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A Inquisição interrogou a aldeia sobre o avô

Para virar familiar do Santo Ofício, o candidato tinha a linhagem investigada; os processos estão grátis na Torre do Tombo.

Maço de processo do século XVIII amarrado com fita, ao lado de um selo de lacre quebrado.

Processo de habilitação do Santo Ofício

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No século XVIII, um lavrador do Minho que quisesse virar familiar do Santo Ofício (agente leigo da Inquisição, sem batina e sem salário) precisava de mais do que boa fama na missa. Antes da resposta, um padre comissário ia até a freguesia dele, outro até a terra da mãe, e os dois faziam a mesma pergunta a vizinhos velhos: os pais, os avós e os bisavós do candidato eram cristãos-velhos, sem sangue judeu, mouro ou mulato?

As respostas eram escritas por um notário, assinadas pelas testemunhas, ou marcadas com uma cruz por quem não sabia escrever, e seguiam para Lisboa. Lá o Conselho Geral do Santo Ofício lia o maço inteiro e decidia. Aprovado, o candidato recebia a carta de familiar e passava a andar com a insígnia do tribunal.

A devassa tinha fundamento jurídico: a limpeza de sangue. Os estatutos de limpeza de sangue fechavam cargos públicos, ordens militares, confrarias e o próprio serviço da Inquisição a quem descendesse de judeus, mouros ou outras origens que a época chamava de infectas. Ser familiar virou prova pública de linhagem limpa, e comerciantes e lavradores aos milhares disputaram a carta pelo prestígio que ela dava.

Para a genealogia, a desconfiança daquele tempo virou um presente. Um processo de habilitação reúne, numa pasta só, o candidato, os pais, os quatro avós e, muitas vezes, notícia dos bisavós, cada um com freguesia de origem e ofício. Testemunhas de setenta, oitenta anos contavam o que lembravam da família, e o notário anotava.

Esses maços sobreviveram. Quando a Inquisição portuguesa foi extinta, em 1821, o arquivo do tribunal acabou guardado na Torre do Tombo, o arquivo nacional de Portugal, em Lisboa. Hoje as habilitações estão fotografadas página a página e abertas no Digitarq, o catálogo online da Torre do Tombo, sem taxa e sem cadastro pago.

Quem tem antepassado do Minho, de Trás-os-Montes ou das ilhas, e sobretudo quem tem ramo em Minas Gerais, na Bahia ou em Pernambuco do século XVIII, tem chance real de achar um parente habilitado, ou chamado como testemunha no processo de um vizinho.

O sobrenome de hoje mostra o tipo de família que enche esses maços, e derruba um mito que circula em grupos de genealogia sobre árvores e linhagem.

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I  O Sobrenome do Dia

Pinheiro, a árvore que não acusava ninguém

Pinheiro é um sobrenome português de origem toponímica, ou seja, nascido de um lugar. Vem das terras onde havia pinheiros, e Portugal tem várias freguesias e aldeias chamadas Pinheiro, espalhadas do Minho às Beiras.

O mecanismo se repete em quase todo sobrenome de lugar. O morador que deixava uma aldeia Pinheiro e ia viver noutra freguesia virava “o do Pinheiro”, e o apelido de origem ficava na família depois que ninguém mais lembrava da aldeia.

Daí dois Pinheiro raramente terem o mesmo tronco. O sobrenome brotou em pontos diferentes do país, em famílias sem laço entre si, e atravessou o Atlântico com colonos, soldados e comerciantes de épocas distintas.

Em grupos de genealogia na internet circula uma lista: Pinheiro, Oliveira, Carvalho e outros sobrenomes de planta seriam marca de descendência judaica. Historiadores da Inquisição rejeitam a ideia. Sobrenome de árvore circulava em Portugal entre famílias de todas as origens, e nenhum regimento do tribunal usava o apelido como critério.

NOS MAÇOS DO SANTO OFÍCIO, PINHEIRO APARECE DOS DOIS LADOS

Quem digita Pinheiro no Digitarq encontra o sobrenome em habilitações de familiares aprovados como cristãos-velhos e, noutra série do mesmo arquivo, em processos de réus acusados de judaísmo. O apelido, sozinho, não decidia nada.

A pergunta dos comissários nunca mirava o sobrenome. Mirava a fama pública da família na terra: o que os vizinhos ouviram dizer dos pais, dos avós e dos bisavós do candidato, e se algum deles tinha sido preso, penitenciado ou apontado como de nação (expressão da época para quem descendia de judeus).

A habilitação, portanto, vale mais do que qualquer lista. Ela registra o que a aldeia dizia de três gerações de uma família concreta, com nomes, freguesias e datas, e não o que um sobrenome supostamente significaria.

Há ainda um ganho prático para quem pesquisa um Pinheiro. Como o sobrenome se repete em dezenas de lugares, o processo amarra o seu Pinheiro a uma freguesia específica, e é a freguesia que abre o caminho para os livros paroquiais de batismo e casamento daquela terra.

Resultado: o sobrenome comum, que no índice parece um beco sem saída, ganha endereço e geração quando aparece num maço de habilitação.

