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A Casa da Água, em Lagos, tem sobrenome baiano

Libertos da Bahia voltaram à África depois de 1835 e levaram sobrenomes como da Rocha e Olympio para Lagos e Lomé.

Balde de madeira na borda de um poço antigo de pedra.

O poço que deu nome à casa dos da Rocha

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Uma certidão de nascimento breve pedida pelo portal Registro Civil, mantido pela Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen Brasil), sai por cerca de R$ 60, e a certidão em inteiro teor do mesmo assento passa de R$ 90 (consulta no portal em 28/09/2026). A diferença paga a cópia integral do livro, com as anotações de margem que a versão breve corta.

Nenhuma das duas serve para achar um africano que viveu em Salvador antes de 1889. O registro civil brasileiro só começou naquele ano, e quem nasceu, casou ou ganhou a liberdade antes dele está nos livros da Igreja e nos cartórios de notas.

É nesses livros que começa uma família de Lagos, a maior cidade da Nigéria. Na ilha de Lagos, na rua Kakawa, existe um sobrado de dois andares que os moradores chamam de Water House, a Casa da Água. A casa pertenceu a Candido da Rocha, filho de um homem escravizado na Bahia que voltou livre para a África.

O sobrenome da Rocha não nasceu na Nigéria. Chegou de navio, com a família, e ficou no bairro que os lagosianos ainda chamam de Popo Aguda (o bairro dos brasileiros, em iorubá).

Os da Rocha não voltaram sozinhos. Depois de 1835, ano em que Salvador viveu a maior revolta de escravizados muçulmanos da história do Brasil, a província da Bahia passou a expulsar africanos libertos e a pressionar os que ficavam. Muitos juntaram dinheiro e compraram a passagem de volta.

Na costa da África Ocidental, esses retornados ganharam um nome próprio: agudás, como são chamados no Benim e no Togo, e amarôs, como ficaram conhecidos em Lagos. Levavam o catolicismo, a feijoada, o sobrado de fachada colorida e os sobrenomes portugueses que tinham recebido no batismo.

Em Lomé, capital do Togo, um desses sobrenomes chegou à presidência da República. Em Lagos, outro virou nome de casa e de poço.

A edição parte do sobrenome da Rocha, passa pelos papéis que registraram a volta e termina nos arquivos da Bahia onde a trilha pode ser refeita.

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I  O Sobrenome do Dia

A pedra que atravessou o mar

O protagonista é João Esan da Rocha, um menino iorubá do povo ijexá (grupo da região de Ilesa, no sudoeste da atual Nigéria) capturado ainda criança e vendido para a Bahia. Esan era o nome de nascimento. Da Rocha veio depois, em Salvador.

O sobrenome é português e toponímico (tirado de um lugar). Rocha quer dizer pedra grande, penhasco, e deu nome a quintas, aldeias e freguesias no norte de Portugal. Quem morava perto da rocha virava "da Rocha", e o apelido passou de pai para filho desde a Idade Média.

No Brasil escravista, o africano não herdava esse tipo de nome de ninguém. Recebia no batismo um nome cristão, e o sobrenome, quando vinha, costumava ser o do senhor ou o do padrinho. A historiadora Manuela Carneiro da Cunha descreveu o padrão em "Negros, estrangeiros" (1985): o liberto carregava no nome a marca da casa onde tinha sido escravo.

Não se sabe de qual senhor ou padrinho João Esan tirou o da Rocha. Os documentos publicados sobre a família não nomeiam essa pessoa, e o batismo dele ainda não apareceu em livro paroquial identificado. Essa lacuna é comum: o registro trazia o nome cristão e a nação africana, raramente o nome de origem.

O SOBRENOME DA ROCHA FOI DADO NA BAHIA E HERDADO EM LAGOS

Em Salvador, João Esan conseguiu a liberdade e teve um filho, Candido, nascido na cidade. Pai e filho embarcaram de volta para a costa africana e se fixaram em Lagos.

Lá, o nome português não foi trocado pelo iorubá. Virou vantagem. Entre os amarôs, o sobrenome brasileiro indicava ofício aprendido na Bahia, fé católica e rede de comércio com Salvador. Pedreiros, carpinteiros e alfaiates retornados construíram boa parte do casario do bairro.

Candido da Rocha fez fortuna no comércio e em imóveis. A casa da rua Kakawa ganhou um poço no quintal, e o poço deu o apelido. Numa ilha cercada de lagoa salobra, água doce de poço era mercadoria: a família vendia a água aos vizinhos, e a residência passou a ser chamada Casa da Água.

O sobrenome atravessou mais gerações. Descendentes da família seguem em Lagos com o mesmo da Rocha escrito à portuguesa, e o sobrado segue de pé na rua Kakawa, apontado em roteiros do patrimônio brasileiro na cidade.

 
 

II  O Registro

Os libertos que a lei de 1835 empurrou

A volta tem data de largada. Na madrugada de 25 de janeiro de 1835, africanos muçulmanos escravizados e libertos saíram às ruas de Salvador. O episódio ficou conhecido como Revolta dos Malês (malê era o nome dado na Bahia ao africano muçulmano, do iorubá imale).

