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A árvore pedida para casar primos

Para dispensar o parentesco, a Igreja mandava desenhar três gerações das duas famílias. Esses autos estão nas cúrias diocesanas.

Autos eclesiásticos abertos com uma árvore desenhada a tinta.

O processo de dispensa e as duas famílias

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Uma certidão de inteiro teor de casamento antigo custa perto de R$ 70 num cartório paulista (tabela de emolumentos de 2026), e a imagem de um processo de dispensa matrimonial do século XVIII pode sair por R$ 0 no catálogo do FamilySearch, quando a cúria daquela diocese autorizou a digitalização. A distância vem do conteúdo: a certidão traz dois noivos e uma data, e o processo traz as duas famílias desenhadas até os bisavós.

Esse processo só existia quando os noivos eram parentes. A Igreja proibia o casamento entre primos e só abria exceção mediante licença, a dispensa, e para dar a licença o bispo precisava ver o parentesco no papel.

No Brasil colonial, o caso era comum. Vilas pequenas, fazendas distantes e famílias que preferiam casar dentro do próprio grupo produziram milhares de pedidos.

Em muitas freguesias do interior, quase todo mundo descendia dos mesmos três ou quatro casais fundadores. Duas gerações depois, achar noivo sem parentesco algum exigia viajar dias a cavalo, e a maioria preferia pedir a licença.

Cada pedido virava um maço de folhas costuradas. Dentro dele vinham a petição dos noivos, o depoimento de testemunhas, a justificativa e, no centro, a árvore.

A árvore não era enfeite. Era a prova do grau de parentesco, e o grau decidia quem podia conceder a dispensa e quanto custaria.

Para quem pesquisa família, o achado vale ouro. Num único documento aparecem os pais, os avós e os bisavós dos dois noivos, ligados pelo antepassado em comum.

Muitas dessas árvores ficaram guardadas por mais de dois séculos nas cúrias diocesanas, os arquivos administrativos de cada bispado. Livros dos séculos XVIII e XIX seguem lá, com índice por nome dos noivos em boa parte dos acervos.

E há um sobrenome brasileiro que encheu esses livros como poucos, porque fez do casamento entre primos quase uma regra de família.

A primeira seção conta quem eram esses noivos e por que casavam tanto entre si.

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I  O Sobrenome do Dia

Os Junqueira casavam entre primos

O sobrenome do dia é Junqueira. Na origem, é nome de lugar: junqueira é o terreno úmido onde crescem juncos, a planta de haste fina das margens de rio e brejo.

Em Portugal, vários lugares receberam esse nome. Um deles é a freguesia de São Simão da Junqueira, no concelho de Vila do Conde, no norte do país.

Quem vinha de um lugar assim podia ser chamado pelo lugar. Foi o caminho de muitos sobrenomes portugueses, e o Junqueira seguiu o mesmo: primeiro indicava a terra, depois passou a indicar a família.

No Brasil, o nome ganhou um endereço preciso. No século XVIII, um ramo Junqueira se fixou no Sul de Minas Gerais, na região de Campanha e Baependi, e ali formou uma das parentelas mais conhecidas do interior mineiro.

A família prosperou com gado, terras e tropas. E, para manter as fazendas no mesmo grupo, casou filhos com primos geração após geração.

OS JUNQUEIRA GUARDARAM AS TERRAS DENTRO DA FAMÍLIA

O efeito aparece nos livros. Numa mesma freguesia mineira, é comum encontrar noivo Junqueira e noiva Junqueira, filhos de irmãos ou de primos, pedindo licença ao bispo para casar.

Por esse motivo, a árvore dos Junqueira se cruza com ela mesma. O mesmo casal de antepassados pode aparecer duas, três ou quatro vezes numa árvore só, por caminhos diferentes.

Os genealogistas chamam o fenômeno de perda de costados. Uma pessoa deveria ter oito bisavós distintos; quando os pais são primos, alguns desses lugares se repetem, e a lista encolhe.

Para o pesquisador, o cruzamento confunde e ajuda. Confunde porque nomes iguais se repetem em ramos diferentes. Ajuda porque cada casamento entre parentes gerou um processo de dispensa, e cada processo explica o elo.

Quem tem Junqueira de Minas na família quase sempre tem também um desses processos à espera. Ele resolve em uma tarde a dúvida de qual Junqueira era filho de qual.

O mesmo vale para outras parentelas do interior que casavam dentro do grupo. O sobrenome de hoje é só o exemplo mais visível.

No Vale do Paraíba, no sertão da Bahia e nas vilas do Rio Grande do Sul, os livros de casamento mostram o mesmo desenho: poucos sobrenomes, muitos pedidos de dispensa e árvores que se fecham sobre si.

Entender a regra que obrigava a pedir licença é o próximo passo, porque a regra explica o que o processo traz.

 
 

II  O Registro

Três gerações num maço de folhas

O impedimento de consanguinidade vinha do direito da Igreja. Desde o Concílio de Trento, encerrado em 1563, o casamento entre parentes próximos dependia de dispensa, e o impedimento alcançava até o quarto grau.