 
 

II  O Registro

Os comissários na porta da freguesia

A Inquisição portuguesa foi criada em 1536, por bula do papa Paulo III, a pedido do rei João III. O tribunal funcionava com padres e leigos: comissários (clérigos que conduziam as investigações locais), notários (escrivães do processo), qualificadores (teólogos que avaliavam livros e falas) e familiares (os agentes leigos, encarregados de prisões e vigilância).

Todo cargo exigia habilitação, e o processo seguia um roteiro fixo. O candidato abria com uma petição e a genealogia própria: nome, idade, ofício, morada, pais, avós paternos e avós maternos, cada um com a freguesia de nascimento.

O Conselho Geral mandava então fazer as diligências, as investigações de campo. Primeiro vinham as extrajudiciais, uma sondagem discreta feita por um comissário de confiança. Se nada surgia, abriam-se as judiciais, com testemunhas juramentadas nas terras de cada ascendente.

Quando o candidato era casado, a devassa dobrava. A esposa e os avós dela também passavam pela mesma investigação, e o processo ganhava uma segunda genealogia completa, com outra leva de freguesias.

Para quem morava na colônia, o trabalho atravessava o oceano. O Brasil não tinha tribunal da Inquisição, então os comissários ouviam testemunhas onde o candidato morava e, em paralelo, Lisboa mandava investigar as aldeias portuguesas dos avós.

EM 1773, A DISTINÇÃO DE SANGUE SAIU DA LEI

A carta de lei de 25 de maio de 1773, assinada no governo do marquês de Pombal, aboliu a distinção entre cristãos-novos e cristãos-velhos. As habilitações continuaram a correr, mas a pergunta sobre sangue judeu deixou de ter base legal.

O tribunal durou mais meio século. As Cortes liberais extinguiram a Inquisição portuguesa em 31 de março de 1821, e os processos de habilitação pararam naquela data.

O historiador Aldair Carlos Rodrigues, no livro “Limpos de sangue: familiares do Santo Ofício, Inquisição e sociedade em Minas colonial” (Alameda, 2011), estudou os familiares de Minas Gerais e mostrou a carta como escada social: muitos eram comerciantes nascidos no norte de Portugal, que usavam o título para provar boa linhagem na colônia.

Há também uma série menos conhecida no mesmo arquivo, a das habilitações incompletas. São processos abertos e nunca concluídos, por desistência, morte do candidato ou falta de testemunhas, e a genealogia da primeira folha está lá do mesmo jeito.

 

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III  A Rota

Do sobrenome ao maço digitalizado

A rota parte de um antepassado português com freguesia conhecida, ou ao menos com o concelho (o município português). O objetivo é achar a ficha do processo no Digitarq e abrir as imagens da primeira folha, onde mora a genealogia.

• Passo 1: entre em digitarq.arquivos.pt e use a pesquisa simples com prenome e sobrenome do antepassado.

• Passo 2: nos resultados, procure as fichas do fundo Tribunal do Santo Ofício, Conselho Geral, com a palavra Habilitações no caminho da descrição.

• Passo 3: leia o título da ficha, que costuma trazer o candidato, a naturalidade, o ofício e o cargo pedido.

• Passo 4: abra o visualizador de imagens da ficha e vá direto às primeiras folhas, onde fica a petição com pais e avós.

• Passo 5: copie à mão a genealogia, com cada freguesia citada, antes de ler os depoimentos.

No passo 1, a grafia pede paciência. O catálogo transcreve os títulos como foram escritos, então vale tentar Pinheyro, com y, e o prenome em formas antigas, como Joam no lugar de João.

A letra do século XVIII assusta no começo e cede em poucas páginas. As abreviaturas se repetem: dto é dito, frega é freguesia, e o til sobre uma letra costuma indicar letras cortadas.

Os depoimentos rendem detalhe que nenhum batismo guarda. Uma testemunha pode contar que o avô veio de outra aldeia, que a avó tinha alcunha, ou que um tio-avô seguiu para o Brasil, e cada pista dessas aponta o próximo arquivo.

Se o antepassado nunca pediu habilitação, a busca muda de série. As habilitações da Ordem de Cristo, também na Torre do Tombo, e as leituras de bacharéis (o exame de linhagem de quem queria ser magistrado) usavam a mesma lógica de limpeza de sangue e guardam genealogias parecidas.

A pesquisa do Digitarq só alcança nomes que estão no título da ficha. Testemunha não costuma aparecer ali, então a busca pela freguesia, em vez do sobrenome, ajuda a achar processos de vizinhos onde um parente depôs.

Achado o maço, a árvore ganha três gerações de uma vez, com freguesias para seguir nos livros paroquiais.

“Na sua família, algum ramo português veio do Minho ou das ilhas no século XVIII?”

Hoje, até as 22h: abra o Digitarq, faça 1 busca com prenome e sobrenome de um antepassado português e anote quantas fichas de habilitação aparecem.

 
 
Quiz da edição

Em 1773, a carta de lei que aboliu a distinção entre cristãos-novos e cristãos-velhos foi assinada no governo de quem?

ADom João III
BMarquês de Pombal
CPapa Paulo III
DConselho Geral do Santo Ofício

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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