A revolta foi derrotada em poucas horas. A resposta da província durou anos. A Lei provincial nº 9, de 13 de maio de 1835, autorizou o governo a deportar africanos libertos considerados suspeitos e criou uma taxa anual cobrada de todo africano liberto que ficasse na Bahia.

A lei mudou a conta de quem tinha comprado a alforria (a liberdade, registrada em carta passada no cartório). Continuar em Salvador passou a custar imposto, vigilância e a ameaça de expulsão. Para muitos, pagar a passagem de volta saiu mais barato do que ficar.

A LEI PROVINCIAL DE 1835 TRANSFORMOU A LIBERDADE EM PASSAGEM DE VOLTA

Quem saía deixava papel. Para embarcar, o liberto precisava de passaporte emitido pela polícia da província, com nome, nação africana, destino e, às vezes, a lista de familiares a bordo. O fotógrafo e etnólogo francês Pierre Verger reuniu esses registros em "Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o Golfo do Benin e a Bahia de Todos os Santos" (1968), o estudo que mapeou as famílias agudás dos dois lados do oceano.

A outra família do tema segue a mesma rota, com desfecho político. Francisco Olympio da Silva, comerciante ligado ao Brasil, se fixou na costa do atual Togo e deixou descendência com o sobrenome Olympio. O nome é de batismo: Olímpio vem do latim Olympius, "do Olimpo", a montanha dos deuses gregos, e virou sobrenome quando os filhos adotaram o prenome do pai.

O neto mais famoso nasceu em Lomé em 1902. Sylvanus Olympio estudou na London School of Economics, liderou o movimento pela independência e, em 1960, virou o primeiro presidente do Togo. Foi derrubado e morto num golpe militar em 13 de janeiro de 1963, e o sobrenome baiano entrou nos livros de história da África.

Os Olympio mostram que o sobrenome dos agudás funcionava como certidão de pertencimento. Em Lomé, em Ajudá (a atual Ouidah, no Benim) e em Lagos, ele dizia de que comunidade a família fazia parte, mesmo depois que ninguém da casa falava mais português.

 

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III  A Rota

Da rua Kakawa ao arquivo de Salvador

A busca por um ancestral agudá começa na Bahia, porque a família saiu de lá com papel. O Arquivo Público do Estado da Bahia (APEB), em Salvador, guarda os livros de passaportes da polícia provincial e os livros de notas onde as cartas de alforria foram lançadas.

A segunda frente são os livros de batismo. O Arquivo da Cúria Metropolitana de Salvador tem os registros das freguesias da cidade, e muitos deles foram fotografados e publicados pelo FamilySearch, o portal de genealogia mantido pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, com consulta gratuita mediante cadastro.

A terceira frente fica do outro lado do mar. As igrejas católicas de Lagos, de Lomé e de Ouidah guardam batismos e casamentos dos retornados, muitos escritos em português, e as famílias agudás mantêm árvores genealógicas próprias, repassadas em associações da comunidade.

Três enganos atrasam essa busca.

O primeiro é procurar o sobrenome na carta de alforria. O africano costuma aparecer ali só com o nome cristão e a nação (nagô, jeje, haussá), e o sobrenome surge mais tarde, às vezes só no passaporte.

O segundo é confiar na grafia. Olympio aparece como Olimpio, Olympio e Olímpio, e da Rocha pode vir como Rocha, sem a partícula.

O terceiro é buscar só o nome iorubá. Esan nunca entraria num livro de batismo baiano, e o africano batizado era registrado pelo nome católico.

Passo 1: no FamilySearch, abra a coleção de registros da Igreja Católica da Bahia e pesquise o nome cristão do ancestral com a palavra "nagô" ou "jeje" no campo de busca livre.

Passo 2: anote a freguesia e o ano do batismo que aparecer e confira no catálogo do APEB se a mesma década tem livro de passaportes para a Costa da África.

Passo 3: cruze o nome do passaporte com os batismos católicos de Lagos, Lomé ou Ouidah, testando as grafias com e sem acento e com e sem partícula.

Se o documento não aparecer, a lacuna tem causa conhecida: parte dos livros do século XIX se perdeu por umidade e cupim, e muitas partidas foram feitas sem passaporte, em navios de comerciantes que não passavam pela polícia.

"Na sua família, algum sobrenome veio de padrinho, de senhor ou de um lugar que ninguém mais sabe onde fica?"

Hoje, até as 22h: entre no FamilySearch, faça uma busca na coleção de batismos católicos da Bahia com o sobrenome mais antigo da sua família e anote num papel o primeiro registro que aparecer, com a freguesia e o ano.

 
 
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Segundo a edição, o que aconteceu com Sylvanus Olympio, neto do comerciante baiano Francisco Olympio da Silva, em 13 de janeiro de 1963?

AFoi reeleito presidente do Togo para um segundo mandato
BFoi derrubado e morto num golpe militar
CVoltou a Salvador para reencontrar a família da Rocha
DComprou a Casa da Água na rua Kakawa, em Lagos

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