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ED 054
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Batayporã, a cidade com sobrenome tcheco

Jan Antonín Bata perdeu as fábricas na Europa e fundou em 1953 uma cidade no sul de Mato Grosso com o próprio nome.

Sapatos antigos sobre mapa de loteamento com rio desenhado.

O sobrenome tcheco que virou cidade no MS

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Uma certidão de nascimento breve pedida a um cartório de Batayporã pelo portal Registro Civil, mantido pela Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen Brasil), sai por cerca de R$ 60 com envio digital, e a certidão em inteiro teor do mesmo assento passa de R$ 90 (consulta no portal em 28/09/2026). A diferença paga a cópia palavra por palavra do livro, com o estado escrito no cabeçalho e as anotações que o escrivão fez na margem ao longo dos anos.

Em Batayporã, o cabeçalho conta uma história. Quem nasceu ali até o fim dos anos 1970 foi registrado como natural de Mato Grosso, porque o Mato Grosso do Sul só foi criado por lei federal em 1977 e instalado em 1979.

A cidade fica no sudeste sul-mato-grossense, perto do rio Paraná, e o nome dela é meio tcheco, meio guarani. Bata vem do sobrenome de Jan Antonín Bata, o industrial que comandou a maior fábrica de sapatos da Europa entre as duas guerras mundiais. Yporã junta y (água, rio) e porã (bonito), duas palavras do guarani.

Jan Antonín chegou ao Brasil nos anos 1940, longe da ocupação nazista da Tchecoslováquia. Depois da guerra, o novo governo do país estatizou as fábricas da família em Zlín, na Morávia, e um tribunal tcheco o condenou à revelia, sem ele presente.

Sem as fábricas, ele virou fundador de cidades. Comprou terras no oeste paulista e no então sul de Mato Grosso, abriu estradas, loteou chácaras e assentou famílias de lavradores. Batayporã nasceu desse projeto em 1953, e o sobrenome dele ficou no mapa do país em mais de um município.

O sobrenome, porém, chegou ao mapa já mutilado. Na grafia tcheca, o nome da família leva um sinal sobre o t, e esse sinal não existia na máquina de escrever de nenhum cartório brasileiro.

A edição segue esse sobrenome até a origem, depois o livro onde os colonos ficaram registrados, e termina no caminho para pedir o papel brasileiro e o tcheco.

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I  O Sobrenome do Dia

Baťa, o t que perdeu o sinal

O sobrenome de Jan Antonín Bata se escreve Baťa em tcheco, com háček (o sinal em forma de v, que sobre o t vira um apóstrofo). O sinal muda o som: o ť soa como um t amolecido, perto do "ti" de "tia" na pronúncia carioca. Batayporã diz Bata com t duro, como o português lê.

A família vinha de Zlín, cidade da Morávia, a metade oriental da atual República Tcheca. Os Baťa eram sapateiros havia gerações. Em 1894, Tomáš Baťa, meio-irmão mais velho de Jan, abriu em Zlín, com os irmãos, a oficina que viraria a empresa.

A origem do sobrenome não tem resposta única. Uma leitura liga Baťa a uma palavra dialetal eslava para pai ou irmão mais velho, usada como tratamento carinhoso. Outra vê ali um apelido tirado de Bartoloměj, a forma tcheca de Bartolomeu. Nenhum documento da família decide entre as duas, e por falta desse papel a pergunta segue aberta.

Na Morávia, sobrenomes curtos terminados em -a são comuns e muitas vezes nasceram de apelidos. O apelido do avô virava o nome da casa, e o nome da casa virava sobrenome quando os livros da paróquia passaram a exigir um nome fixo para cada família.

BAŤA VIROU BATA NO CARTÓRIO, E BATA VIROU NOME DE CIDADE

Tomáš transformou a oficina num império. Construiu em Zlín bairros operários de tijolo vermelho, escolas e um hospital, e abriu fábricas em vários países. Em 1932, o avião dele caiu na decolagem, e Jan Antonín assumiu a empresa.

Jan expandiu o negócio pela década de 1930, com fábricas e cidades operárias fora da Tchecoslováquia. Em 1939, com a ocupação alemã, deixou o país. Passou pelos Estados Unidos e se fixou no Brasil.

Aqui, o háček sumiu no primeiro documento. Nos papéis brasileiros, ele aparece como Jan Antonin Bata, sem o acento do i e sem o sinal do t, e os parentes e funcionários tchecos que o seguiram passaram pela mesma tesoura.

O nome sem sinal serviu para batizar lugares. Bataguassu junta Bata a guaçu (grande, em tupi-guarani). Batatuba, no interior paulista, põe o sobrenome à frente de tuba (lugar onde algo abunda). Batayporã completa a série com a água bonita.

 
 

II  O Registro

O livro que dizia Mato Grosso

O registro civil é obrigatório no Brasil desde 1889, e o cartório é a prova legal de nascimento, casamento e óbito. Em Batayporã, a peculiaridade está no estado. Quem nasceu na cidade entre a fundação, em 1953, e a instalação do Mato Grosso do Sul, em 1979, tem no assento a naturalidade Mato Grosso.