O grau era contado de um jeito próprio, a computação canônica. Contava-se quantas gerações separavam cada noivo do antepassado comum, e valia a linha mais longa.

Na prática, primos-irmãos estavam em segundo grau, porque cada um ficava a duas gerações dos avós em comum. Primos segundos estavam em terceiro grau, e primos terceiros, em quarto.

O GRAU DECIDIA QUEM ASSINAVA A LICENÇA

No Brasil, as regras locais vinham das Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, publicadas em 1707 pelo arcebispo Sebastião Monteiro da Vide. Elas orientavam padres e bispos em toda a colônia sobre os impedimentos e os papéis exigidos.

Graus mais distantes o bispo resolvia por faculdade concedida por Roma. Graus mais próximos podiam exigir pedido à Santa Sé, com custo e espera maiores.

Por esse motivo, o processo precisava mostrar o parentesco com exatidão. Daí a árvore, desenhada à mão pelo escrivão da cúria ou pelo padre da freguesia.

O desenho seguia um padrão. No alto ficava o casal de antepassados em comum; dali desciam dois ramos, um até o noivo e outro até a noiva, com o nome de cada geração.

Ao lado da árvore vinha a causa. Os noivos precisavam justificar o pedido, e as justificativas se repetem nos autos: lugar pequeno demais para achar cônjuge fora da família, noiva acima de 24 anos sem outro pretendente, dote modesto.

Depois vinham as testemunhas. Vizinhos e parentes juravam que o parentesco era aquele mesmo e que não havia outro impedimento escondido.

Para o genealogista, a ordem das peças importa pouco. O ouro está nos nomes: o processo costuma trazer pais, avós e bisavós dos dois noivos, às vezes com a freguesia de cada um.

Esses autos ficavam na cúria, não na paróquia. A paróquia registrava o casamento no livro dela, muitas vezes com a nota da dispensa na margem; o processo completo seguia para o arquivo do bispado.

Hoje, arquivos como o Arquivo Eclesiástico da Arquidiocese de Mariana e o Arquivo da Cúria Metropolitana de São Paulo guardam séries de processos matrimoniais dos séculos XVIII e XIX. Parte delas já foi microfilmada ou digitalizada.

Em 1917, o novo Código de Direito Canônico reduziu o impedimento ao terceiro grau. Por esse motivo, os processos mais ricos em árvore se concentram antes dessa data.

 

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III  A Rota

Da nota na margem ao processo da cúria

A rota parte de um casamento católico já conhecido na sua árvore, de preferência celebrado antes de 1917, e de uma suspeita: os noivos tinham o mesmo sobrenome, ou vinham da mesma freguesia pequena.

• Passo 1: abra o assento de casamento na paróquia e procure as palavras dispensa, dispensados ou impedimento, no corpo ou na margem.

• Passo 2: anote o nome completo dos dois noivos, a data do casamento e a freguesia.

• Passo 3: descubra a qual diocese a freguesia pertencia naquele ano, porque o processo foi para o bispado da época.

• Passo 4: no catálogo do FamilySearch, pesquise o nome da diocese e procure séries de processos ou dispensas matrimoniais.

• Passo 5: se a série não estiver on-line, escreva para o arquivo da cúria com os nomes dos noivos e o ano do casamento.

No passo 1, a nota costuma ser curta. O padre escrevia algo como dispensados no impedimento de consanguinidade em terceiro grau, e essa linha já confirma que o processo existiu.

No passo 2, guarde a grafia exata do documento. O índice da cúria segue o nome que o escrivão escreveu, e um Junqueira pode estar como Junqr.ª ou com o primeiro nome abreviado.

No passo 3, cuidado com as mudanças de território. Uma freguesia do Sul de Minas podia pertencer ao bispado de São Paulo em 1790 e ao de Mariana décadas depois, e o processo ficou com quem era o bispo na data.

No passo 4, use o catálogo por lugar, não a busca por nome. Muitas séries de processos não têm índice transcrito, e as imagens só aparecem quando você abre o filme certo e folheia.

No passo 5, peça a cópia digital do processo inteiro, não só da árvore. As testemunhas e a petição às vezes trazem a idade dos noivos e o nome de parentes que a árvore omite.

Com o processo em mãos, confira cada geração pelos batismos. A árvore da cúria aponta o caminho, e o batismo confirma pai e mãe de cada nome.

Guarde a árvore desenhada ao lado da sua própria árvore. Quando um nome aparecer duas vezes, marque os dois lugares com a mesma cor, e a perda de costados fica visível numa folha só.

Se os pais dos noivos também eram parentes, haverá outro processo, uma geração acima. Na família Junqueira, é comum encadear três ou quatro.

“Na sua árvore, qual casal tinha o mesmo sobrenome nos dois noivos?”

Hoje, até as 22h: abra 1 assento de casamento de antepassados com o mesmo sobrenome e procure, na margem ou no corpo, a palavra dispensa. Anote em 1 linha o grau e a diocese.

 
 
Quiz da edição

Segundo os genealogistas citados no texto, quantos bisavós distintos uma pessoa deveria ter, antes de os casamentos entre primos como os dos Junqueira embaralharem essa conta?

AQuatro
BSeis
COito
DDezesseis

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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