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Raiz do Sobrenome   Raiz do Sobrenome
ED 049
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Álvares do Caramuru: o que o registro confirma na Bahia

Diogo Álvares Correia existiu e casou filhas na Bahia do século XVI, e a lenda que as famílias repetem vai bem além do papel.

Arcabuz antigo na areia, com rosário e livro paroquial aberto.

Da praia da Bahia ao livro de 1768

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Uma certidão de inteiro teor pedida a um cartório de Salvador custa cerca de R$ 70 na tabela de emolumentos de 2026 do Tribunal de Justiça da Bahia, e o Catálogo Genealógico das Principais Famílias, do frei Antônio de Santa Maria Jaboatão, sai por R$ 0 nas páginas digitalizadas da Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, que o publicou em 1889 (consulta em 20/09/2026). A distância tem explicação: a certidão prova uma vida recente, e o catálogo, escrito em 1768, é a fonte gratuita que quase toda árvore baiana cita quando diz que descende de Caramuru.

Em almoço de família no Recôncavo, a frase aparece cedo. A avó conta que a linhagem vem do náufrago português que virou chefe entre os tupinambás e da índia que atravessou o oceano para casar com ele. O neto escuta, guarda, repete no grupo da família, e ninguém pergunta onde está a folha que liga a avó ao casal.

A frase tem base real. Diogo Álvares Correia, português nascido em Viana do Castelo, chegou à costa da Bahia por volta de 1510, viveu décadas entre os tupinambás e recebeu deles o apelido Caramuru. Casou com Paraguaçu, filha de um chefe local, batizada Catarina na França. O casal teve filhos e filhas, e as filhas se casaram com portugueses em Salvador.

O problema está no intervalo. Entre essas filhas e uma família baiana de hoje cabem uns dezesseis casamentos, e cada um pede um papel que costuma faltar. A tradição salta o intervalo inteiro em uma frase. O registro anda um passo por vez e para onde a folha some.

A edição segue a ordem que a pesquisa exige: primeiro a palavra Álvares e o apelido tupi, depois o papel que sobreviveu dos séculos XVI e XVIII, e por fim o caminho para testar a própria árvore sem comprar lenda.

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I  O Sobrenome do Dia

Um patronímico português e um apelido tupi

Diogo Álvares Correia carregava dois sobrenomes de origens diferentes. Álvares é patronímico (sobrenome tirado do prenome do pai) e quer dizer filho de Álvaro, com o sufixo -es que o português medieval herdou do genitivo latino, a forma que indica posse. Correia vem de apelido de ofício ou de lugar, comum no Minho, região do norte de Portugal onde fica Viana do Castelo.

Álvares era sobrenome corriqueiro em Portugal. Qualquer homem filho de um Álvaro podia usá-lo, e o sobrenome sozinho, portanto, não prova parentesco com Diogo. Um Álvares da Bahia de hoje pode vir dele, de um cristão-novo chegado em 1600 ou de um lavrador de Braga que desembarcou em 1750.

Caramuru é outra camada. A palavra vem do tupi e designa a moreia (peixe comprido de corpo liso que vive entre pedras), e a explicação mais aceita liga o apelido ao náufrago encontrado entre as rochas da praia. A versão popular, a do filho do trovão que assustou os índios com um tiro de arcabuz (arma de fogo portátil de cano longo), aparece em cronistas do século XVII e ganhou força com o poema de 1781.

O SOBRENOME ÁLVARES NÃO APONTA O CARAMURU: APONTA QUALQUER FILHO DE ÁLVARO, E HAVIA MILHARES DELES EM PORTUGAL

Os filhos do casal usaram Álvares, e o apelido tupi não virou sobrenome de cartório nessa geração. Gaspar, Gabriel e Jorge Álvares aparecem como filhos homens, e as filhas Genebra, Apolônia, Graça e Madalena Álvares entram nos registros pelo casamento. Com o marido português, os netos passavam a usar o sobrenome paterno, e o Álvares da mãe se perdia em duas gerações.

Caramuru só reapareceu como sobrenome muito depois, adotado por famílias que quiseram gravar a descendência no próprio nome. O sobrenome Caramuru encontrado hoje em listas telefônicas da Bahia é, na maior parte, escolha de família, e não herança documentada de pai para filho desde 1550.

Paraguaçu teve destino parecido. É o nome tupi do grande rio do Recôncavo, a região em volta da baía de Todos os Santos, e ela o recebeu como nome pessoal. Catarina Álvares Paraguaçu assinou documentos como Catarina, e o Paraguaçu das famílias atuais é, quase sempre, homenagem ou adoção tardia.

 
 

II  O Registro

Saint-Malo, 1528, e o catálogo de 1768

O papel mais antigo do casal está na França. Um registro de batismo da paróquia de Saint-Malo, na Bretanha, anotou em julho de 1528 o batismo de uma mulher chamada Catherine du Brésil, identificada pelos historiadores como Paraguaçu. A madrinha foi Catherine des Granches, esposa do navegador Jacques Cartier, o mesmo que depois exploraria o Canadá.

O documento responde a uma pergunta que a lenda embaralha. Paraguaçu foi à Europa com Diogo, de navio, e voltou com ele à Bahia. A cena de Moema, a outra índia que teria nadado atrás da nau até se afogar, não tem registro nenhum: nasceu na literatura.