A Lei Complementar nº 31, de 11 de outubro de 1977, assinada pelo presidente Ernesto Geisel, dividiu o estado. O sul virou Mato Grosso do Sul, com capital em Campo Grande, e o norte manteve o nome antigo, com capital em Cuiabá.

O livro não foi corrigido depois. O cartório não reescreve o que lançou: o assento fica como estava no dia do registro, e a certidão emitida agora reproduz a naturalidade antiga. Quem compara uma identidade nova com a certidão velha encontra dois estados para a mesma pessoa, e os dois estão certos.

O município também mudou de condição. Batayporã nasceu como núcleo de colonização, virou distrito e só depois ganhou prefeitura própria. O que foi registrado na fase de distrito pode estar no cartório da sede à qual o lugar pertencia.

ANTES DE 1979, QUEM NASCEU EM BATAYPORÃ NASCEU EM MATO GROSSO

Jan Antonín, por sua vez, deixou papel em outro país. Um tribunal da Tchecoslováquia o julgou em 1947, com ele no Brasil, sob a acusação de colaborar com a ocupação alemã, e o condenou a 15 anos de prisão. Ele nunca voltou para cumprir a pena nem para se defender.

A condenação pesou por décadas. Jan Antonín faleceu em São Paulo em 1965, ainda condenado. Em 2007, um tribunal de Praga anulou a sentença e reabilitou o nome dele.

A disputa pela empresa correu em paralelo. Thomas J. Bata, filho de Tomáš, levou a marca para o Canadá e venceu na Justiça a briga pelo controle da rede internacional. Jan ficou com os negócios brasileiros e com as terras onde fundava cidades.

Os colonos de Batayporã formam o outro lado do registro. Os assentos dos filhos trazem os nomes dos pais, a naturalidade deles, às vezes outro estado ou outro país, e os avós. Na certidão em inteiro teor aparecem as averbações (anotações feitas depois, na margem do livro), como casamento e retificação de nome.

 

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III  A Rota

De Batayporã ao arquivo da Morávia

A busca começa no portal Registro Civil. Escolha Mato Grosso do Sul, o município de Batayporã e o cartório de registro civil da cidade, e informe nome, data aproximada e nome dos pais. Se o livro não estiver lá, o cartório indica onde o assento foi lançado.

A segunda frente é a história do município. A página de histórico do IBGE Cidades descreve a formação administrativa de cada município brasileiro, com as leis que criaram distritos e sedes, e mostra a qual cidade Batayporã pertencia antes de ganhar prefeitura.

A terceira frente é o Arquivo Nacional. O Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN) guarda processos de naturalização, e o estrangeiro que pediu cidadania declarou cidade natal, pais e data de chegada. Serve para colonos imigrantes e para os tchecos que vieram trabalhar para Jan Antonín.

Do lado tcheco, os livros paroquiais da Morávia estão no Moravský zemský archiv (Arquivo Regional da Morávia), em Brno, que digitalizou matriky (livros de batismo, casamento e sepultamento) e deixa consultar muitos deles pela internet. Em Zlín, o Muzeum jihovýchodní Moravy (Museu do Sudeste da Morávia) guarda acervo sobre a história da empresa.

Três enganos atrasam essa busca.

O primeiro é procurar só a grafia brasileira. Teste Bata e Baťa, e nos índices tchecos lembre que Bata sem sinal pode ser outro sobrenome, de outra família.

O segundo é esquecer a mudança de estado. Quem procura natural de Mato Grosso do Sul num registro de 1960 não encontra, porque o livro diz Mato Grosso.

O terceiro é pedir a certidão breve. Ela omite a margem, e é na margem que aparecem casamento, retificação e naturalização.

Passo 1: no portal Registro Civil, peça a certidão em inteiro teor do parente mais antigo nascido em Batayporã ou na região, escolhendo o cartório da cidade.

Passo 2: no IBGE Cidades, confira a qual município e a qual estado o lugar pertencia no ano do nascimento.

Passo 3: se a naturalidade dos pais for tcheca, busque a paróquia de origem nas matriky digitalizadas do arquivo de Brno, testando a grafia com e sem sinal.

Peça também a certidão de casamento dos pais do registrado. Ela costuma trazer a naturalidade dos avós, e é o elo que leva de Batayporã à terra de onde a família veio.

"Na sua família, alguém nasceu num lugar que depois mudou de nome, de estado ou de país?"

Hoje, até as 22h: abra o histórico do IBGE Cidades do município onde seu avô nasceu e anote num papel, em uma linha, a qual cidade e a qual estado o lugar pertencia no ano do nascimento.

 
 
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Quiz da edição

Segundo a edição, o que aconteceu em 1932 e levou Jan Antonín Baťa a assumir o comando da fábrica da família?

ATomáš Baťa se mudou para o Brasil e passou o comando ao irmão
BUm tribunal tcheco condenou Tomáš Baťa à revelia
CO avião de Tomáš Baťa caiu na decolagem
DTomáš Baťa vendeu as fábricas para o governo tcheco

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