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A lista de bordo que a companhia preenchia em Gênova

O sobrenome do imigrante chegava ao Brás já escrito, numa folha feita pela companhia de navegação antes da partida.

Lista de passageiros de navio aberta sobre o balcão de uma agência portuária.

A lista feita no porto de embarque

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Uma cópia da lista de bordo de um navio que chegou a Santos custa R$ 0 no acervo digital do Museu da Imigração do Estado de São Paulo, e R$ 350 num pacote de busca vendido por assessoria genealógica (tabelas de assessorias paulistas consultadas em outubro de 2026). A distância paga o trabalho de achar o navio certo, porque a página em si está aberta a qualquer pessoa.

Nessa página mora a resposta para uma história que quase toda família de imigrante repete. O bisavô chegou com um sobrenome, um funcionário apressado da hospedaria não entendeu a pronúncia e escreveu outro, e a família carrega o erro desde então.

A história tem cenário bonito e um defeito: a ordem dos papéis não permite. Quando o imigrante pisava na Hospedaria de Imigrantes do Brás, em São Paulo, o sobrenome dele já vinha escrito havia semanas, numa folha preenchida antes de o navio soltar as amarras.

Quem escrevia essa folha era a companhia de navegação, no porto de embarque. Em Gênova, Nápoles ou Bremen, o agente da companhia conferia o passaporte e o bilhete e lançava cada passageiro na lista: nome, idade, profissão, procedência e destino.

O funcionário do Brás trabalhava com essa lista na mão. A tarefa dele era copiar para o livro de matrícula da hospedaria o que o navio trazia, família por família, e não perguntar ao recém-chegado como se soletrava o sobrenome.

A grafia que hoje parece estranha nasceu mais tarde, nos papéis que o imigrante e os filhos tiraram no Brasil ao longo dos anos seguintes. O porto entregou o sobrenome como estava no passaporte, e a hospedaria repetiu o porto.

Para ver o mecanismo funcionando, vale seguir o sobrenome mais comum da Itália desde o balcão da companhia, em Gênova, até o livro aberto no Brás, com a família ainda de mala na mão.

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I  O Sobrenome do Dia

Rossi, o sobrenome que embarcou pronto

O sobrenome do dia é Rossi, o mais frequente da Itália, com maior concentração no norte e no centro do país. Vem de rosso (vermelho), apelido dado a quem tinha cabelo ruivo ou pele avermelhada, que passou do pai aos filhos e virou sobrenome de família.

A terminação em i marca o plural: os Rossi, a gente do ruivo. O apelido indicava a casa inteira, e não só o homem que tinha o cabelo vermelho.

Por ser apelido de aparência, o Rossi nasceu em muitos lugares ao mesmo tempo, sem um ancestral comum. Dois Rossi de províncias diferentes quase sempre descendem de ruivos diferentes, sem parentesco algum.

Na grande emigração, famílias Rossi do Vêneto, da Lombardia e da Toscana partiram para o Brasil, a maioria pelo porto de Gênova. A viagem começava num escritório: o agente da companhia de navegação, licenciado pelo governo italiano, vendia o bilhete e recolhia o passaporte.

O passaporte vinha antes de tudo. Era emitido pela Questura (a delegacia de polícia da província) a pedido do emigrante, com o sobrenome copiado do registro civil do comune (a prefeitura italiana) onde ele nascera.

Quando o agente sentava para preencher a lista, tinha o passaporte aberto ao lado. Rossi entrava na folha como estava no documento, escrito por um italiano que lia um sobrenome italiano, sem mal-entendido de pronúncia possível.

O ROSSI SAÍA DE GÊNOVA ESCRITO POR QUEM LIA O PASSAPORTE

A lei italiana de 31 de janeiro de 1901, a lei número 23 sobre emigração, amarrou o procedimento. Ela criou o Comissariado Geral da Emigração e obrigou cada vettore (o transportador, a empresa que vendia a passagem) a ter licença e a responder pelo que constava a bordo, com inspetores do governo nos portos de partida.

A lista fazia a viagem inteira com o navio. Em Santos, ela seguia com os passageiros no trem que subia a serra até o Brás, e chegava à hospedaria junto com as famílias que descrevia.

No livro de matrícula, o funcionário reproduzia o que a lista trazia. Se ali estava Rossi, saía Rossi, ao lado da idade, do estado civil e da profissão declarados em Gênova semanas antes.

O livro do Brás ainda acrescentava dados que a lista não tinha: a fazenda ou a cidade do interior para onde a família seguiria, contratada ali mesmo, e o número da matrícula que acompanhava cada imigrante nos dias de hospedagem.

Quando um descendente de Rossi encontra outra forma do sobrenome na família, o desvio não está no porto nem na hospedaria. Está num papel feito no Brasil anos depois da chegada, e a data desse papel é a pista que resolve o caso.