A segunda camada é portuguesa. Diogo aparece em cartas oficiais quando Tomé de Sousa, primeiro governador-geral do Brasil, fundou Salvador em 1549. O jesuíta Manuel da Nóbrega escreveu naquele ano sobre o apoio dele na chegada, e a Coroa pagou por serviços prestados como intérprete (a língua, no vocabulário da época). O testamento de Diogo, de 1557, mencionava filhos e bens, e a viúva continuou citada em documentos.

"Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia." Frei José de Santa Rita Durão, Caramuru, 1781.

TUDO QUE A FAMÍLIA SABE DO TIRO, DE MOEMA E DO TROVÃO VEM DE UM POEMA DE 1781, NÃO DE CARTÓRIO DO SÉCULO XVI

Catarina deixou o documento mais sólido dela na Bahia. Em 1586, fez doação aos monges beneditinos da capela de Nossa Senhora da Graça e das terras em volta, e a escritura ficou no Mosteiro de São Bento de Salvador. Ela foi sepultada na Igreja da Graça em 1589, onde a lápide segue visível.

O terceiro nível é o que as famílias citam. O frei Antônio de Santa Maria Jaboatão, franciscano, montou em 1768 o Catálogo Genealógico das Principais Famílias, com as linhas que desciam das filhas do Caramuru até as casas ricas da Bahia do século XVIII. Genebra casou com Vicente Dias, de Beja; Apolônia com João de Figueiredo Mascarenhas; Graça com Antônio de Oliveira; Madalena com Afonso Rodrigues, de Óbidos.

Jaboatão escreveu mais de dois séculos depois dos casamentos, e parte das fontes que ele leu se perdeu. O catálogo mistura escrituras que ele viu com o que as próprias famílias lhe contaram, e raramente marca a diferença. Para o século XVI, ele é testemunha tardia e valiosa; para o século XVIII, ele confirma quem, naquela época, se dizia descendente.

 

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III  A Rota

Do batistério baiano ao catálogo de Jaboatão

A prova de descendência sobe do papel mais novo ao mais antigo, e em cada degrau se exige filiação, lugar e data. Uma família baiana que diz vir do Caramuru precisa chegar, pela própria documentação, a um nome que Jaboatão lista em 1768.

O primeiro trecho é civil. O registro civil no Brasil começou em 1889, e para os nascidos depois dessa data a certidão de inteiro teor, com os nomes dos avós, resolve cada geração. Para antes, a pesquisa troca o cartório pela paróquia.

O segundo trecho é eclesiástico. O Arquivo da Cúria Metropolitana de Salvador guarda livros de batismo, casamento e óbito das freguesias antigas, e boa parte está digitalizada no FamilySearch com o título Brasil, Bahia, Registros da Igreja Católica. O assento de casamento traz os pais dos noivos, e é ele que faz a árvore subir.

O terceiro trecho é o encontro com o catálogo. Quando a árvore chega a meados do século XVIII com um sobrenome das casas que Jaboatão listou, como Dias Adorno, Aragão ou Argolo, o pesquisador compara filiação por filiação. Nome igual não basta: precisa bater o casal, a freguesia e a década.

Três enganos derrubam a maioria das árvores com Caramuru.

O primeiro é usar o sobrenome Álvares como prova. Ele era comum em Portugal inteiro e chegou à Bahia por centenas de famílias sem relação com Diogo.

O segundo é pular do século XIX direto para 1510. Se entre o bisavô e o catálogo de 1768 faltam três gerações sem assento, a linha está aberta, e o honesto é escrever na árvore que a ligação é tradição familiar.

O terceiro é tratar o poema de 1781 como fonte. Santa Rita Durão fez literatura épica, com licença de poeta, e nada do que ele narra serve de prova de parentesco.

O que a pesquisa às vezes não consegue fechar tem causa concreta: muitos livros paroquiais baianos do século XVII sofreram cupim, umidade e perda, e a lacuna costuma ficar entre 1650 e 1720. Quando falta o livro, a ligação fica sem prova, e a árvore deve dizer exatamente isso.

Passo 1: peça a certidão de inteiro teor do avô ou da avó que nasceu na Bahia e anote a freguesia e os nomes dos pais.

Passo 2: procure o casamento desses pais nos livros digitalizados da Cúria de Salvador e suba uma geração por assento.

Passo 3: quando chegar ao século XVIII, compare o casal encontrado com as linhas do catálogo de Jaboatão, e só ligue o fio se filiação, freguesia e década coincidirem.

"Na sua família, quem contou primeiro a história do Caramuru, e essa pessoa mostrou alguma folha ou só repetiu o que ouviu?"

Hoje, até a meia-noite: pergunte a um parente mais velho, um só, de que freguesia baiana vinha o avô dele, e anote a resposta num caderno com a data de hoje.

 
 
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Quiz da edição

Segundo a edição, quantos casamentos aproximadamente separam as filhas de Diogo Álvares e Paraguaçu de uma família baiana de hoje que reivindica o parentesco?

AUns quatro casamentos
BUns oito casamentos
CUns dezesseis casamentos
DUns trinta casamentos

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