar por onde a família passou, e o lugar é o que o papel confirma.

A grafia também muda de livro para livro. Bettencourt, Bettencurt, Bitencourt, Betencor, Bitancourt e Bittencourt são a mesma casa escrita por mãos diferentes, e a forma com dois tês venceu no Brasil.

O mapa de hoje ainda desenha a rota das embarcações. O levantamento do Forebears, que cruza cadastros públicos de vários países, conta 41.547 Bittencourt no Brasil, cerca de um em cada 5.153 pessoas.

Rio Grande do Sul concentra 21% desse total, Santa Catarina 16% e Rio de Janeiro 15%. Mais de um terço dos Bittencourt brasileiros vive nos dois estados que receberam as levas de casais.

O nome já tinha quase 350 anos de Europa quando entrou no primeiro papel brasileiro. E o papel nasceu de uma conta pública, não da vontade de guardar memória de família.

 
 

II  O Registro

O papel que existe porque a Coroa pagava

A relação de casais açorianos existe porque a Coroa pagava a conta. Quem banca a viagem cobra prestação de contas, e prestação de contas vira lista nominal.

A abertura veio por decreto de 31 de agosto de 1746, assinado por D. João V, que autorizou o recrutamento de casais dos Açores e da Madeira para a Ilha de Santa Catarina e para as terras vizinhas do continente.

As condições estavam escritas antes do embarque. Passagem paga, ferramenta de lavoura, farinha para o primeiro ano e terra para trabalhar. O recrutamento pedia gente casada e em idade de plantar, não soldado.

A provisão régia de 9 de agosto de 1747 completou a regra do assentamento. Cada povoação nova sairia com sessenta casais, e cada casal receberia um quarto de légua em quadra de terra para lavrar.

Em janeiro de 1748 a primeira leva pisou na Ilha. O brigadeiro José da Silva Paes, que governava a praça, repartiu as terras, mandou dar mantimento aos recém-chegados e comunicou o serviço ao Reino por ofício.

Até 1756 o fluxo seguiu em levas. Somadas, passaram de 6 mil pessoas, quase todas açorianas, com uma minoria vinda da Madeira.

O casal era unidade administrativa, nunca retrato de afeto. Numa linha entravam marido, mulher, filhos, enteados e agregados, com a idade declarada e a freguesia de origem anotada ao lado.

A freguesia é o dado mais valioso da relação. Ela diz em qual das nove ilhas e em qual paróquia procurar o batismo do casal, que ficou guardado do outro lado do Atlântico.

Vale um aviso honesto sobre essas listas. Nem toda pessoa aparece com nome completo: muitas vezes o chefe do casal é nomeado por inteiro e a mulher entra pelo nome próprio, com os filhos contados por idade.

O acervo tem endereço fixo. Os papéis estão no Arquivo Histórico Ultramarino, em Lisboa, no fundo do Conselho Ultramarino, série Santa Catarina, com documentos avulsos que cobrem de 1717 a 1827.

Ali estão consultas do Conselho sobre o transporte dos casais, ofícios de governador, sumários de testemunhas de 1750 e requerimentos dos próprios colonos, pedindo terra, semente e confirmação de posse.

O acesso mudou nos anos 1990. O Projeto Resgate Barão do Rio Branco microfilmou o acervo brasileiro do arquivo e depois digitalizou as imagens, e o catálogo dos avulsos catarinenses foi organizado na UFSC e concluído em 2000.

Parte do levantamento também saiu em livro. A epopéia açórico-madeirense, de Walter Fernando Piazza, publicada pela editora da UFSC em 1992, reúne as levas, os navios e as famílias transportadas para o litoral do Sul.

Com o acervo mapeado nos dois lados do oceano, a busca deixa de depender de sorte. Ela vira uma rota de quatro endereços, e três deles abrem de graça na tela de casa.

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III  A Rota

Quatro acervos entre Desterro e Angra

A rota tem quatro endereços, e o primeiro é o mais próximo de quem procura.

Comece pelo que a família guarda. Peça ao cartório de origem a certidão de inteiro teor, que copia o assento completo e as anotações da margem, e monte a corrente de nomes até o registro mais antigo que der para provar.

Do registro civil para trás, o caminho é a paróquia. Batismo, casamento e óbito das freguesias catarinenses e gaúchas estão digitalizados e abertos no FamilySearch, e é neles que o casal açoriano reaparece já em terra firme.

O segundo endereço é o Projeto Resgate, em resgate.bn.gov.br. A série de Santa Catarina cobre de 1717 a 1827 e tem índice onomástico, ou seja, busca por nome de pessoa, com link direto para a imagem do manuscrito.

O catálogo desses avulsos também está publicado pelo Arquivo Público do Estado de Santa Catarina, em acervo.arquivopublico.sc.gov.br, e serve para localizar caixa e documento antes de abrir a imagem digitalizada.

O terceiro endereço fica nas ilhas. Os registos paroquiais e de passaportes dos Açores estão em culturacores.azores.gov.pt, cobrem de 1541 a 1911 e a consulta não custa nada.

Os originais ficam em Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e Horta, e a busca nos três arquivos regionais roda em arquivos.azores.gov.pt. É ali que o batismo do casal listado costuma aparecer, com o nome dos pais junto.

O quarto endereço são os papéis de terra do lado brasileiro. Inventários, testamentos e registros de data de terra, guardados no arquivo público estadual, mostram a família amarrada ao chão que recebeu do Reino.

Três armadilhas derrubam quase toda busca por Bittencourt. A primeira é a grafia. Procure também por Bitencourt, Bettencourt, Betencor e Bitancourt, e no buscador do acervo tente só o trecho final do nome.

A segunda é a versão de brasão vendida por sobrenome. Armas pertencem a pessoa e a linhagem provada em processo, nunca a um sobrenome inteiro, e nenhum site que cobra por brasão substitui a relação de embarque.

A terceira é procurar pelo nome quando o caminho é o lugar. As levas saíam da mesma freguesia em grupo, então achar a paróquia de origem de um vizinho da lista costuma abrir a paróquia da sua família também.

Achar a primeira aparição do nome segue três movimentos, nesta ordem.

Passo 1: recolha o que já existe em casa. Anote nome completo, data, cartório, livro e número de cada certidão, e feche a corrente de gerações até onde o papel provar.

Passo 2: atravesse 1889 pela paróquia. Procure batismo, casamento e óbito no FamilySearch e copie a margem inteira, principalmente a freguesia açoriana citada na certidão de casamento ou no assento de óbito.

Passo 3: entre no Projeto Resgate pelo índice onomástico e pela freguesia. Leia a relação de casais linha por linha, com a idade declarada ao lado do nome, e anote caixa, documento e ano de cada aparição.

O nome que a sua família carrega hoje entrou no Brasil dentro de uma conta de viagem paga pelo Reino. Está escrito à mão, com idade e ilha ao lado, e a página continua guardada com data e número.

"Em que ilha o seu sobrenome estava antes de entrar na lista da Coroa?"

 
 
Guia Raiz do Sobrenome · Novo
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Quiz da edição

Por que as listas nominais dos casais açorianos que chegaram a Santa Catarina não estão guardadas em nenhum cartório brasileiro?

APorque o registro civil só passou a funcionar no Brasil em 1889
BPorque os documentos foram perdidos num incêndio no porto de Desterro
CPorque a Coroa proibia o registro de família de colono comum
DPorque os cartórios só aceitavam papel produzido em solo português

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