 
 

II  O Registro

A folha assinada antes da partida

O registro do dia é a lista de bordo, também chamada de lista de passageiros ou manifesto (a relação oficial de quem viajava no navio). Ela era um documento da companhia de navegação, preenchido no porto de embarque e entregue às autoridades no porto de chegada.

Cada linha correspondia a um passageiro. A folha trazia nome, idade, sexo, estado civil, profissão, nacionalidade, última residência e, em muitos modelos, o destino declarado no Brasil.

Para a companhia, a lista também valia dinheiro. Nas viagens com passagem paga pelo governo de São Paulo, a empresa recebia por imigrante transportado, e a conferência era feita contra a lista. Família incompleta ou passageiro sem linha podia atrasar o repasse do governo, e o agente tinha todo interesse em preencher com cuidado.

A LISTA ERA PAPEL DA COMPANHIA, FECHADO ANTES DE O NAVIO SAIR

O mito tem gêmeo famoso nos Estados Unidos. Lá, a história conta que inspetores de Ellis Island, a ilha de inspeção de imigrantes de Nova York, rebatizavam italianos, poloneses e judeus na fila.

O historiador Vincent Cannato, no livro American Passage: The History of Ellis Island (A passagem americana: a história de Ellis Island, 2009), mostra que os inspetores trabalhavam a partir dos manifestos preenchidos na Europa e apenas conferiam cada passageiro contra a linha já escrita. Muitos falavam a língua dos recém-chegados, e intérpretes circulavam pelo salão.

No Brás, o mecanismo se repetia em escala menor. Em muitos volumes da matrícula da hospedaria, hoje digitalizados pelo Museu da Imigração, as famílias aparecem na mesma ordem em que estão na lista do navio, sinal de que o funcionário copiava a folha linha por linha.

Erro de porto existia, mas raro e com outra origem: o agente escrevia de ouvido quando o passageiro embarcava sem passaporte, ou a letra corrida confundia o copista. Nesses casos o erro nascia no embarque e viajava intacto até o Brasil, sem participação da hospedaria.

O mito sobrevive porque explica uma grafia estranha com uma cena só, um culpado anônimo e um momento dramático na chegada. A explicação real é mais lenta: o sobrenome mudou em papéis brasileiros tirados depois, como a carteira de identidade, o título de eleitor e o processo de naturalização, quando quem preenchia já não tinha o passaporte italiano por perto.

 

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III  A Rota

Do navio ao primeiro papel brasileiro

A rota parte da lista de bordo, porque ela é o registro mais próximo do passaporte que o bisavô carregava. No acervo digital do Museu da Imigração do Estado de São Paulo, as listas de navios que chegaram a Santos podem ser consultadas de graça, com a imagem da página original.

Para chegar à folha certa, o caminho mais curto é a matrícula da hospedaria. Ela informa o navio e a data de chegada, e com esses dois dados a lista aparece no mesmo acervo.

Passo 1: busque o sobrenome da família no acervo do Museu da Imigração, filtrando pela década provável de chegada.

Passo 2: na matrícula encontrada, anote o navio, a data de chegada e todos os parentes que viajaram juntos.

Passo 3: abra a lista de bordo desse navio e localize a linha da família, conferindo idade e procedência.

Passo 4: compare a grafia da lista com a do documento brasileiro mais antigo que a família guarda, como a carteira de identidade do bisavô ou o título de eleitor.

Se a lista e a matrícula concordam, o porto entregou o sobrenome como estava no passaporte. O desvio entrou em algum papel brasileiro, e pôr os documentos em ordem de data mostra em qual deles a forma nova aparece primeiro.

Na prática, o primeiro papel brasileiro costuma ser o casamento do imigrante ou o registro de nascimento do primeiro filho nascido aqui. Os dois foram feitos a partir do que o próprio imigrante declarou ao escrivão, já sem lista nem passaporte sobre a mesa.

Se a lista já traz outra forma, o erro nasceu no embarque, e a pista atravessa o oceano. Muitos Archivi di Stato (os arquivos estaduais de cada província italiana) guardam os registros de passaportes da Questura, com o sobrenome como saiu do registro civil.

Nem toda lista sobreviveu, e o museu não tem a série completa de chegadas a Santos. Quando a folha do navio se perdeu, a matrícula do Brás continua sendo a cópia mais fiel dela, porque foi feita a partir dela. Para quem desembarcou no Rio de Janeiro, as relações de passageiros estão no Arquivo Nacional, consultáveis pelo sistema SIAN.

“Na lista de bordo da sua família, o sobrenome está escrito como você assina hoje?”

Hoje, até as 22h: procure 1 sobrenome da família no acervo digital do Museu da Imigração e anote o navio e a data de chegada.

 
 
Quiz da edição

Segundo a edição, quem preenchia a lista de bordo com o sobrenome do imigrante, antes mesmo do navio sair do porto?

AO funcionário da Hospedaria de Imigrantes do Brás, ao entrevistar a família
BO capitão do navio, durante a travessia até Santos
CO agente da companhia de navegação, no porto de embarque
DA Questura da província italiana que emitia o passaporte

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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